[[legacy_image_321184]] Estamos na época do Natal que celebra o nascimento de Jesus. Esperança e tempo de renovação fazem parte do Espírito Natalino. É uma data cheia de simbolismos. A árvore decorada com bolas coloridas, luzes e enfeites, o presépio, as guirlandas, a ceia que reúne as famílias. Mas uma das figuras mais populares foi inspirada no bispo São Nicolau, que costumava ajudar as pessoas mais pobres. Eu estou falando de Papai Noel, que é o nosso convidado de hoje no Papo Tribuna. Eu vou conversar hoje com o Zico Noel, que há 26 anos espera ansioso pela chegada de dezembro para seguir a tradição de vestir a roupa vermelha e distribuir presentes na noite de Natal. Vamos começar falando sobre o sentido do Natal. O que representa o Natal para o senhor? Pra mim, o Natal representa tudo. Alegria, confraternização, reunir a família, os amigos, fazer aquela festa gostosa e agradecer a Deus por estarmos juntos novamente. E o que te motivou a ser o Papai Noel? Eu trabalhava em uma empresa e eles precisaram de alguém para ser o Papai Noel. Como eu já tenho todos os apetrechos, só não tinha a barba e o cabelo, aceitei. Eles compraram o uniforme e eu fui ser o Papai Noel numa creche em Cubatão. E eu adorei ser o Papai Noel. Ele encarnou em mim de uma forma que nunca mais larguei. Certa vez, uma amiga da minha filha contratou um Papai Noel e ele não conseguiu ir. Como ela sabia que eu já tinha sido Papai Noel, ela pediu para eu ser o Papai Noel na festa da filha dela e eu topei. Vesti a roupa, pus a barba e tudo mais, mas eu fui com um sapato marrom, um sapato comum. Um menino viu e reclamou: “o Papai Noel está de sapato normal, o que é isso?” Eu disse pra ele que estava com pressa e esqueci de colocar as botas. Depois de um tempo, o pai do menino me mandou as botas e uso elas até hoje. E Papai Noel lembra altruísmo, bondade, alegria. Pra você, o que significa ser o Papai Noel? Pra mim, Papai Noel significa tudo. Eu já tentei me desvencilhar, mas eu não consigo. Ele está grudado em mim. E sempre quando chega no fim do ano me dá aquela vontade de ser o papai Noel outra vez. Antigamente eu fazia visita nas casas, nos clubes, nas escolas, mas devido às minhas condições físicas parei com muita coisa. E tem os ajudantes, os duendes de Natal. No dia 24 de dezembro eles me ajudam a entregar os presentes, porque eu sozinho não consigo. Há mais de 20 anos o senhor atendeu as crianças nos shoppings aqui na região. O senhor tem ideia de quantas crianças te abraçaram, quantas cartas com pedidos recebeu? Olha eu não tenho ideia, porque foram muitas crianças. Hoje essas crianças viraram adultos, são mães, pais, têm filhos. Mas eu comecei a trabalhar na Praça Independência, onde o Clube dos Lojistas montou a primeira Casinha do Papai Noel. Eu até cheguei a fazer um curso para Papai Noel, mas eu sabia mais que o próprio professor. Por isso eu digo que nasci para ser Papai Noel. E depois da Praça Independência, um shopping me contratou. Como era o contato com as crianças, tão próximo assim, tirando fotos? É muito gostoso. Só quem gosta de ser Papai Noel, que faça sem interesse financeiro, que goste de crianças, de adultos, de gente como um todo, pra saber como é esse sentimento. Vinham crianças, me abraçavam, contavam histórias, é muito bom. Eu me transformo de verdade. Falando no calor da nossa região, o senhor já teve vontade de ser um Papai Noel “praieiro”? Já teve vontade de usar um gorro vermelho, mas vestir regata e bermuda? Já sim, com certeza. Já pensei em usar gorro, regata e bermuda e ir para a praia, sentar numa cadeira, tomar água de coco, conversando com as pessoas. Já pensei, mas assim não seria o Papai Noel tradicional, infelizmente. Durante a pandemia, no primeiro ano, principalmente em 2020, não tinha vacina e o senhor pertence ao grupo de risco. As famílias estavam isoladas, então não teve contato com as crianças nos shoppings, por exemplo. Como foi viver o Natal dessa forma? Foi muito difícil, porque o shopping colocou uma televisão, uma cadeira de Papai Noel e uma fotografia minha. Fez um banner com minha imagem e colocou lá. Então as crianças iam até o shopping, tiravam fotos com os banners, mas não sentavam na minha cadeira, e tinham que usar máscara. Eu não podia ter esse contato, por fazer parte do grupo de risco. Eu não queria correr o risco de pegar e nem transmitir essa doença para ninguém. Eu mesmo perdi pessoas próximas, parentes, muitos amigos. Foi muito difícil para mim. Mas nesse momento eu pensei em uma coisa. Nós usamos a internet para falar com as pessoas por chamada de vídeo. E eu fiz muitas chamadas de vídeo, conversei com muita gente. As pessoas ligavam para falar comigo e foi assim que eu passei a Covid. Foi uma experiência bem diferente. No ano seguinte, eu tive que voltar a trabalhar, mas usando máscara. Eu trabalhei com uma máscara