[[legacy_image_308702]] A morte ainda é um mistério. Alguns se asseguram em uma religião, outros carregam filosofias. E tem quem acredite que tudo simplesmente deixa de existir. Mas, diante de tantas dúvidas, há aqueles que garantem já ter visto 'o outro lado'. É a chamada Experiência Quase Morte (EQM). A Tribuna conversou com mulheres da Baixada Santista que passaram por isso. As histórias são surpreendentes. Uma dessas pessoas é estudante de Educação Física Rayane Faria, de 22 anos, moradora de Cubatão. Ela que teve uma experiência com quase morte este ano, durante os jogos universitários da faculdade onde estuda. A princípio, achou que era apenas mais uma crise de ansiedade, transtorno diagnosticado há muitos anos. “No dia, eu tive uma rotina bem corrida e puxada. À noite, eu tive um jogo de basquete. No meio do jogo, eu comecei a sentir algo e o juiz me substituiu. Eu achei que era uma crise de ansiedade”, conta. Rayane então começou a convulsionar e foi levada a Unidade de Pronto Atendimento (UPA), mais próxima da faculdade. Ela conta fatos que ouviu de outras pessoas enquanto estava inconsciente. “Eu convulsionei por 40 minutos. O médico nunca tinha visto algo parecido. E nenhum remédio me acalmava”. A estudante diz que teve um coma induzido e foi intubada. “O médico disse para minha mãe que eu estava em coma. E que se ela tivesse fé, estava na hora de usá-la, porque ele não sabia as sequelas que ficariam”. Rayane conta que ficou com quadro hipoglicemico (baixíssimo nível de açúcar no sangue) e chegou ao estado de quase morte para a idade que tinha. Ficou em coma por três dias e, ainda desacordada, ela teve um “sonho”. Neste sonho ela se via em um jardim, mas era um jardim feio, com folhas mortas e o clima era nublado. Ao seu lado, havia uma pessoa, a quem ela perguntou se havia chegado a sua hora (de morrer). “E essa pessoa me disse ‘seu pai não quer que você vá, mas você está pronta para viver?’. E eu falava ‘tô’. Então eu virava de costas para ele e saia correndo. Então… eu acordei”. Para ela, esta não foi uma experiência incrível, mas necessária, que fez com que ela passasse a enxergar a vida com outros olhos. “É um processo. É como se fosse um pós luto, porque até entender que eu praticamente morri, que só tinha um corpo ali, não tinha mais nada, não tinha Rayane… Eu não estava vivendo. Foi um baque muito grande e eu agradeço todos os dias a Deus por estar viva”, conta. Rayane atribui a experiência à sua vida espiritual e acredita que Deus está cuidando dela nos mínimos detalhes. Ela diz que entendeu que estava se sobrecarregando de afazeres e deixando a sua saúde de lado. Sua vida se transformou após o episódio. “A vida é uma só. Você pode ir embora amanhã, e não tem outra opção”, reflete. Após muitos exames, ela foi diagnosticada com epilepsia com crises convulsivas e segue em tratamento. Viagem pelo cosmosO ano era 1988. Após uma gestação tranquila, a psicóloga santista Maria do Carmo, de 70 anos, entrou em trabalho de parto. Por não ter dilatação, precisou fazer uma cesárea que, a princípio, foi um sucesso. Porém, cerca de três horas depois, ela começou a passar mal. A psicóloga teve uma hemorragia interna, decorrente de um acidente durante o procedimento cirúrgico que rompeu uma artéria. A dor era tanta que Maria do Carmo descreve que ficou fora de si, se debatendo e arrancando os aparelhos que tinha pelo corpo. Sua mãe, que a acompanhava, chamou as enfermeiras e pediu socorro. “O médico chegou e identificou que eu estava tendo uma hemorragia, com risco iminente de morte”. A família foi avisada e a equipe médica foi socorrê-la. A psicóloga só não contava que ali, teria uma experiência que a levaria a outra dimensão. “Eu senti que eu perdi a consciência e senti uma sucção imensa, que não me trouxe dor nenhuma. Mas, a partir daquele momento, eu já me senti fora