[[legacy_image_272334]] Psiquiatra e diretor do Departamento de Saúde Mental da Secretaria de Saúde de Santos, Roberto Tykanori ressalta como o erro no conceito de moradia gera aumento de pessoas em situação de rua, desencadeando outros fatores econômicos. Mais de 86 mil pessoas vivem nas ruas só no Estado de São Paulo. Os números são do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População de Rua. Na Baixada Santista, há mais de 3 mil nessas condições. Só em Santos, o último levantamento apontou acima de 1,2 mil. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! A falta de moradia é a principal causa? Para explicar esse fenômeno da população de rua, é preciso pesar os determinantes maiores. A primeira tem a ver com a questão da política habitacional. Grande parte vai para as ruas por uma razão simples: falta de moradia possível. E tem uma questão cultural: entendemos, no Brasil, que moradia é um bem de consumo. Não é visto como direito nem como insumo de produção. Conceder moradia como insumo de produção é fundamental para produção de riqueza. Se é tratada como mercadoria qualquer de consumo, o trabalhador tem que gastar uma parte significativa para morar. Cai a capacidade de consumo dele, porque ele já gasta com moradia. Diminuem o mercado, a demanda e a economia. Isso faria muita diferença para a população de rua porque ficaria a exceção de pessoas que estariam nessa situação por qualquer outro fator estrutural. Existem pessoas em outras situações emocionais, de inserção, chamadas de errantes. Aí, é o caso de dar apoio a essas situações. São muitos desafios no atendimento a essa população? O desafio principal é, primeiramente, compreender o fenômeno. As pessoas precisam ter reconhecimento como sujeitos válidos. A garantia de direitos é um ponto fundamental, mas eu diria que, mais do que só a garantia material, são as relações de confiança, de validação e de respeito que precisam ser restabelecidas. Na experiência que tivemos em São Paulo, com um projeto chamado De Braços Abertos, uma pessoa falou assim: “Antigamente, eu passava naquele bar, pedia água e as pessoas me expulsavam. Hoje, quando eu passo com uma vassoura e colete de varredor, as pessoas me convidam para tomar café. É o mesmo bar, e sou a mesma pessoa. Mas mudou”. Ofertar as coisas sem mudar as relações é difícil porque a coisa retorna. É um ciclo? É um ciclo que volta. E, novamente sobre a moradia, queria esclarecer outro ponto: moradia não quer dizer propriedade. Em grande parte da Europa, desde a Segunda Guerra Mundial, houve enormes políticas de moradia com aluguel subsidiado. Grande parte da classe média na Europa vive assim. Na reconstrução, precisava baixar o custo da produção, e moradia pesa muito. Então, garantiram moradia por políticas difusas. Há dois anos, houve pesquisa que mostrava o seguinte: em Londres, ao serem feitas as mensurações das pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza — e lá tem 2%, 3% nessa condição —, um economista resolveu fazer um cálculo retirando quanto as pessoas gastam com moradia. A população abaixo da linha da pobreza duplica. Ou seja, tem outra parte no limite: tem lugar para morar, mas consome tanto quanto a pessoa que vive com US\$ 2 (R\$ 9,91) por dia. Recentemente, houve pesquisa em São Paulo que mostrava parcela significativa da classe média que gastava mais de 50% da renda com aluguel. O prejuízo é que a pessoa que gasta tudo isso deixa de consumir bens: a qualidade de vida piora, mas também não gera demanda econômica. Então, a indústria não produz. Vira um círculo vicioso de empobrecimento coletivo. Quando a economia retrai, a população de rua aumenta. A pandemia mostrou isso. Há um estigma sobre álcool e drogas serem origem dos problemas... A experiência que temos mostra o contrário: quem tem problemas com substâncias são os que têm seus problemas e usam álcool e drogas para amenizá-los. Mas isso cria um círculo vicioso porque os problemas pioram. Quando a gente analisa bem, a gente vê que o ponto de partida é o estado de sofrimento que a pessoa vive. Quando achamos que a origem está no consumo, não vemos quais os problemas de origem: conflitos familiares, frustração, raiva, briga, enfim. E o uso de substâncias traz um segundo problema: não resolve o primeiro e gera rejeição de quem o vê nessa condição, aumentando o consumo.