Praia do Perequê, em Guarujá (Hygor Abreu/PMG) Um estudo realizado por pesquisadores do Instituto do Mar (IMar) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) em parceria com a Prefeitura de Guarujá, no litoral de São Paulo, constatou que a Praia do Perequê tem uma das maiores contaminações por “lixos perigosos” e bitucas de cigarro do mundo. Os resíduos na praia, que faz parte de uma Área de Proteção Ambiental (APA Marinha Litoral Centro), são deixados para trás por banhistas. O que são “lixos perigosos”? Os lixos 'perigosos' são descritos como aqueles que podem colocar em risco os usuários da praia. São materiais como vidro, metais, frascos de medicamentos e objetos perfurocortantes em geral. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Os pesquisadores usaram o Clean-Coast Index, uma metodologia baseada em um índice internacional utilizado em outros estudos ao redor do mundo. Este método usa uma tabela de classificação dividida em cinco classes: muito limpo, limpo, moderado, sujo e extremamente sujo. Dentro deste índice, a praia do Perequê foi classificada como 'suja'. Apesar de não ser o nível mais alto da escala, a contaminação por lixo considerado perigoso e bitucas de cigarro alarmou os cientistas: entre 12 estudos realizados com a mesma metodologia em todo o mundo, os resultados obtidos em Guarujá ficaram entre os mais altos na análise que considera o tipo de resíduo contaminando a praia. ‘Bomba química’ Outro fator que alertou os cientistas é o excesso de bitucas de cigarro presentes na praia do Perequê. Os pesquisadores usam a expressão 'bomba-química' para exemplificar a ameaça deste tipo de material. “Quando uma pessoa fuma, ela descarta as substâncias retidas no cigarro no ambiente”, explica o professor talo Braga de Castro, do IMar-Unifesp e coordenador da pesquisa. “A bituca do cigarro retém muitas destas substâncias tóxicas e é, portanto, um tipo de lixo tóxico também”, afirma. Quando se fala em cigarro, o mais comum é associar o item à nicotina, droga psicoativa presente no tabaco e em seus derivados. No entanto, ela não é a única vilã: são mais de 7 mil substâncias presentes na fumaça do cigarro, das quais pelo menos 150 são tóxicas para os humanos e também para a fauna e a flora. “Na medida em que fumar causa males à saúde porque tem substâncias tóxicas, quando essas substâncias são liberadas para o sedimento, para a areia da praia ou até mesmo para a água do mar, elas também podem intoxicar e causar danos à saúde dos organismos”, explica o professor e pesquisador Ítalo. O dano não é o mesmo que o causado pelo fumo, mas, ainda assim, existe uma exposição aos agentes contaminantes que podem se acumular na areia ou no mar. Os impactos, geralmente, abatem principalmente sobre organismos menores que vivem na água ou nos sedimentos, o que pode gerar consequências em uma perspectiva de cadeia alimentar – mas esses tipos de dano ainda serão objeto de estudos. Ainda não é poluição Por falar em ‘danos’, cabe destacar que apesar de os pesquisadores terem detectado a presença de lixo na praia do Perequê, ainda é equivocado classificá-la como poluída. O termo correto é ‘contaminada’: embora muitos usem os adjetivos como sinônimos, há uma diferença importante entre as duas palavras no campo da ciência. Para os pesquisadores, a poluição só ocorre quando os resíduos encontrados provocam alguma consequência nos organismos. “É claro que quando eu encontro os contaminantes lá isso provavelmente causa o efeito, mas a gente não pode cravar que a praia está poluída”, explica o professor do IMar-Unifesp. Em outras palavras, não é porque a praia tem lixo deixado por banhistas que esses resíduos oferecem, necessariamente, algum risco para a vida. Para comprovar essa relação, os cientistas precisam se dedicar a uma nova pesquisa sobre os contaminantes – aliás, o termo ‘contaminada’ indica a presença de algo que não deveria estar ali. Pode parecer preciosismo linguístico, mas a didática ajuda a explicar a importância de não presumir algo sem evidências. “Pense em uma gota de veneno derramada em um oceano. É uma substância tóxica, mas dificilmente este veneno, diluído na imensidão do mar, vai causar dano a alguém que entre nesta água. É claro que, a depender da quantidade, essa situação é diferente”, exemplifica o pesquisador Ítalo. Como os pesquisadores atrelaram os resíduos aos banhistas? Antes de explicar como os cientistas chegaram à conclusão, é preciso explicar alguns dos motivos que levaram a praia