[[legacy_image_346851]] Características como desatenção, impulsividade e hiperatividade podem estar ligados ao Transtorno do Espectro Autista (TEA). No entanto, esses mesmos sinais também podem ser vistos em quadros de Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). Por isso, o diagnóstico pode ser um desafio para médicos e familiares. Hoje é o Dia Mundial de Conscientização do Autismo, e A Tribuna conversou com mães e uma especialista sobre as dificuldades no processo para identificar do que se trata. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! A neuropediatra Karen Baldin explica que há dúvida porque, em especial após os 3 anos, os sinais clássicos do autismo podem ser menos intensos e frequentes ou serem substituídos ou mascarados. Abaixo dessa idade, o autismo pode aparecer com sinais como baixa iniciativa de comunicação verbal e gestual, resposta reduzida de atenção compartilhada, preferência por mesmos objetos, desenhos, brincadeiras e presença de rituais. Karen também esclarece que o TEA e o TDAH podem, juntos, estar presentes na mesma pessoa. É o caso de Victor Gabriel dos Santos Soares Imbernon Cortez, de 21 anos. Artista plástico, ele é diagnosticado com autismo e déficit de atenção. A mãe, Cristina Fernandes Santos Soares, que é advogada e psicopedagoga, conta que o processo para descobrir o que filho tinha foi exaustivo. Victor nasceu prematuramente e teve atraso no desenvolvimento neurológico, sensorial e motor. A família passou por médicos e equipes multidisciplinares em Santos e São Paulo. “O primeiro diagnóstico foi o de TDAH. Depois, o de autismo atípico níveis 1 e 2, voltado para a escrita. Na época, a divulgação na mídia era mais voltada ao autismo clássico, mas meu filho não apresentava estereotipias, só tinha um atraso na fala. Os médicos que consultávamos tinham dúvidas e solicitavam que fôssemos em outros especialistas. Por isso, peregrinamos até o diagnóstico fechado”, relata. Desde então, Victor começou a fazer terapias para estimulação precoce e foi para a escola. Ele começou a passar com uma psicóloga que era arteterapeuta e propôs a pintura para trabalhar o comportamento, a hiperatividade e a coordenação motora. “Ao descobrir o talento e a força de suas representações para dar visibilidade social e protagonismo às pessoas autistas, o Victor resolveu ser artista plástico e mostrar ao mundo que primeiro são a pessoa, suas habilidades e aptidões. Depois, a deficiência”, conta. Victor faz releituras de artistas como Pablo Picasso, Alfredo Volpi e Tarsila do Amaral e tem obras premiadas. Ele ainda é graduado em tecnologia em Marketing e pós-graduado em Educação Especial com ênfase em Autismo. “O processo de escolarização foi difícil por algumas barreiras, mas ele quebrou paradigmas. Meu filho não escreve formalmente até hoje, mas, com as adequações razoáveis, não há barreiras”, diz Cristina. [[legacy_image_346852]] Desafio com os filhosA arquiteta Ana Paula Chacur é mãe de Helena, de 15 anos, e Tom, de 12. Ela conta que o filho se desenvolveu bem até pouco mais de 1 ano de idade. Depois, não respondeu a estímulos e passou a ter comportamentos repetitivos, como enfileirar objetos. “Investigamos durante três meses, e veio o diagnóstico de autismo. Perto da pré-puberdade, com 9 anos, ele começou a dar muito trabalho. Ele sempre tinha uma hiperatividade motora que não regulava nem com terapia nem com medicação. O próprio psiquiatra dele começou a falar que não era autismo. Fizemos novas investigações e descobrimos que, na verdade, o quadro dele era de TDAH”, relata. Antes de Tom, Ana Paula havia passado pelo mesmo processo com Helena. Com pouco mais de 4 meses, a mãe viu que a bebê não sustentava a cabeça quando colocada de bruços, e aos 6 meses ainda não se sentava. “Senti que tinha alguma coisa errada, pois o perímetro encefálico dela também era aumentado. Então, eu troquei de pediatra e começamos com as investigações. Fomos a um neurologista, fizemos testes motores, e ela não respondia muito bem. Só depois de uma ressonância foi constatada a hipoplasia cerebelar, e isso trazia atraso motor.” Entender e agirHelena foi encaminhada a uma equipe de intervenção precoce pela psicomotricidade e começou a estimulação. A evolução não foi plena, e ela começou a ter comportamentos repetitivos como balançar o corpo, as mãos e pular. “Com isso, veio o diagnóstico de autismo. Mesmo sendo mãe de primeira viagem, não fiquei desesperada ou na chamada fase de luto. Apenas quis entender e saber o que deveria ser feito. Cheguei a parar de trabalhar para estudar isso e, hoje, sou ativista na causa e procuro ajudar outras famílias”, explica. Nesse processo, Ana Paula se divorciou e se mudou do Rio de Janeiro para Santos, onde encontrou um projeto de surfe adaptado e, engajada na questão, abriu uma empresa ligada a educação e diversidade. Por mais interação socialKaren Baldin alerta que bebês de até 2 anos não devem ser expostos a telas, tanto de televisores quanto de celulares. “Isso não quer dizer que as telas causem autismo, mas elas diminuem as possibilidades de interação social, de desenvolvimento de comunicação e imitação social, numa fase cujo desenvolvimento cerebral é intenso”, explica. A neuropediatra afirma que uma criança com experiências sociais, comunicativas e afetivas adequadas deve apresentar sinais como balbucio, palavras curtas, palmas, apontar e acenar. Ela orienta que os pais acompanhem e anotem esses marcos, para observar seu desenvolvimento. “A reciprocidade da criança em relação a sorrir, olhar, compartilhar, brincar junto, oferecer, mostrar, imitar, e se comunicar são os pontos fundamentais da avaliação do desenvolvimento social da criança a que os pais devem alertar.” Não é doençaCristina Soares alerta sobre a necessidade de conscientizar a sociedade quanto à diversidade e ao fato de que todos têm os mesmos direitos. “Autismo não é doença, é um transtorno do neurodesenvolvimento. Por isso, quanto maior a quantidade de informação, maior será o fortalecimento das políticas públicas de saúde, com profissionais mais atualizados.” Ana Paula Chacur complementa: é preciso um programa de estimulação para adultos, inclusive para casos mais graves, com dependência diária de quase 24 horas de um cuidador ou daquele que perdeu a família. “Muitos adultos não tiveram acesso a essas informações, ou passaram a vida inteira sem um diagnóstico, mas nem por isso devem ficar desassistidos.” Investir em políticas públicas para pessoas com TEA, diz Karen, propicia conscientização, acesso a diagnóstico e tratamento, redução de estigma, apoio às famílias e ambientes mais acessíveis e inclusivos. “Além disso, investimentos nessas políticas podem melhorar a qualidade de vida e promover o desenvolvimento pleno das pessoas com autismo, em muitos casos, tornando-os completamente independentes dos pais e do Estado”.