[[legacy_image_211991]] Santos, segunda-feira, 29 de maio de 1922. Os santistas viviam a expectativa pelas festividades alusivas ao centenário da Independência do Brasil, que incluía festas e inaugurações, como o do imponente prédio da Bolsa de Café, no Centro, ou do incrível Monumento em Glorificação aos Irmãos Andradas, no espaço que ficaria conhecido por todos como Praça Independência, no coração do Gonzaga. Com um imenso espírito de alegria, a vida seguia seu curso, inclusive para os moradores do Morro Nova Cintra, que costumeiramente utilizavam-se de um curioso meio de transporte, responsável por conduzi-los de cima para baixo de maneira engenhosa e perfeita. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! O tramway do Nova Cintra, como todos se acostumaram a falar sobre aquela espécie de bonde inclinado, era na verdade um sistema funicular, parecido com o que seria implantado anos mais tarde no Monte Serrat. A diferença é que o do Nova Cintra não dependia de energia elétrica para funcionar. O conceito de movimento se baseava apenas na boa e velha gravidade. Inaugurado em 1902, sua rota ligava a base do morro, na altura do final da Avenida Rangel Pestana, onde havia uma linha final de bondes de tração animal (mais tarde substituída pelo bonde elétrico nº 16), e findava no trecho onde temos hoje a Avenida Santista, no alto da colina. O esquema do carril era bem simples. Em cada extremo, havia um chassi de tração que sustentava um carro de passageiros com capacidade para 20 pessoas e um reservatório (abaixo dos assentos) com capacidade para armazenar até duas toneladas de água (isso mesmo! Água!). Enquanto o carro situado no alto do morro era “abastecido” por meio de um conjunto de fontes e dutos de água (ligados a um lago artificial criado ali perto), o veículo que estava na base era “esvaziado”. Esse desequilíbrio de peso fazia com que os bondes se movimentassem em direções opostas. Enquanto o carro que estava no topo descia com o peso da água, o de baixo, com o reservatório vazio, subia puxado por meio de uma engenhosa ramificação de cabos de aço. Este método era chamado de tração hidráulica. O controle da descida era feito com uso de freios, instalados no chassi de tração. O sistema funcionava muitíssimo bem e era uma maravilha, para orgulho de seu criador, o empresário José Luís de Matos, que obtivera da Câmara Municipal, em 1902, a concessão para explorar o serviço. O sentimento positivo, porém, transformou-se em decepção e desespero diante da tragédia ocorrida naquele 29 de maio de 1922. O bondinho que vinha de baixo estava lotado, com 16 pessoas a bordo, entre homens, mulheres e crianças. Às 14h40, o condutor do carro, o português Alfredo de Abreu, ouviu um forte estouro. Era um cabo gasto, já cheio de ferrugem, que havia se rompido. Ele não pôde fazer nada. Em questão de segundos, o veículo desabalou de onde estava e, perto de uma casinha branca onde havia o desvio dos bondes do sistema, foi arrancado dos trilhos, capotando por mais de 15 metros, diversas vezes, até chocar-se à base do morro, quase ao lado da estação inicial, formando um montão disforme de tábuas e ferragens, oferecendo o mais horrível aspecto no meio de gritos dolorosos e cheios de angústia. Alguns dos passageiros chegaram a se jogar do carro, antes dele ser arrancado do rail. Este foi o caso de João Arruda de Camargo e sua esposa. Ambos fraturaram as pernas e outras diversas partes do corpo. Entre os ferros retorcidos, o cenário era de guerra. Duas pessoas morreram instantaneamente: um senhor que também havia se atirado do carro em movimento, Francisco Rodrigues Sá, comerciante de 67 anos, e uma menina, Olga Gibran, de 8 anos, encontrada mais tarde debaixo dos destroços. Outras 11 pessoas sofreram ferimentos graves. Uma família inteira, recém-chegada a Santos, e que visitava o alto do morro, também figurava entre os feridos. Um jovem de 19 anos teve sua perna amputada. Os primeiros socorros foram prestados por moradores locais, até a chegada das autoridades e de veículos da Santa Casa. Todos foram atendidos pelos médicos de plantão, Virgílio de Aguiar, Leão de Moura e Pedro Paulo. A notícia da tragédia se espalhou por toda a cidade e acabou por colocar um ponto final no sistema de transporte de Luís de Matos. Até a chegada dos ônibus, que só foi implantado nos anos 1950, os moradores do Nova Cintra não tiveram outras opções de transporte coletivo. Sergio Willians é jornalista e pesquisador da História de Santos. Conheça seu trabalho no site. Conservação A cidade de Braga, no norte de Portugal, existe um sistema de carris exatamente igual ao do Morro Nova Cintra. Criado em 25 de março de 1882 e localizado no Santuário do Bom Jesus do Monte, ele transporta atualmente cerca de 12 mil passageiros por ano. Atualmente, é o elevador mais antigo do mundo em funcionamento a utilizar o sistema de contrapeso de água.