[[legacy_image_275327]] A Baixada Santista é um dos cenários mais importantes para a cultura brasileira. Grandes talentos da dramaturgia e da música nasceram aqui e fazem sucesso no País. O Papo Tribuna de ontem recebeu um dos nomes que levam a região ao Brasil e não esquecem as raízes: o ator Alexandre Borges. Adiante, trechos da entrevista. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Você é filho de uma bailarina clássica, a Rosa Borges Correa, e de um diretor superimportante na Baixada Santista e no Brasil, que é o Tanah Corrêa. Como era a sua infância em Santos?Foi uma infância de muita rua, muita diversão na rua, jogava taco, ficava no mar, soltava pipas. E, do lado do meu pai, sempre vendo alguma coisa ligada ao teatro, aos bastidores do teatro amador de Santos. Meu pai teve uma ligação muito grande com Plínio Marcos, com Carlos Pinto. Tinha grupo amador que viajava pelos festivais de teatro Brasil afora, então, eu, com 4, 5, 6 anos, já via as montagens com muita vontade de participar dos bastidores, os figurinos, os cenários, esse mundo mágico do teatro, as artes. Estar cercado de pais artistas o impulsionou para seguir carreira? Com certeza, tive referências muito próximas. Meu pai também foi um homem bastante ligado politicamente com essa função social do teatro. A minha mãe, sempre via as fotos dela, figurinos. E, como toda criança da minha geração, a televisão foi nossa babá eletrônica. Eu via muito Sessão da Tarde, novelas das seis, das sete, ficava vendo os grandes atores brasileiros – Tarcísio Meira, Francisco Cuoco, Fernanda Montenegro, Marília Pêra –, ficava vendo aquele mundo mágico. Como foi o primeiro trabalho ao lado do seu pai? Eu devia ter uns 8 anos, foi em uma peça que se chamava O Pai e Mãe Dele. Era um espetáculo que ele montou aqui em Santos, e eu era um menino que caçava borboletas. Me lembro muito de estar nos bastidores, no escuro, e tinha que atravessar o palco, e aquela emoção de pisar na luz do palco, ter aquele primeiro contato, sabendo que o público estava ali me vendo, foi muito emocionante. Tem uma passagem interessante em um momento de um trabalho seu envolvendo o Rei Roberto Carlos. Como foi essa experiência? Foi uma peça que meu pai estava fazendo no Rio de Janeiro, era estreia dela, e havia aquela geração apaixonada pelo Roberto Carlos. Então, na estreia do Sonho de Alice, estou eu no camarim e, daqui a pouco, entra o Roberto. E eu tinha 13 anos, era novinho, e você ver o Roberto Carlos na sua frente é uma coisa inacreditável. E ele, pra comemorar, abriu uma champanhe, e ele a pegava e passava na testa de todo mundo, e ele foi chegando perto de mim, e eu, naquela emoção: “Meu Deus, o Roberto Carlos está chegando perto de mim”. E eu olhando para ele. Uma coisa linda, ele foi supersimpático. E olha como são as coisas: na pandemia, as músicas do Roberto foram muito importantes para a minha mãe. Ela teve Alzheimer, não lembrava de muita coisa, mas, quando eu colocava as músicas do Roberto, a gente dançava, cantava junto, era um momento de muita descontração e leveza. Quando você deixou Santos, subiu a Serra e entrou na escola do Antunes Filho, como foi?Foi muito gratificante. Foi um momento que eu tenho comigo até hoje, foi o momento em que eu decidi realmente ser um ator profissional, encarar São Paulo mesmo. Fiz os testes com o Antunes, no CPT, Sesc Vila Nova, sempre tive uma admiração muito grande por ele, pelo Zé Celso também. Sua primeira experiência na TV foi na Manchete, na novela O Marajá, mas ela acabou nem entrando no ar. O que aconteceu? Ela era um pouco baseada na vida do (ex-presidente Fernando) Collor (de Mello), depois do impeachment, e eu fazia um piloto de avião. Estava contente, muito feliz porque estava estreando. Eu, no hotel, já de smoking indo para a Manchete, com todo mundo, liguei para minha mãe, (dizendo) que “já vai começar”, e logo depois, inicia na televisão: “O sr. Fernando Collor de Mello acaba de embargar a novela O Marajá, que não será exibida”. Foi algo que ele conseguiu (para) embargar a novela. Para colocar outra no ar, se pensou em Guerra Sem Fim. Foi a primeira novela que eu fiz lá, e me chamaram para ser o protagonista, que era um traficante que contava um pouco a história do Comando Vermelho (no Rio de Janeiro). Uma linguagem bem real do dia a dia. E o (ator e diretor) Paulo José me convidou para ir para a Globo fazer a primeira minissérie: Incidente em Antares. Da televisão para o cinema: você trabalhou com grandes profissionais, como Walter Salles. Como foi essa experiência? O cinema é um lugar muito mágico, porque as pessoas estão ali (trabalhando) porque são realmente apaixonadas por aquilo. Eu comecei fazendo curta-metragem. Na retomada do cinema brasileiro, eu também fiz filmes muito importantes, como Terra Estrangeira, do Walter Salles. Fiz um filme com a filha do Vinicius de Moraes – a Susana Moraes, que também se tornou uma grande amiga, a família toda –, Beto Brant, Aluizio Abranches... Foi Um Copo de Cólera, teve Bossa Nova, do Bruno Barreto com (Antônio) Fagundes. O cinema, realmente, é uma delícia, o clima, o ambiente, uma coisa mais artesanal, apesar de ser uma indústria também, mas é um ritmo muito diferente da televisão. Então, propicia uma profundidade maior. Você passou os últimos tempos por aqui, porque cuidou da sua mãe. Em 2021, ela faleceu. É um momento para o qual ninguém está preparado para enfrentar: uma doença em uma pessoa que você ama tanto, a sua mãe, a pessoa mais importante que existe. Mas Deus é muito grande e a alma humana também. A gente descobre forças e significados no momento em que está vivendo aquilo. Foram mais ou menos dois anos e meio, num período de diagnóstico, depois teve a pandemia também. Quando ela teve o diagnóstico, eu estava de férias. Eu encontrei com ela no final do ano e achei que ela estava um pouco fraca, mais magra, que tinha alguma coisa diferente. Aí, fui fazer alguns exames e fiquei com ela em São Paulo, comecei os cuidados para ela ficar mais forte, se alimentar, passear, tomar sol, para uma recuperação. A gente dormia na mesma cama, porque eu tinha medo de que ela levantasse de madrugada e caísse, São Paulo era um lugar a que ela não ia muito. Aí, eu resolvi voltar para Santos: a levava para passear, fazia comida, a arrumava, brincávamos, dançávamos e, aí, veio a pandemia. E você fez homenagem para a sua mãe, no The Masked Singer Brasil. Foi lindo. Minha mãe gostava muito de me ver na TV, ela sempre me ajeitava e queria ver as novelas. Na pandemia, ela falava: “Olha o Alexandre na novela”. Então, quando o programa me convidou, eu podia escolher as músicas, e eu escolhi músicas que a gente ouvia. E eu falava pra ela: “Mãe, eu sou a onça-pintada, não conta pra ninguém”. E é isso, foi a nossa vida. Agora, é honrar o nome dela.