transparente para as pessoas me verem e elas vinham conversar, todas com máscara, e também foi muito bom. E quando as crianças vão pedir para o senhor um presente, tem algum jeitinho de abordar sobre a importância do amor e da família, tirando um pouco o foco do presente em si? [[legacy_image_321185]] Eu sempre falo que se a criança foi boazinha durante o ano ela vai ganhar presente, mas o verdadeiro simbolismo é o nascimento de Jesus. O São Nicolau, por exemplo, era um homem que gostava de dar presentes e o Papai Noel pegou esse costume e acabou assumindo o lugar do São Nicolau nesse sentido. Mas nessa época tecnológica, com celulares, videogames é bem difícil, porque acabo não conhecendo muita coisa. Eu acabo conversando com a mãe para tentar acertar o que pode e não pode. O senhor já passou por muitas situações inusitadas na frente das crianças? Eu já tive muitos pedidos complicados, pedidos de galinha, porco, cavalo, pôneis. Uma vez um menino me pediu uma pedra do Monte Fuji. Ele chegou e falou “Papai Noel, você que anda por todo lugar, traz uma pedra do Monte Fuji”, e nem era para ele, era pra presentear a avó. Esse foi um dos pedidos que nunca mais esqueci. Mas, por outro lado, os pedidos mais comuns são bicicletas e bonecas. Esses sim acontecem muito. E teve algum pedido que te deixou constrangido, Papai Noel? Quando eu fazia Papai Noel nas casas surgiam muitas perguntas embaraçosas, em que eu não tinha como responder. “Quem é minha mãe?”, “quem é meu pai?”, então são perguntas que embaraçam a gente. Eu não gostava de ficar muito tempo [nas casas] porque começavam a aparecer essas perguntas complicadas. Qual foi a história que te deixou mais emocionado? Foram três histórias. Uma criança já me pediu a mãe dela de volta. A mãe tinha falecido e eu abracei a criança e falei, “vou ver o que eu posso fazer”. Eu falei, “vamos aguardar, tá? A mãe vai chegar. Calma, calma, calma”. Outro pedido que me deixou emocionado foi quando outra criança me pediu o pai, que tinha se separado da mãe e abandonou o filho. Ele falou “eu quero meu pai de volta”. Aí a mãe me explicou a história. Então eu abracei a criança e pedi para fazer de conta que era o pai dele. Abracei a criança e ficou tudo bem. Também teve uma criança que era autista e ela não abraçava ninguém. A mãe dela explicou que ele não iria me abraçar e eu comecei a conversar com ela e, aos poucos, pedi para chegar mais perto até que pedi um abraço e ela aceitou. Eu olhei para mãe e ela estava lacrimejando. Falei, olha que coisa linda, mamãe. Esse menino é maravilhoso. Eu agradeci ele pelo abraço. Isso me emocionou também. E Papai Noel, o senhor gostaria que o Natal durasse o ano inteiro? Eu gostaria sim, porque eu adoro crianças. Eu queria abraçar as crianças todos os dias, mas infelizmente o Natal é só em desejo. O ano inteiro eu vivo o Natal, porque todo mundo me chama de Papai Noel. Para qualquer lugar que eu vou, na rua da minha casa, mesmo com roupas do dia a dia. Até as pessoas que moram na rua me chamam de Papai Noel. Agora eu já me acostumei. O senhor tem outros uniformes de Papai Noel além da tradicional roupa vermelha? Tenho um branco, também uso bege, mas com risquinhos dourados. Mas o mais tradicional é sim o vermelho. Eu já pensei até em doar algumas roupas, mas “o Papai Noel não deixa”, ele não larga de mim, ele está sempre comigo. Eu já não corto mais o cabelo e nem a barba para poder ficar mais parecido com o Papai Noel e já decidi que eu serei o Papai Noel a vida inteira. Eu gosto muito. Papai Noel, no passado o senhor foi um aprendiz. E qual é sua relação com o Papai Noel nessa época? Sinceramente, eu não sabia que era tão legal ser o Papai Noel. As crianças me adoram tanto que eu acabei me apaixonado por elas. Eu sempre gostei de conversar bastante, ser alegre com todo mundo, mas as crianças me tocaram de verdade. E minha relação é a de agora ser o Papai Noel a vida inteira. Como é, hoje, ver as crianças que cresceram e passaram a levaram os filhos para conhecer o senhor? Isso é a coisa mais gostosa do mundo. Eu tenho o maior orgulho de saber que uma pessoa que é famosa, uma pessoa que é formada, que é médica, que é engenheira, traz um filho pra conversar comigo. São todos meus amigos. Eu estou no Polo Norte, com meus ursos, com meus duendes, e os pais falam comigo todos os dias. É uma maravilha. E qual a mensagem de Natal que o senhor deixa para todas as pessoas? Eu desejo a todos os meus amigos, a todas as pessoas, a todas as crianças, um Natal maravilhoso. Não se esqueçam, hein? Natal é o nascimento de Jesus. Natal não é só festa. Nós precisamos ter fé, precisamos orar, pedir a Deus que dê paciência, que dê bastante carinho, porque a gente precisa de muito amor. E que todo mundo seja feliz. É o que eu mais desejo para todos. Um grande beijo para todo mundo. “Ho, ho, ho, ho, ho”.