[[legacy_image_286053]] A Secretaria Estadual da Educação tem sido alvo de críticas de educadores e entidades após anunciar que as escolas estaduais não irão adotar os livros didáticos fornecidos pelo Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), do Ministério da Educação (MEC) a partir do ano que vem. Alunos do Ensino Fundamental 2 (6º ao 9º anos) e do Ensino Médio deixarão de ter livros impressos em 2024 e usarão apenas material digital. A mudança não foi bem recebida por professores também na Baixada Santista. “As mudanças são extremamente negativas e mostram-se na contramão do que a Ciência tem comprovado sobre o tema. Existem estudos que abordam que telas digitais não são meio adequado para a leitura”, diz Fabrício Andrade de Almeida, professor de Sociologia na Escola Estadual Ary de Oliveira Garcia, em Cubatão. Almeida cita a obra A Fábrica de Cretinos Digitais, do pesquisador francês Michel Desmurget, que compila mais de 500 estudos científicos, alguns deles apresentando que o aprendizado tem queda na eficácia em sistemas que investiram em educação mediada excessivamente pela tecnologia. “A tecnologia pode ser um complemento de algumas ações educacionais, mas não deve ser o centro delas”. FlexibilidadeA professora de Química Evelise Nascimento, da Escola Estadual Olga Cury, de Santos, concorda. “O material digital poderia ser implementado, mas com a opção dos livros didáticos físicos, para termos mais flexibilidade”. Para Evelise, algumas escolas podem não ter acesso a equipamentos de qualidade, o que prejudicaria o aprendizado. “Em algumas escolas vai ser difícil ter computadores para todos os alunos, uma boa conexão com a internet. A escola onde trabalho tem recursos, mas sabemos que em outras escolas a realidade não é essa”, afirma. Ela também se preocupa com o acesso dos alunos aos materiais. “Se um aluno precisar estudar em casa, como ficará? Todos os estudantes vão ter acesso a celulares? A gente sabe que a realidade de muitos alunos de escola pública não garante acesso a redes de internet de qualidade ou a um celular que vá conseguir acessar esse material”. O que dizem os especialistasCamila Fattori, coordenadora pedagógica na Comunidade Educativa Cedac, organização da sociedade civil que trabalha para a melhoria de práticas educativas das redes públicas no Brasil, vê as mudanças propostas com preocupação. Ela afirma que abandonar o PNLD, programa consolidado há cerca de 80 anos, ainda que tenha existido com outros nomes, é um movimento arriscado. “Durante esse tempo, tanto a equipe do MEC quanto as editoras têm se aprimorado bastante ao fazer esses livros didáticos. Temos livros de muita qualidade e alinhados com a base nacional comum curricular”. Para Fattori, os materiais novos seriam bem-vindos, desde que fossem complementares aos livros do PNLD. “É positivo que as secretarias façam materiais próprios, assim como as escolas e cada professor, mas normalmente isso acontece de forma complementar, e não substituindo os livros do PNLD”, afirma. O formato digital também não é o mais adequado, segundo a pedagoga. “Hoje, há estudos que demonstram que os caminhos cognitivos envolvidos na leitura no meio físico e no digital são diferentes. Alguns desses estudos começam a demonstrar que a compreensão pode não ser a mesma”. Ainda segundo ela, tal constatação fez a Suécia retroceder na digitalização do ensino. “A Suécia veio há 15 anos trabalhando em uma digitalização, em uma passagem dos materiais didáticos físicos para o digital. Diante dos resultados de competências de leitura e escrita, o país trouxe novamente os livros físicos”. Para uma mudança tão grande, é necessário ter cautela e observar o desenvolvimento de estudos na área, afirma Fattori. “Essa é uma experiência diferente e nós ainda não temos dados o suficiente sobre ela para apostarmos todas as fichas”, conclui. AssertivoO secretário estadual da Educação, Renato Feder, explicou como vão funcionar as aulas. “A aula é uma grande TV, que passa os slides em Power Point, alunos com papel e caneta, anotando e fazendo exercícios. O livro tradicional sai”, disse ele, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo. Desde abril, a gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos) tem indicado aos professores que usem o diário de classe digital, onde estão aulas de todas as disciplinas, organizadas em cerca de 20 slides. O professor abre a aula em seu celular ou computador e projeta na TV da sala. “Não é um livro didático digital. É um material mais assertivo, com figuras, jogos, imagens 3D, exercícios. Ele pode clicar em links, abrir vídeos, navegar por um museu”, afirmou Feder. Produção própriaSegundo Feder, o material, alinhado ao currículo paulista, é produzido por uma equipe da Secretaria Estadual da Educação que conta com 100 professores. O secretário afirmou que a decisão de abandonar os livros didáticos impressos foi para não dar “dois comandos” para o professor e por questionamentos à qualidade das obras do PNLD. “É para usar o livro ou o material digital da Secretaria? O que cai na prova: o livro ou material digital? O professor ficava confuso”. Ainda segundo ele, o governo estadual classificou como superficial o material que seria distribuído pelo PNLD em 2024. “Tenta cobrir um currículo muito extenso de maneira superficial”. Mudança JustificadaEm nota, a Secretaria Estadual da Educação esclareceu que permanece ativa no Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD). Afirmou, ainda, que possui material didático próprio alinhado ao currículo do Estado e usado nas 5,3 mil escolas – o que mantém a coerência pedagógica. Informou que, para os anos iniciais, o material digital contará com suporte físico; nos anos finais e Ensino Médio, o material será totalmente digital. Em outro comunicado, a Secretaria disse estar trabalhando para que todas as escolas estaduais tenham a infraestrutura necessária para que os estudantes possam acessar os materiais digitais. Serão distribuídos notebooks, tablets, smartphones e computadores. Ainda segundo a pasta, caso um aluno não consiga acesso por esses meios, as unidades escolares estão autorizadas a imprimir o material. Porém, a autorização do governo para impressão do material não é suficiente. Segundo Camila Fattori, as escolas podem não estar preparadas para fazer essas impressões. “Não tem pessoas e equipamentos para isso. Vai alterar uma rotina e gerar gasto”. Para ela, faltou debate antes de a mudança ser sacramentada. “Uma medida tão impactante quanto essa precisaria ter um plano maior por trás e uma maior escuta dos envolvidos”.