[[legacy_image_339412]] Uma missão liderada pelo ouvidor da Polícia do Estado de São Paulo, Cláudio Aparecido da Silva, esteve neste domingo (3) na Baixada Santista para ouvir moradores de comunidades que, nas últimas semanas, foram alvo de ações policiais da 3ª fase da Operação Verão, deflagrada após três policiais militares morrerem na região, alvos de criminosos. Desde 3 de fevereiro, a mobilização das forças de segurança pública na Baixada Santista resultou em 39 óbitos de suspeitos. O ouvidor vê intimidação e promete seguir mobilizado. A partir de conversas com moradores de duas comunidades da região - Dique das Caixetas, em São Vicente, e Vila dos Pescadores, em Cubatão -, Cláudio ouviu relatos como a presença de policiais no enterro de uma das vítimas da Operação Verão e a invasão da casa de uma vítima, sem mandado judicial, deixando o espaço revirado, com peças quebradas. Em Cubatão, houve passeata para criticar a ação das forças públicas de segurança. Segundo o ouvidor da Polícia, só dois dos cinco depoimentos previstos inicialmente ocorreram domingo em São Vicente. Seria um sinal de intimidação. “O que essas pessoas estão vivendo é isso: além da ação truculenta que a gente conseguiu aferir que está acontecendo, pois é muita gente falando a mesma coisa, temos percebido que, no pós-ação, há um processo de terrorismo com as pessoas, para que não possam dizer o que estão vivenciando”. Sobre a presença de policias no enterro de uma das vítimas da Operação Verão, Cláudio conta que um vídeo enviado a ele por pessoas que estavam no sepultamento são a prova da conduta. “Um sepultamento invadido por policiais causa ainda mais dor para aquela família”, pontua. No Dique das Caixetas, um morador gritou assim que notou a presença da imprensa: “justiça para os moradores da favela!”. Mas poucos aceitaram conversar com os integrantes da missão. “A gente andava na rua, tentava falar com as pessoas e percebia que elas não tinham a disposição que a gente sentiu que teriam quando decidimos vir aqui”. Uma moradora da comunidade vicentina, sob anonimato, descreveu à Reportagem um cenário de medo e provocação por parte da polícia. “A viatura aborda qualquer um. Fazem tortura psicológica quando não conseguem nada. Começam a dar murro no estômago, cutucam a pessoa com fuzil para que fale algo. Só que ela é inocente. Hoje, você tem medo de ir ao mercado, de ir à padaria, porque, a qualquer momento, podem te abordar”. O ouvidor lembrou, ainda, de dificuldades no contato com a Secretaria de Estado da Segurança Pública para obtenção dos boletins de ocorrência relativos às 39 mortes da 3ª fase da Operação Verão. “Esses boletins só têm um lado da história e parecem um 'copia e cola', com as mesmas descrições das ações. Mas a gente vai seguir atento e mobilizado”. [[legacy_image_339413]] DesabafoQuem acompanhou a missão de domingo foi o líder comunitário do Jóquei Clube, Samir Angelo. O Dique das Caixetas fica no bairro vicentino. Ele apresentava a vizinhança ao ouvidor da Polícia, mas poucos quiseram conversar. Um dos moradores do bairro vicentino chegou a dizer que a versão da polícia tinha “valor três vezes maior” do que a dos moradores. “Perdemos alguns amigos. É uma coisa muito ruim, porque eram pessoas do nosso convívio, davam 'bom dia', 'boa tarde', saíam para beber um guaraná e, de repente, iam embora. A polícia é para nos atender, não fazer opressão ou nos deixar com medo”, afirma o líder comunitário, que destaca a predominância de jovens negros entre as vítimas fatais das ações. “Podem reparar: não há brancos mortos (por policiais). Será racismo? Não sei”, indaga, em tom irônico. “Deve ser coincidência”. Angelo pede ao governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) para que a polícia não faça “coisas ruins” para a comunidade. “Muitos têm escolhido ficar em casa, por medo de não voltar”. O que diz a SSPProcurada, a SSP informou que as forças de segurança do Estado de São Paulo são instituições legalistas que atuam no estrito cumprimento do seu dever constitucional. Afirma que nenhum dos relato citados foi formalizado junto às corregedorias das polícias, que estão à disposição para apurar toda e qualquer denúncia contra agentes públicos, reafirmando o compromisso com a legalidade, os direitos humanos e a transparência. A SSP disse ainda que os casos de Morte Decorrente de Intervenção Policial (MDIP) são consequência direta da reação violenta de criminosos à ação da polícia no combate ao crime organizado, que tem presença na Baixada Santista e já vitimou três policiais militares desde 26 de janeiro. A opção pelo confronto é sempre do suspeito, colocando em risco a vida do policial e da população. E finaliza, afirmando que as ocorrências de mortes em confronto tiveram apreensão de armas usadas pelos criminosos para atacar os agentes de segurança. Os casos são rigorosamente investigados pela Polícia Civil e Militar, com acompanhamento do Ministério Público e Poder Judiciário. Números da Operação VerãoConforme a SSP, até o momento, 825 criminosos foram presos na Operação Verão, alguns deles considerados peças-chave para o crime organizado, como Karen Tanaka Mori,conhecida como “Japa” e apontada como a responsável pela lavagem de dinheiro de uma facção criminosa, e Caio Vinicius, apelidado de “Nego Boy”, acusado de liderar o tráfico de drogas na comunidade onde o soldado Samuel Wesley Cosmo foi morto. Além disso, mais de meia tonelada de drogas e 89 armas ilegais, incluindo fuzis de uso restrito, foram apreendidos.