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Domingo

25 de Agosto de 2019

Vereadores de Guarujá destinam quase R$ 1,6 milhão a liga de karatê; MP investiga o caso

Sete parlamentares serão alvo de inquérito; Liga Guarujaense de Karate-Do tem atuação questionada nas redes

Uma polêmica vem causando debates entre moradores de Guarujá nas redes sociais desde segunda-feira (10), quando, por meio de uma denúncia veiculada em uma rádio da Capital, descobriu-se que sete vereadores da cidade encaminharam emendas impositivas ao Orçamento Municipal destinando verbas a uma mesma entidade esportiva, a Liga Guarujaense de Karate-Do (LGK).

O valor total dos repasses sugeridos (R$ 1.599.578,80) chamou a atenção do Ministério Público de São Paulo (MPSP). O promotor de Justiça Leandro Silva Xavier, que atua no município, instaurou inquérito civil nesta quarta-feira (12), para apurar possível esquema de desvio de dinheiro público no caso. Na nota do MPSP, foram citados todos os vereadores que apresentaram as emendas: Sérgio Jesus Passos (R$ 63 mil), Wanderley Maduro (R$ 343 mil), Toninho Salgado (R$ 203 mil), Juninho Eroso (R$ 192.578,80), Manoel Francisco Nequinho (R$ 328 mil), Naldo Perequê (R$ 180 mil) e Fernando Peitola (R$ 290 mil).

A principal motivação para a abertura do inquérito é a suspeita de que a entidade não tenha atuação efetiva em Guarujá. Na portaria de instauração, o promotor considerou que, mesmo que as emendas sejam canceladas, e o repasse não seja efetivado, há "indícios de violação dos princípios da administração pública" por parte dos vereadores.

Eles terão 15 dias para esclarecer o que os levou a destinar os valores, chamados pelo MPSP de "consideráveis", para a LGK, apesar da precariedade de diversos setores do município. Já a liga precisará esclarecer se já recebeu verbas públicas municipais antes, e enviar a relação de todos os seus associados e dos eventos promovidos nos últimos cinco anos.

A Liga Guarujaense de Karate-Do existe legalmente desde outubro de 2013, de acordo com a Receita Federal. No entanto, segundo apurado pela Reportagem, não possui, atualmente, endereço na internet ou página em redes sociais.

Por conta disso, dezenas de usuários repercurtem, desde segunda, a denúncia feita pela Rádio Bandeirantes, da capital paulista. Apenas em duas publicações de uma página de notícias sobre a cidade no Facebook, acumulam-se mais de 140 reações e 100 compartilhamentos, a maioria com questionamentos sobre a entidade.

Outra discussão levantada trata do presidente da LGK, Diego Oliveira Barbosa. Ele ocupava cargo comissionado na Secretaria de Desenvolvimento e Assistência Social, com salário de R$ 6.650, mas foi exonerado pelo prefeito Valter Suman nessa terça-feira (11).

Respostas

Todos os vereadores citados foram procurados pela Reportagem, mas apenas dois responderam até o momento: Sergio Jesus dos Passos (PRB) e Toninho Salgado (PSD). Os outros cinco parlamentares ainda não retornaram o contato.

Sergio Jesus reconheceu a emenda, a segunda destinada por ele à LGK - R$ 57 mil já haviam sido repassados à entidade este ano, para custeio de um projeto social no bairro Santa Cruz dos Navegantes. Segundo o vereador, o repasse foi feito por conta própria, após consulta à Secretaria de Esportes sobre quais entidades estariam aptas a receber verba pública, e receber a resposta de que a LGK era uma delas.

Toninho Salgado afirmou que propôs a emenda, de acordo com ele, para manutenção de projeto social realizado na quadra do Grêmio Recreativo São Miguel, no bairro Vila Júlia, que já foi beneficiado pelo mesmo com um repasse de R$ 157 mil, aprovado no ano passado e em vigor neste ano.

A Prefeitura de Guarujá foi procurada para esclarecer qual era a atuação de Diego Oliveira Barbosa na administração pública, mas ainda não retornou.

A Liga Guarujaense de Karate-Do também foi procurada para se manifestar sobre sua atuação na cidade e sobre a denúncia do MPSP, mas também não respondeu aos questionamentos.