[[legacy_image_339490]] Os relatos de seis famílias de comunidades que tiveram entes mortos durante a terceira fase da Operação Verão, colhidos neste domingo (3), refutam as versões das forças policiais registradas nos boletins de ocorrência. É o que afirma a ouvidora nacional do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, Luzia Cantal, que acompanhou a missão da Ouvidoria da Polícia do Estado de São Paulo, em São Vicente. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! “Nós estamos escutando a mesma narrativa de várias famílias no tocante à lesão de direitos humanos fundamentais, quer quanto à abordagem das forças policiais, quer quanto à impossibilidade de uma perícia qualificada. Uma vez que ou o local é lavado antes dos peritos chegarem, ou o corpo é retirado do lugar, havendo uma contaminação expressiva e impossibilitando uma perícia qualificada”, disse Luzia Cantal. Após ouvir seis famílias, a ouvidora declarou que “existe um confronto muito grande entre as narrativas das forças policiais e as dos familiares. Então, nós estamos aqui para poder ouvir, observar e tomar os encaminhamentos que entendermos serem necessários”. Luzia citou o caso de um jovem que foi morto dentro de casa, “em que o ambiente foi lavado com água e sabão antes dos peritos chegarem, o que demonstra várias violações seguidas e elementos de grande apreensão com relação à veracidade do que foi escrito”. Já o ouvidor da Polícia do Estado de São Paulo, Cláudio Aparecido da Silva, afirmou que dos 39 mortos na Operação Verão foi possível mapear a raça e a cor de 19. “Com base em informações que vão chegando e em boletins de ocorrência, nós fizemos o mapeamento de raça e cor de 19 vítimas, incluindo os três policiais. Dessas, 16 são pessoas negras e três são pessoas brancas. Quanto às vítimas civis, é relevante que se diga que são todas moradoras de favela, pessoas que vivem em um nível de vulnerabilidade bastante razoável, em barracos de madeira, palafitas, regiões periféricas que, inclusive, têm pouca assistência do Poder Público”. De acordo com Cláudio Silva, Cubatão, São Vicente e Santos são as cidades com o maior número de casos na Baixada Santista. “As regiões afetadas pelas operações são sempre muito periféricas e desprivilegiadas do atendimento que o Poder Público poderia dar”. O ouvidor destacou ter constatado que as periferias carecem de “centros culturais, de unidades de saúde, escolas e saneamento básico. A gente percebe que estas pessoas estão com um sentimento de violação muito forte”. Ele acrescentou ainda que “nós fomos abordados nas ruas por pessoas que estão dizendo que estão sendo tratadas de forma muito desumana por parte das forças policiais, como trabalhadores que reclamaram de abordagens com reviramento de marmitas. Outros relataram execuções de pessoas em situação de rua ou condição de drogadição. Então, a gente percebe que há um público muito vulnerabilizado, que tem sido o público-alvo dessas operações”. Cláudio mencionou ainda o caso de uma mulher alvejada na perna um mês antes de o seu filho ser morto por policiais militares. Escritório da Ouvidoria na BaixadaQuestionado se, além de missões, a Ouvidoria poderá ser transferida temporariamente para a Baixada Santista, Cláudio Silva disse que “a ideia dessas missões é trazer um acolhimento a essas pessoas, mas, se para fazer justiça houver a necessidade de a Ouvidoria se mudar para o Litoral, para dar uma atenção mais especializada para as famílias, isso vai acontecer”. O ouvidor adiantou que uma audiência pública está sendo planejada “devido à grande demanda. A gente quer ouvir as pessoas”. Já em relação às famílias ouvidas neste domingo, Cláudio afirmou que a missão deverá retornar em breve para formalizar os depoimentos. “Nós pretendemos retornar para fazer oitivas qualificadas formais para encaminhar esses documentos às autoridades, especialmente ao Ministério Público. Muito provavelmente deveremos realizar outras missões”, concluiu.