do Perequê ser escolhida para o estudo do IMar-Unifesp. O professor Ítalo afirmou à Reportagem que, num mundo ideal, todas as praias seriam monitoradas, mas na realidade é preciso elencar alguns critérios para a escolha das áreas de estudo. No caso de Guarujá, o incentivo da Prefeitura, a atividade turística e a tradição das comunidades locais de pescadores caiçaras foram determinantes. Para realizar os estudos, os pesquisadores estabeleceram dez pontos na faixa de areia da praia, cada um com 100 m². Naquele espaço, foram coletados todo o lixo contido no inverno, no verão, ao longo da semana e nos sábados e domingos. Essa estratégia foi fundamental para traçar a origem dos resíduos. “Encontramos mais lixo na alta temporada e aos finais de semana, o que sugere que os principais contribuidores são, de fato, os usuários da praia, mas não a comunidade local: são os turistas que lá visitam”, diz o professor Ítalo. “No verão é mais grave, o que indica que, embora os moradores possam ser responsáveis por algum resíduo, os maiores responsáveis são os banhistas”. No inverno, os níveis de lixo foram considerados 'moderados'. Outra pista importante foi deixada pelas bitucas de cigarro coletadas, que ajudaram a minimizar a probabilidade dos resíduos virem pela corrente marítima. Os pontos de coleta dos pesquisadores também foram divididos entre areia seca e molhada, ou seja, mais distante e mais próxima do mar. O professor do IMar-Unifesp explica que as bitucas geralmente se desmancham em questão de horas na água do mar; mas a maioria foi encontrada praticamente íntegra nas porções secas. “Ali é a faixa ocupada prioritariamente pelos usuários da praia, então, com isso, determinados a origem potencial do lixo”, diz. Em números Os resíduos com mais de 3cm coletados na praia do Perequê foram recolhidos entre 2022 e 2023 por cerca de 20 voluntários, tanto no inverno quanto no verão, em dias úteis e também aos fins de semana. Foram 2.579 itens coletados numa área de 4 mil metros quadrados. Após serem armazenados, os itens foram classificados como plástico, metal, vidro, papel/papelão, roupa/têxtil e madeira processada (usada em móveis e construções). As bitucas foram classificadas em uma categoria à parte por conta da alta incidência e potencial impacto: foram 603 coletadas. Além delas, os itens que não se encaixaram em nenhuma classificação foi incluído como “outros”. E agora? A Tribuna procurou a Prefeitura de Guarujá para questionar se, a partir dos resultados da pesquisa do IMar-Unifesp, solicitada pela Secretaria do Meio Ambiente municipal, há algum plano de política pública para mitigar a contaminação encontrada na Praia do Perequê. Em nota, a Administração afirmou que estudo da Unifesp integra um robusto pacote de 35 pesquisas e projetos propostos pela Prefeitura de Guarujá e desenvolvidos junto a universidades nos últimos sete anos e meio, em parcerias diretas firmadas por meio da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Segurança Climática (Semam). A Administração Municipal entende que a ciência é pilar fundamental para o investimento em novas políticas públicas e pondera que, com a conclusão dos resultados deste levantamento, o foco agora é analisar e estabelecer soluções para mitigar o descarte irregular de resíduos na Praia do Perequê. Segundo a Prefeitura do Guarujá, no local, já são realizadas iniciativas de combate à poluição, como os projetos ‘Nossos Mares’ e ‘Mar sem Lixo’, idealizados pela entidade S.O.S. Rio do Peixe e a Fundação Florestal. Ambos incentivam que os pescadores artesanais façam a destinação adequada dos resíduos recolhidos acidentalmente nas redes de arrasto, sendo que este último reverte de R\$ 16,00 a R\$ 653,00 em créditos mensais no cartão alimentação, conforme as quantidades recolhidas. Além disso, a Administração ressaltou que também são desenvolvidos o Programa ‘Reciclou, Ganhou!’, que já retirou mais de 100 toneladas de plástico das ruas, por meio de Eco Lojas encarregadas de trocar o reciclável por produtos como alimentos e brinquedos; campanha de uso da plataforma colaborativa de reverenciamento geográfico on-line, que recebe denúncias de descarte irregular de lixo em qualquer ponto da Cidade; todos com apoio da Prefeitura. A Administração Municipal trabalha, ainda, na criação do Plano Municipal de Combate ao Lixo no Mar, um processo que já soma oficinas com a sociedade civil e até um fórum ministrado no primeiro semestre deste ano, reunindo especialistas de todo o País.