do meu corpo”. [[legacy_image_308703]] Durante a sucção, Maria do Carmo diz que atravessou o telhado do hospital. De cima, ela viu os médicos mexendo em seu corpo no centro cirúrgico. Ela também viu seu filho mais velho ao lado de sua mãe, em uma janela. “Eu dizia para eles repetidamente, lá do alto, que ficassem tranquilos porque eu estava muito bem”, lembra. A psicóloga seguiu um túnel escuro e que não era longo. E, a partir desse momento, seu corpo ganhou outra forma. Emocionada por reviver as sensações de 34 anos atrás, ela conta que ao fim do túnel vislumbrou uma luz dourada muito forte. “Quando eu saí do túnel, aquela luz dourada se transformou em um feixe de luz. E meu corpo foi se diluindo, e eu fui tomada por esse feixe de luz, que posteriormente se tornou um fio dourado”. Posteriormente, foi levada a um cubo tridimensional que se movia pelo cosmos. Mas que continuava se sentindo ela mesma. “Eu considerava esse cubo como um veículo que me transportava pelo cosmos. E eu passeava. E lá de cima, eu vi o nosso planeta, do tamanho de uma ervilha”. Indescritível foi a palavra que ela usou para a sensação naquele momento. “Eu estava ali plena. Mas não me vinha nada no sentido de ‘eu quero voltar’. Eu não tive esse pensamento”. E como começou, terminou. Repentinamente e de uma hora para outra. Ela não sabe quanto tempo ficou ali. “E quando eu acordei, eu estava no quarto”, diz. Ela não teve nenhuma mudança drástica em sua vida, e não vê explicações para o que aconteceu. “É um mistério. São muitas contingências que a vida nos coloca. E se eu puder finalizar, eu diria que o mais importante da vida é você vivê-la o aqui e o agora”, conclui. EstudoMédico neurologista e neurocirurgião há 40 anos, o santista Edson Amâncio estuda sobre EQMs há cerca de 20 anos. É autor do livro "Experiências de quase morte (EQMs): Ciência, mente e cérebro" e tem um canal no youtube com mais de 360 mil inscritos. Seu interesse pelo assunto começou quando ele leu artigo sobre EQM em pacientes cardiológicos em uma revista renomada na área da medicina, Amâncio entendeu que o assunto deveria ser estudado. [[legacy_image_308704]] E após os anos de estudo, o médico diz que essa experiência não é uma alucinação, delírio ou efeito de medicação. “Muitas pessoas têm EQM sem ter tomado uma medicação”. Ele também relembra alguns casos, onde os pacientes contam suas experiências após acidentes, quando ainda estão sendo socorridos. Eles narram exatamente todos os acontecimentos enquanto estavam, visivelmente inconscientes. Um desses casos foi o de Maria do Carmo, descrito acima. Amâncio diz que todos os relatos têm características semelhantes: túneis de luz, encontro com entes queridos, sensação de paz, comunhão com o universo e desejo de mudar de vida. Além disso, as experiências ocorrem com todos os tipos de pessoas, de diferentes religiões, classes sociais e culturas. “Nós tivemos um caso, de um paciente que estava em uma cirurgia cardíaca, com anestesia. Ele estava com o coração de fora e disse que saiu do corpo. Ele viu o médico fazendo um movimento. E quando ele contou, todos ficaram chocados, porque o movimento era um ‘tique’ do médico”, conta. A EQM ainda é um campo novo para a medicina, que segue estudando o que poderia ocasioná-la, inclusive substâncias que são encontradas em nosso corpo. Entretanto, Amâncio não desacredita das experiências que as pessoas dizem ter. “Muitos pacientes dizem que não tem coragem de contar isso para as pessoas. Porque dizem que eles estão loucos. Ninguém tem paciência de ouvi-los. Então eles são libertados quando você oferece a oportunidade deles falarem disso. Nós voltamos a falar com pacientes de EQM depois de cinco anos, e eles repetem a mesma história. Não esquecem. É um marco para toda a vida”, conclui. Uma publicação compartilhada por A Tribuna Jornal (@atribunasantos)