[[legacy_image_236745]] Os resultados prévios do Censo 2022 demonstram a continuidade de um fenômeno observado há três décadas na Baixada Santista: o esvaziamento das áreas centrais e a ocupação crescente das extremidades do território. Esse movimento fica mais claro quando se comparam os números atuais com os do recenseamento de 2010. Em 12 anos, Santos perdeu 5.359 moradores, enquanto Praia Grande ganhou 83.443. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! A observação é do arquiteto José Marques Carriço, doutor e mestre em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo (USP). Em sua formação, analisou a evolução socioeconômica da Baixada. No mestrado, tratou de “legislação urbanística e segregação espacial nos municípios centrais” da região e, no doutorado, das “transformações produtivas e socioespaciais” locais “na crise do capitalismo após a década de 1980”. Oito das nove cidades da região tiveram aumento populacional nos 12 anos de diferença entre os censos, promovidos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O total aferido de habitantes passou de 1.662.392 para 1.835.584 (+10,4%), ou 173.192 pessoas. Apenas no Litoral Sul (Praia Grande, Itanhaém, Peruíbe e Mongaguá), foram 128.950 a mais — uma Cubatão inteira. De modo proporcional, Bertioga teve maior alta: 34,9% (16.556 residentes). Carriço vê motivos diferentes para o crescimento do número de moradores nos extremos da Baixada. Ele considera que “Santos, mais do que nunca, está exportando população de classe média para Praia Grande”. O fenômeno também é visto em direção a Mongaguá, cuja alta da população fixa superou, por décimos, o praia-grandense. “Houve crescimento populacional negativo (em Santos) em uma década de intensa atividade imobiliária”, salientou. Em Bertioga, ao norte da região, o urbanista credita a elevação na quantidade de habitantes à migração oriunda da Região Metropolitana de São Paulo, em especial de Mogi das Cruzes, vizinha a Bertioga. São Vicente Dos oito municípios onde a população cresceu, o índice mais baixo foi o de São Vicente: 0,7%, ou 2.439 pessoas. Em parte, isso fez com que perdesse para Praia Grande a segunda posição em número de moradores na Baixada. O aumento praia-grandense foi expressivo a ponto de ter levado a Cidade do quarto para o segundo lugar regional em habitantes (Guarujá era a terceira e, a despeito de ter ganho 20.590 residentes, agora, é a quarta colocada). José Marques Carriço afirma que, somente quando houver dados por setor censitário — regiões nas quais se divide uma cidade para a pesquisa de campo —, será possível entender a dinâmica da migração dentro de São Vicente. Para ele, “é bem possível que a Área Insular tenha perdido população”, e há núcleos onde recenseadores podem ter tido mais dificuldade do que em outros. Um deles, a Fazendinha, na Área Continental, ocupada irregularmente e rápido. [[legacy_image_236746]] Geógrafo: lei urbanística é seletivaNa tese de doutorado em Demografia que apresentou em 2018 na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o geógrafo Luiz Antonio Chaves de Farias estudou a mobilidade populacional e a ocupação de espaços urbanos na Baixada. Entre suas conclusões, está a da “seletividade” na aplicação da legislação urbanística e em seu impacto no mercado imobiliário. A “dinâmica intraurbana” resultou, segundo Farias, “na instituição de uma série de legislações urbanísticas específicas que se preocuparam quase que exclusivamente em reservar as melhores localizações metropolitanas — ou mesmo criar novas — para os grupos sociais que podiam usufruir e pagar por elas”. O geógrafo também observou que “um grande estoque de domicílios potencialmente ocupáveis em caráter permanente pela população local é reservado a um público de fora da região. Dessa maneira, limitam-se as opções de moradias nas áreas mais providas de infraestrutura da orla marítima e nas áreas centrais da região onde estão concentradas as oportunidades metropolitanas”. Crescimento elitista Considerando os últimos 20 anos (até 2018), Chaves também destacou que “a produção social do espaço metropolitano da Baixada Santista tornou-se ainda mais elitista nas últimas duas décadas, com consequências relevantes sobre sua dinâmica populacional”. “Isso”, completou o geógrafo, “porque os grupos sociais menos abastados se veem sem opção de residir no caro e limitado núcleo metropolitano”. Assim se explicariam a redução populacional de Santos e o crescimento nos extremos da região. [[legacy_image_236747]]