Atualmente a família está nas Ilhas Fiji, Oceano Pacífico Sul, na Oceania. depois de ter atravessado o Caribe e vários outros 'paraísos' (Arquivo Pessoal/Proibida a reprodução) Há quatro anos, Andrea e Luciano Westphal trocaram uma vida inteira no Guarujá por alguns metros quadrados que hoje podem estar ancorados diante de uma ilha paradisíaca ou enfrentando ondas de cinco metros em alto-mar. É ali, a bordo do veleiro Liberdade, que o casal cria os filhos Léah, de 7 anos, e Ian, de 5, enquanto tenta cumprir um sonho antigo: dar a volta ao mundo e, um dia, entrar novamente no Guarujá pelo mar. (Veja fotos mais abaixo) Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Eles ainda estão na metade do caminho. Neste momento, a família está nas Ilhas Fiji, Oceano Pacífico Sul, na Oceania. depois de ter atravessado o Caribe, passado por Colômbia e Panamá, cruzado o Canal do Panamá e encarado 23 dias seguidos de navegação pelo Pacífico até chegar à Polinésia Francesa. Austrália e Indonésia são os próximos destinos. A história começou muito antes de o Liberdade levantar âncora. Luciano mudou-se para o Guarujá aos 10 anos e cresceu entre marinas e motores. O pai trabalhava com manutenção de barcos e ele seguiu o mesmo caminho, especializando-se em mecânica náutica e, mais tarde, assumindo a empresa da família. Andrea, ao contrário, não tinha intimidade alguma com velas, ventos e navegação. Formada em Educação Física, trabalhava no Sesc Bertioga e mantinha um estúdio de treinamento funcional no Guarujá quando conheceu Luciano, em 2012. O namoro mal começara quando ele resolveu colocar as cartas: “Eu estou gostando muito de você, acho que a gente vai ter uma vida pela frente. Só que eu tenho um sonho, que é dar a volta ao mundo de veleiro. Se você quiser vir comigo, vem. Se não quiser, é uma coisa que você precisa saber que eu vou fazer”, disse. Andrea gostava de viajar, achou a ideia bonita, mas distante, afinal, eles nem sequer tinham um veleiro. Não demorou tanto assim. Entre 2015 e 2017, durante as férias dela, o casal começou a fazer temporadas nas Bahamas em um veleiro comprado nos Estados Unidos. Era uma espécie de teste para a vida que Luciano imaginava. Andrea topou o projeto, mas apresentou sua condição: queria ter dois filhos. Casaram-se em 2017. Leah nasceu em Santos, em 2018. Em 2019, compraram no Caribe o veleiro que se tornaria a casa da família. O plano era partir quando a menina completasse um ano, mas veio a pandemia, e o barco ficou ancorado em Grenada (Caribe) e a família, no Brasil. Pandemia O adiamento trouxe Ian, “um bebê da pandemia”, como define Andrea, e também permitiu que o casal juntasse mais dinheiro para a aventura. Até que marcaram uma data definitiva. Em julho de 2022, embarcaram em um voo só de ida. No início de agosto, já estavam no Liberdade. Para partir, foi preciso desmontar a vida em terra. No começo, Andrea sofria para se desfazer das coisas. Um ano depois, telefonou para a mãe e autorizou que doasse tudo o que havia deixado para trás. “Ela perguntou: ‘Mas você não quer ver o que está dentro?’. Eu falei: ‘Não. Se não me fez falta até agora, não quero nem ver’. ”Hoje, a definição de lar ficou mais simples. “Quando alguém me pergunta onde é a nossa casa, eu digo: é o barco. A minha casa é onde o barco está.” Escola com baleias A volta ao mundo que Luciano imaginava fazer em três ou quatro anos ganhou outro ritmo quando a família descobriu que não queria simplesmente passar pelos lugares. No Caribe, ficou um ano. Em outros pontos, permanece meses. As paradas mais longas cumprem também outra função: dar a Leah e Ian a experiência de frequentar escolas e conviver com outras crianças. Foi assim em Bocas del Toro, no Panamá. E também em Morea, na Polinésia Francesa, onde os dois estudaram por quase um ano em uma escola pública francesa. O trajeto até a aula dificilmente caberia na rotina de uma criança em terra firme: eles iam de bote. Pelo caminho, podiam encontrar baleias e golfinhos. Ao redor do veleiro, tubarões faziam parte da paisagem. “Levar as crianças para a escola era um evento”, lembra Andrea. Leah e Ian falam português e inglês e chegaram a aprender francês. O contato com famílias de várias nacionalidades também já rendeu algum espanhol. Quando estão navegando, os estudos continuam a bordo. Para os pais, equilibrar essa vida diferente com a necessidade de convivência social das crianças é uma preocupação permanente, mas Andrea vê também um ganho difícil de medir. “Manter nossos filhos esse tempo todo longe das telas é um privilégio.” -álbum de fotos (1.527443) Não é só mar azul A vida no Liberdade também passa longe de ser uma sequência interminável de praias de cartão-postal. A família vive de forma simples. O veleiro se move principalmente com o vento, para economizar combustível. A água do mar é dessalinizada a bordo e se transforma em água potável. A pesca ajuda na alimentação. Em Fiji, longe de mercados, as frutas frescas vêm das ilhas: banana, papaia e o que estiver disponível. A renda vem de diferentes fontes. Luciano comprou um pequeno apartamento na Flórida, onde vivem seus pais, e o aluguel ajuda a sustentar a viagem. Há ainda parcelas da venda da antiga empresa da família, além de pequenas receitas das redes sociais e do apoio de seguidores do projeto. A decisão de vender a empresa, aliás, foi uma das mais difíceis da jornada. O negócio, com quase 30 anos, havia ficado arrendado no Brasil, mas enfrentou problemas de administração. Luciano chegou a considerar interromper a viagem e voltar, mas decidiu vendê-la e seguir viagem. No mar, também houve sustos. O maior deles aconteceu na viagem da Nova Zelândia para Fiji. Em condições difíceis, uma onda de cerca de cinco metros quebrou sobre o veleiro. O Liberdade adernou e depois voltou à posição. “Foi o momento em que ficamos mais assustados”, conta Luciano. Há ainda dias de chuva, vento forte, equipamentos quebrados e problemas no motor. Em Fiji, passaram uma semana praticamente presos dentro do barco por causa do mau tempo. “Velejar pelo mundo não é só mar azul e coqueiro”, resume ele. Ainda assim, ninguém pensa em parar. Da Indonésia em diante, a família terá uma decisão importante pela frente. Uma possibilidade é seguir pelo sul da África. Outra seria atravessar o Estreito de Suez e chegar ao Mediterrâneo, rota hoje comprometida pelos conflitos na região. Vida simples Qualquer que seja o caminho, o destino final já está escolhido há muito tempo. “Meu sonho é completar a volta ao mundo e chegar ao Guarujá. Entrar na marina onde eu trabalhava com o meu veleiro e a minha família, depois de dar a volta ao mundo”, diz Luciano. Até lá, ainda serão alguns anos de mar pela frente, tempo suficiente, talvez, para reforçar o maior aprendizado que Andrea diz carregar dessa experiência. “A gente precisa de muito pouco para viver. Me assusta ver como o mundo está girando em torno de um consumismo muito grande. Para a nossa vida, algumas coisas simplesmente perderam o sentido.” No Liberdade, quase tudo precisou caber em poucos metros quadrados. E o que não coube, eles descobriram que, na maior parte das vezes, também não fazia tanta falta.