[[legacy_image_64656]] A mão começa a ser estendida por várias razões. Pode ser a partir de um sonho com a própria história; na identificação de uma angústia já vivida; ou, ao passar pelas ruas, no incômodo do triste espetáculo da miséria em cada esquina. Seja como for, desperta lá no fundo a centelha do que há de mais nobre em ser humano: o reconhecimento mútuo e a solidariedade. Clique e Assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe acesso completo ao Portal e dezenas de descontos em lojas, restaurantes e serviços! A seguir, três histórias que poderiam ser mero fruto da pandemia e de seus desmandos institucionais, mas que, pelas razões envolvidas, tornam-se verdadeiros faróis de esperança à humanidade que há em nós. A começar pela amizade que virou solidariedade entre a jornalista Lúcia Damico, 50 anos, e a técnica em Nutrição Fabiana Patrício dos Santos Adão, também 50. “Conheço a Fabiana desde o pré (pré-escola). Temos um grupo de amigas no WhatsApp, a gente conversa todo dia”, conta Lúcia. “Semana passada, uma das meninas perguntou quanto as outras estavam gastando de supermercado. Uma respondeu R\$ 1,2 mil, fora o açougue, a outra emendou, ‘nossa, você tá fazendo mágica...’. Eu preferi não opinar”, sorri. Há cinco anos cuidando da mãe, que teve dois AVCs e sofre de hidrocefalia, com a pandemia, Lúcia e o marido, o também jornalista Luiz Alexandre Ventura, responsável pelo blog premiado Vencer Limites, vivem um dia de cada vez. “Nem de longe passamos fome, mas cortamos os supérfluos, não temos como fazer compra de mês. Minha mãe necessita de comida pastosa, e para ela, sim, a dieta é mais elaborada”. Mas daquela conversa despretensiosa no WhatsApp, uma luzinha acendeu na alma de Fabiana. Empatia “A gente está aqui de passagem. Se não for pra ajudar... pra quê?”, pergunta-se Fabiana. (Foto: Matheus Tagé) “O que a Lúcia tá passando, eu também passei”, recorda Fabiana. Durante cinco anos, ela cuidou da sogra, também acamada. Nessa época, o marido chegou a ficar desempregado. “Quando você vivencia algo próximo, se coloca no lugar”. Do ímpeto ao mãos à obra foi apenas reunir as outras amigas do grupo, a família e, de repente, até os vizinhos do prédio estavam irmanados. Em 24 horas, foi uma enxurrada de doações, que incluíram até ração para os quatro gatos de Lúcia. “Brota alguma coisa dentro da gente, de esperança, a partir do gesto. É uma semente plantada na gente”, emociona-se Lúcia. “A gente está aqui de passagem. Se não for pra ajudar... pra quê?”, pergunta-se Fabiana. Briga da bisavó A pandemia chegou. Ao ver amigos músicos sem ter onde tocar e amigos que davam aulas sem aulas para dar, Mariane Esquivel Denari, 50 anos, sentiu um amargor. Mas foi a bisavó, já falecida, quem lhe empurrou de vez ao caminho da solidariedade. “Sonhei com ela brigando comigo: por que não ajuda?”, sorri. “Ela era um exemplo, juntava dinheiro o ano todo para fazer uma festa de Natal aos presidiários”. Detalhe: quando a prisão santista ainda era a Cadeia Velha, na Praça dos Andradas. No dia seguinte, Mariane levantou determinada a fazer alguma coisa. “Fiz um post (nas redes sociais) imaginando que ajudaria meia dúzia de amigos”. De cara, ‘a meia dúzia’ se transformou em dez vezes mais – e não apenas amigos. “Recebi doações até em dinheiro. Em um primeiro momento, consegui comprar 65 cestas básicas”. A distribuição vem sendo feita à noite, após Mariane sair do trabalho como secretária em uma clínica médica. Com as óbvias limitações de espaço, ela abarrota o seu HB20 com as cestas e sai para as entregas. Também já destinou parte do arrecadado a desconhecidos de locais como Zona Noroeste e Cidade Náutica, que entraram em contato pelas redes sociais em busca de ajuda. Uma teia de auxílio começou a se formar ao redor dela: amigos que foram ajudados passaram a ajudá-la nessas logísticas do bem. Até a vizinhança foi incluída: como ela mora no último andar de um prédio sem elevador, os apartamentos próximos ao térreo abriram as portas para que ela guardasse algumas cestas. Apenas duas semanas se passaram do primeiro post para essa reviravolta em sua vida. Se o tempo é relativo, Mariane tem uma certeza: “Vou continuar até quando puder ajudar e tiver apoio”. Para participar, entre em contato pelo Facebook ou Instagram. Coração fora do peito A rua é a última fronteira da dignidade. E por acreditar que a dignidade de um tem que ser a de todos, Camila Euzébio, 44 anos, juntou-se a outras três amigas para resgatar ao menos um brilho de esperança, no olhar de quem está na rua. “É desesperador. Ver as pessoas sem nada. Gente que, percebe-se, está há pouco tempo na rua”. Munidas de Instagram e WhatsApp, Camila, as irmãs Priscilla e Fernanda Ornellas e Katia Seixas colocaram a roda da solidariedade para girar. O foco são roupas e produtos de higiene pessoal. De repente, as pastas e escovas de dente, os sabonetes e os desodorantes começaram a chegar. As amigas têm organizado kits, que também incluem roupas e itens como macarrão miojo. Em apenas três semanas, já são 150 kits e a primeira entrega será no próximo final de semana. “Estamos vivendo um momento tão dramático. Só posso acreditar que há esperança, uma consciência coletiva. A gente só vai existir como humanidade se olharmos por todos. Somos um único coração batendo fora do peito”. Resposta No domingo passado, A Tribunaapresentou a delicada situação de entidades tradicionais para se manter na pandemia. Ao menos uma delas, a Casa da Vó Benedita, recebeu o carinho santista, menos de 24 horas da publicação. “A moça do financeiro me ligou na segunda dizendo que havia vários depósitos bancários”, comemora, emocionada, Elizabeth Rovai, presidente da casa. O dinheiro foi suficiente para pagar contas em atraso e parte do salário dos funcionários. Também houve dezenas de doações de cestas básicas, mistura e roupas. “A população de Santos é muito especial. Sente quando há necessidade real e responde”.