[[legacy_image_241181]] Aos 90 anos, a aposentada Constância Engraça de Moraes Neves trabalha. Ao contrário de grande parte dos idosos que têm uma atividade remunerada, ela não faz isso por necessidade, e sim, porque quer. “Eu gosto de trabalhar. É a minha diversão”. Ela vai todos os dias, no mesmo horário, até o Orquidário vender doces, e fica sentada com a mercadoria perto da bilheteria. “Depois do almoço, não tenho mais o que fazer. Então, venho para cá e vendo as minhas coisinhas.” Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Constância é uma privilegiada entre os aposentados brasileiros. Segundo estudo do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) e da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas, um terço dos aposentados trabalha. O mais comum é encontrar quem trabalha porque precisa. “Continuo trabalhando porque não gosto de ficar em casa. Não consigo ficar”, diz. Depois de ser babá, costureira e faxineira, Constância se aposentou há 22 anos. Para ir, ela contrata o serviço diário de um taxista. Para voltar, pega carona de carro com funcionários do Orquidário. “Eu tenho muita saúde. Minha pressão é boa, normal. Não possuo nada de doença, não tenho colesterol, muito menos diabetes.” A aposentada Solange Santos, de 63 anos, também continua no mercado de trabalho por opção. “É bom trabalhar, bom para a saúde’’, conta. Mesmo após a aposentadoria, ela não quis ficar em casa sem uma atividade. Foi então que transformou a paixão por costura e pintura, que eram seus hobbies, em uma forma de trabalho. Passou a vender toalhas pintadas à mão em feiras livres, atividade que considera “muito boa”, porque assim não fica em casa sozinha. “Você acaba fazendo amizade com o pessoal na feira, fica conversando e acaba conhecendo todo mundo.” Até quando derJosé Rilque trabalha há 40 anos com marcenaria e também não sente vontade de ficar em casa. Ele só quer parar quando não conseguir mais fabricar as peças. “No momento, não quero parar de trabalhar. Só quando não der mesmo. Vendo na feira, para não ficar parado”. Antes da aposentadoria, ele trabalhava em fábricas de móveis. Agora, produz objetos por conta própria. “Trabalhar faz bem para a saúde, bem para tudo”, diz a professora Ana Maria Scapinelli, de 67 anos. Docente há 25, ela já trabalhou em diversas áreas, inclusive como aeromoça. Depois de se aposentar, há cinco anos, continuou dando aulas. Com saúde, não pensa em parar por enquanto. “Até onde minha saúde permitir, vou continuar trabalhando”, afirma. [[legacy_image_241182]] Um propósito maior“Existem professores que já estão aposentados e continuam dando aula, porque querem estar dentro da sala de aula, querem ser aplaudidos e homenageados. Eles nem estão mais preocupados com quanto ganham”, diz o neuropsicólogo Ari Brito, 53 anos. “Desejam se sentir visíveis, querem sair de casa e produzir”. Brito aponta que a maioria continua a trabalhar pela remuneração, porque necessita do dinheiro para sobreviver. É comum que essas pessoas não necessariamente gostem do que fazem. “No momento que garantem uma remuneração paralela sem precisar trabalhar, elas querem sair do mercado de trabalho”. Para o neuropsicólogo, a qualidade de vida de uma pessoa que gosta de trabalhar é maior do que a de alguém que trabalha em um ambiente não desejado. Quem não gosta do que faz pode até adoecer, enquanto quem gosta de trabalhar vai produzir dopamina, aumentando a motivação. “Pessoas que se aposentam e querem voltar à ativa, trabalhando ou fazendo alguma atividade, mesmo que não remunerada, o fazem por um propósito maior”, explica Ari Brito. Aposentados podem deixar informalidadeMuitos aposentados que querem trabalhar continuam de modo informal, uma realidade nacional “de longa data”, como diz João Alfredo Gonçalves, professor da área de Negócios. Conforme a edição de setembro da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, do Instituto Brasileiro de Economia e Estatística (IBGE), o Brasil tinha 39,7% de informalidade entre junho e agosto. Gonçalves explica que, para os aposentados que trabalham por conta e têm por objetivo formalizar a atividade, uma alternativa é se tornar microempreendedor individual (MEI). O professor observa que a alternativa é viável para aposentados por idade, tempo de contribuição e tempo de serviço. Porém, “aposentados por invalidez, ex-funcionários públicos federais, aposentados especiais ou que recebem o Benefício de Prestação Continuada não poderão se registrar como MEI, porque perdem direito ao benefício”. Reportagem feita como parte do projeto Laboratório de Notícias A Tribuna - UniSantos sob supervisão do professor Eduardo Cavalcanti e do diretor de Conteúdo do Grupo Tribuna, Alexandre Lopes.