[[legacy_image_294127]] O volume de lixo internacional encontrado nas praias do litoral de São Paulo aumentou 300% desde 2019. Esse índice foi divulgado pela ONG Ecomov, que faz o trabalho de coleta desse material. O presidente da ONG, Rodrigo Azambuja, falou sobre este trabalho. Como esse lixo internacional chega às praias da nossa região? Desde 2019, a Ecomov começou a realizar esses trabalhos de campo. Esse material começou a ser identificado como lixo comum, mas é diferente, a embalagem é diferente, logomarca, rótulos são diferentes, e nós começamos a apontar isso ao Ministério Público. Foi criado um inquérito civil relacionado que trata da gestão de resíduos nos navios e através da parceria com o Ministério Público, com o Gaema da Baixada Santista, abrimos um inquérito em 2022, apontando esses materiais, de Peruíbe a Bertioga. Fizemos um relatório e todo ano a gente apresenta uma petição. Isso é acompanhado por técnicos da organização. Cada material tem uma origem de fabricação, seu fabricante e o país. A maioria é da China, mas temos de todos os continentes. E isso apontou que o problema vem acontecendo no Brasil todo, é uma falha de gestão. Através desse inquérito, a Promotoria de Justiça, do Ministério Público, começou a desvendar esse problema, e o que nós descobrimos ao longo do tempo é que existe uma falha de fiscalização dentro dos navios. As embarcações têm um custo muito alto de destinação desses resíduos e algumas empresas foram chamadas pela Promotoria para entender o que estava acontecendo. O que mais foi possível descobrir? A maioria das embarcações que chegam no porto destina de 30% a 70% desses resíduos com as empresas que fazem a limpeza. O restante eles descartam assim que saem da barra ou fora da zona de fiscalização. Então, você tem uma lacuna na fiscalização nacional e internacional. O que mais impressiona nesse lixo internacional é que há alguns materiais cancerígenos e ração humana. Desde 2019, nós encontramos alguns materiais que são de uso de pesca, são navios que vêm ao nosso País e acabam trazendo metabissulfito, que é cancerígeno e utilizado na pesca do camarão em mar aberto. Essas embalagens são de uma indústria alemã e estão sendo apontadas nesse inquérito do Ministério Público. Sobre as rações humanas, nós encontramos uma quantidade muito absurda em uma praia de reserva fechada em Peruíbe. Não encontramos em nenhum outro lugar, só nessa praia, e essa ração humana foi expedida pela guarda portuária canadense e é de fabricação americana. É ração humana para navio de guerra, navio militar. O consulado canadense entrou em contato com a gente e com o Ministério Público para perguntar a referência do material. A devolutiva dizia que não era ração militar. Aí despertou a curiosidade da Promotoria. Por que uma ração humana desse tipo, que é de uso emergencial, para fins militares, foi parar somente ali em uma reserva na Jureia, em Peruíbe? Isso começou a instigar e deu mais força. São materiais de lavagem de porão, corrosivos, inflamáveis, tíner, desinfetante de lavar navio... Não é o mesmo de casa, porém você encontra macarrão, água, macarrão instantâneo, que são materiais consumidos dentro do navio. A embarcação vem trazendo resíduos da Europa, da China e vem jogar aqui em nosso país. Abrimos esse trabalho junto com outras ONGs da Bahia, do Ceará, Paraná e acontece o mesmo problema, não tem fiscalização. Talvez tenhamos o primeiro inquérito do País sobre lixo internacional.