[[legacy_image_346369]] Santos, domingo, 12 de agosto de 1923. Três freiras da Congregação de Nossa Senhora, cônegas de Santo Agostinho, da Capital Bandeirante, percorriam a cidade santista a fim de cumprir uma missão encomendada pelo então arcebispo de São Paulo, dom Duarte Leopoldo e Silva. No interior do veículo, enquanto cruzavam a junção da Avenida Conselheiro Nébias com a orla do Boqueirão, as freiras encontravam-se imersas em um diálogo intenso sobre a missão de localizar um espaço propício para a fundação da futura escola da ordem religiosa, voltada para meninas, na cidade portuária. Madre Marie Elisabeth, a superiora, acompanhada por madre Patrícia e madre Saint Victor, já haviam explorado sem sucesso, e por mais de oito horas, os potenciais terrenos e casarões entre Santos e o Guarujá, atravessando ruas e avenidas na esperança de encontrar o que desejavam. Porém, à medida que o dia findava, o sentimento de desânimo começava a tomar conta das freiras, que se aproximavam do ponto de desistência, pelo menos por aquele dia. Foi então que, num súbito acaso, a visão de uma torre medieval capturou o olhar de madre Patrícia, despertando nela o reconhecimento de um lar em potencial, um ninho conforme ditado pelo coração: “Les oiseaux savent toujours où faire leur nid (Os pássaros sempre sabem onde fazer seu ninho)”. Junto à torre, erguia-se um imponente palacete, às margens da velha avenida santista. Sua arquitetura remeteu às freiras à visão da casa mãe da Congregação, em Jupille, na Bélgica, que também tinha uma torre. “Deus nos guiou até aqui!”, disse a madre superior. O motorista do carro de aluguel, especialmente fretado para a tarefa das religiosas, parou o automóvel diante do belo casarão, com grande jardim frontal, onde desceram as freiras. Diante do portão da imponente residência, tocaram a campainha e rapidamente foram atendidas por uma senhora de olhar sóbrio e doce. Era dona Amélia Carraresi, a proprietária em pessoa, que as recepcionou com um cumprimento formal de boa tarde. Após as apresentações formais, madre Marie Elisabeth compartilhou o propósito de sua visita a Santos e expressou sua admiração pela imponente casa castelada. Dona Amélia, visivelmente tocada e surpresa com a visita, revelou às freiras que a recente perda de sua mãe havia enchido a casa de memórias, incentivando-a a considerar sua venda. Contudo, a situação mais surpreendente de dona Amélia foi sobre o sonho de um de seus filhos, no qual a própria Nossa Senhora anunciava que a casa se destinava a ela. Diante das três freiras que procuravam justamente adquirir o imóvel para um propósito religioso, dona Amélia não pôde deixar de ver o episódio como algo além de uma simples coincidência. O destino estava selado. Em pouco tempo, o negócio foi fechado. O marido de dona Amélia, Ugo Carraresi, tocado pela história inusitada, concedeu um desconto na compra, o que lhe rendeu a honraria de benfeitor, e no dia 8 de setembro, sob a benção da Natividade de Nossa Senhora, o acordo foi celebrado no Colégio de São Paulo, pontuando o capítulo de estreia na história da congregação em Santos. A mansão encontraria assim seu novo propósito, abrigando sonhos e educação sob a proteção divina. Nasce o Stella Maris (A Estrela do Mar)Missão cumprida, nascia em Santos o colégio da congregação de Nossa Senhora, cujos princípios educacionais remontavam ao século 16. Suas representantes haviam desembarcado em São Paulo em 1906, estabelecendo já no ano seguinte sua primeira unidade educacional exclusivamente destinada a meninas. Entre os santistas, com a casa da família Carraresi nas mãos, as irmãs decidiram compor o nome do colégio a partir de um misto de homenagem que combinava a figura de Nossa Senhora (Stella = Estrela) à cidade praiana (Maris = Mar). E assim, em janeiro de 1924, o Colégio Stella Maris abria suas portas para as matrículas, contando com a presença da madre geral Marie de Jésus, que veio da sede europeia, em Jupille, na Bélgica, especialmente para prestigiar a conquista de suas irmãs. As aulas começaram efetivamente em 25 de fevereiro de 1924, com 30 alunas matriculadas. Destas, 19 já se apresentaram com um uniforme distinto, que logo se tornaria marca registrada da instituição. Contando com faixas coloridas, parte essencial da vestimenta, elas simbolizavam o ano cursado pelas alunas. Em 28 de março, o próprio arcebispo de São Paulo, dom Duarte Leopoldo e Silva, comparecia em Santos para a cerimônia oficial de inauguração da escola. Mudanças ao longo das décadasEm dezembro de 1924, as freiras adquiriram a casa vizinha, da família Carvalho, para abrigar um Jardim da Infância misto, que operou entre 1937 e 1940. Nos primeiros tempos, o colégio adotava um modelo de semi-internato, evoluindo posteriormente para um regime de internato, que acabou descontinuado durante a Segunda Guerra Mundial devido ao racionamento de alimentos. O Stella Maris também chegou a ter um externato, intitulado Santa Tereza, voltada para filhos de operários, lavradores, pedreiros, entre outros profissionais. Na sequência dos anos, o colégio adaptou-se ao sistema educacional brasileiro e abria seus cursos conforme a necessidade. Desde 1924, eles foram evoluindo: Primário (1924); Ginásio (1925); Comercial (1928/1938); Admissão (1932-1966); Ginasial (1933-1972); Pré-Primário (1940); Colegial, Clássico e Científico (1943-1946); Aperfeiçoamento (1944); Normal (1949-1964); Colegial (1965-1975); 1º Grau – 1ª a 8ª séries (1972); Jardim I e II (1975); Maternal II (1979); Maternal I (1990); Ensino Médio (1999). E também rompeu a barreira do atendimento de um só gênero, atendendo hoje meninos e meninas, formando inúmeras gerações de santistas. Sergio Willians é jornalista e pesquisador da história de Santos. Conheça seu trabalho no site www.memoriasantista.com.br