[[legacy_image_52117]] Quem usa transporte por aplicativo recebe, depois da viagem, uma mensagem para avaliar, de 1 a 5, o desempenho do motorista. Boa conversa, educação, direção adequada e cuidado no trânsito são os critérios normais de avaliação. Mas o que dizer de um motorista que distribui, para todos os passageiros, saquinhos com sementes de pau-brasil? Que nota ele merece? Danilo Del Picchia é o nome dele. E sim, o Del Picchia do sobrenome vem de uma ramificação do tio-bisavô famoso Menotti, poeta ativista da Semana de Arte Moderna de 1922, autor do famoso livro Juca Mulato. Clique e Assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe acesso completo ao Portal e dezenas de descontos em lojas, restaurantes e serviços! Danilo não escreve livros nem poemas, mas sua história está dividida em capítulos. Chefe de cozinha por formação, já trabalhou como cozinheiro em restaurantes de São Paulo e em shoppings. Depois, começou a produzir seus próprios quitutes para vender. “Fazia 150 bolos por dia. E saía tudo”, gaba-se. Antes da pandemia, veio morar em Praia Grande com a esposa. Ali já morava a sogra há muitos anos, então, a cidade era sua conhecida. Cadastrou-se em dois aplicativos para trabalhar como motorista, e então veio a pandemia. “Fiquei sete meses sem trabalhar, evitando a exposição. Comecei a fazer pães em casa, até poder recomeçar a dirigir”. Livros, sementes, virtudes Inquieto, Danilo não se contenta em apenas levar e buscar pessoas. Gosta de interagir, distribuir e absorver conhecimento. Leitor voraz de livros, teve primeiro a ideia de distribuir livros aos passageiros. “Dizia a eles: você gosta de ler? Tem uns livros aí atrás e você pode levar o que quiser”. Depois veio a ideia do pau-brasil, semente-símbolo da primeira atividade econômica exercida pelos portugueses quando chegaram ao Brasil. Sua madeira servia para construção de móveis e, também, para o tingimento de tecidos. Para os índios, é a ‘ibirapitanga’. Danilo recolhe as sementes que encontra pelas ruas de Praia Grande, coloca de cinco em cinco em saquinhos plásticos com um desenho da árvore, pintado a mão. No verso, manuscrito, outros tipos de sementes vão junto. “São sementes de virtudes”, diz, referindo-se aos valores que, na sua opinião, também precisam ser plantados: prudência, justiça, fortaleza, temperança, moderação, coragem, sabedoria, gentileza. As pessoas se surpreendem quando ele oferece o saquinho com sementes. “É uma forma de iniciar uma conversa, trocar informação, falar da vida e do que viemos fazer aqui”, diz o motorista, que se recorda da passageira que se emocionou, certa vez, com a oferta das sementes. “Olhei para trás e ela estava chorando. Acho que toquei o coração dela”. Junto com o saquinho Danilo ensina a plantar: “coloca uns dois palmos para baixo da terra. Em 60 dias germina. Em dois anos já virou uma árvore pequena”. E as sementes de virtudes, como fazer para germiná-las? “Essas só precisam cair no solo fértil, no coração, para se multiplicarem. Não é nada difícil, não”, ensina.