[[legacy_image_288214]] Eu tive um pai que era ponto fora da curva. Uma espécie de Rodrigo Hilbert dos anos 1970. Cozinhava, costurava, cuidava das filhas, levava a gente para cima e para baixo e ainda era uma espécie de Professor Pardal, consertando tudo que quebrasse em casa — sempre sobrava umas pecinhas na remontagem, mas tudo bem. Enfim, era um cara que dividia as tarefas de verdade. Nada de “ajudar”. Ficava até ofendido se alguém dizia que ele ajudava. Se a casa era dele e as filhas também, para ele era um tanto óbvio que ambos tinham que cuidar para que as coisas funcionassem. Na dinâmica da nossa criação, sem dúvida, ele fazia o papel do policial bom e minha mãe, da carrasca. Se a gente queria ouvir um sim para qualquer coisa, ia correndo para o pai. Infelizmente, quase sempre a resposta era “pergunte à sua mãe”. Quem mandava era ela. Depois, tive o privilégio de ter um segundo pai, meu sogro, um homem sensacional. Daqueles amigos, com quem o filho pode contar em qualquer situação. Sempre com um sorriso no rosto, uma palavra de carinho. Seu Guilherme tinha um apelido para todo mundo. O filho era dromedário e eu, a tiquinha. Me adotou como filha e ainda consigo sentir seu abraço seguro e confortável quando fecho os olhos. Tenho cunhados e amigos que são também exemplo de pais, alguns inclusive pais-solo, o que é raro neste Brasil, no qual, segundo dados do IBGE, quase metade dos lares é chefiada por mulheres. E não só são elas que põem o pão na mesa, mas também são o suporte, a rede de segurança que sustenta emocionalmente os filhos e resolvem todas as questões práticas da vida, que são infindáveis. Isso é tão lamentável. Vergonhoso, na verdade. Eu sei, tem homem que é mesmo melhor ficar bem longe. Que não é capaz de dar um bom exemplo, de contribuir de forma positiva, o que é uma pena. Porque mesmo se eu escrever um livro não contaria todas as boas memórias que tenho com meu pai e sei que se ele estivesse vivo iria querer cultivá-las também nas netas. Iria se divertir com a caçulinha, que tem a energia de um pequeno abalo sísmico e um carisma gigante e se derreter pela sensibilidade da mais velha, toda carinhosa e um tanto dramática. Achamos que será atriz. Dele herdei tanto. A paixão pelo Santos FC, que vimos jogar em muitos estádios em nossas aventuras de pai e filha torcedores. Também a de cozinhar para um batalhão, mesmo que só tenha duas pessoas em casa. De adorar uma inutilidade de R\$ 1,99, mesmo que ela fique esquecida no fundo da gaveta. De amar Maria Bethânia e Chico Buarque, ao mesmo tempo de que um sambinha não pode faltar. Os sábados na minha casa de solteira eram de todos na cozinha. Tinha uma função para cada um. Minha mãe não deixava ninguém ficar parado. Ela era a perfeccionista e ele, o prático. Enquanto dona Carmen picava os legumes milimetricamente iguais, seo Luiz imprimia um estilo mais Pablo Picasso à sua arte. Nada simétrico. Organizada, ela já ia arrumando tudo, enquanto ele era uma junção de Katrina com tsunami. Nada ficava no lugar. Para a gente geralmente sobravam tarefas como enrolar os melhores croquetes do mundo (os da minha mãe) e passar cada um no ovo e na farinha. E tinha que caprichar. Fazer bolinhas do sequilho da Tia Nazinha, colocar na forma e achatá-las com um garfinho para ficarem pequenas moedinhas. Abrir dezenas de latas e vidros de sardinha, ervilha, palmito para as tortas e o cuscuz, sempre presente nas reuniões de família. Domingo era dia de praia seguida de churrasco, com tudo que havíamos feito no dia anterior. Meu pai fincava raízes na churrasqueira, munido de uma caipirinha (ou algumas). Ele se juntava aos namorados das filhas (que mudavam de tempos em tempos) e quem mais aparecesse. Gostava de casa cheia – não à toa teve cinco filhas e vira e mexe abrigava as amigas e primas que precisassem de um teto. Olhando para trás, percebo que ser pai era onde ele ficava mais à vontade, mais feliz. Se fosse hoje, podia virar coach de paternidade e dar aula para uns muitos por aí que fogem da raia ou são pais de rede social, que aparecem só para posar para fotos, mas com quem não se pode contar. E se tem uma coisa que meu pai nos ensinou foi a enfrentar nossas batalhas, às vezes sendo exigente demais com a gente mesmo, se cobrando além da conta. Mas, fazer o quê. Quem herda, não furta. Feliz Dia dos Pais a todos e, principalmente, aos meus exemplos.