[[legacy_image_288709]] A todo momento, estamos respirando gases emitidos por veículos, a fumaça das chaminés das indústrias ou a queima de áreas para o plantio. Esses são exemplos do que o aparelho respiratório absorve: na fumaça que se vê, substâncias que não se enxerga e prejudicam a saúde. A poluição do ar cresce conforme aumentam a atividade econômica, a frota de veículos e o adensamento das cidades, emitindo para a atmosfera mais material particulado e substâncias químicas em estado sólido ou líquido. A médica e bióloga Mariana Veras estuda há pelo menos 20 anos os efeitos da poluição na saúde humana. Ela é chefe do Laboratório de Patologia Ambiental do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). “Quando se fala em poluição do ar, muitas pessoas citam as energias alternativas, renováveis e não poluentes. Nós temos tecnologia para resolver em grande parte a poluição nas cidades. Só o carro elétrico de uso pessoal não basta, claro. O preço é inacessível e ainda não conta com incentivos fiscais”, diz. Dados do Sistema Nacional de Trânsito (Senatran) mostram que a produção desse tipo de veículo cresceu cinco vezes desde 2019, quando foram fabricadas 24,6 mil unidades. Hoje, já são 124,4 mil veículos circulando em ruas, avenidas e rodovias do País. “O ideal é que tivéssemos uma frota de veículos (elétricos) de grande porte como ônibus e caminhões, que poluiriam muito menos. O óleo diesel é um dos combustíveis mais sujos. Não podemos esquecer também que esse tipo de combustível é utilizado em uma mistura para a movimentação de navios”. PoluentesMariana se mostra preocupada com a emissão de poluentes. “O Brasil tem uma colocação importante na emissão de dióxido de carbono, que é o vilão para as mudanças climáticas. No nosso País, a emissão de CO2 está muito relacionada ao desmatamento. As mudanças climáticas não estão acontecendo apenas agora. Elas são o resultado da ação do homem há anos”. A médica adverte que toda a sociedade sofre com esse cenário. “Quando se tem uma alteração do clima, nosso cotidiano é alterado. São eventos extremos, enchentes, secas, tragédias, pessoas perdendo bens. O prejuízo no agronegócio também é enorme”. SaúdeOs impactos da poluição no ar estão diretamente ligados à saúde do ser humano. Problemas respiratórios e cardiológicos são logo sentidos pelos indivíduos mais sensíveis. É quando o sistema reparatório dá o alarme. Asma e bronquite são as primeiras doenças a se manifestar. “Uma pessoa que respira um ar de péssima qualidade está mais exposta a um câncer de pulmão ou de bexiga, à obesidade e a doenças neurodegenerativas como Alzheimer e diabetes. Quem mais sofre com a poluição do ar são as crianças e os idosos”. Assim, Mariana recomenda evitar circular em áreas onde já se sabe que o nível de poluição é maior. Para melhorar a qualidade de vida, a médica sugere caminhos como aumentar a ingestão de líquido, incluir na dieta alimentos ricos em vitaminas B e C e praticar exercício físico. “Se estivermos numa estação de seca, coloque na sua casa um umidificador. Se não tiver condições, toalhas úmidas ajudam a combater o ar seco”, recomenda. Árvores ajudam O mestre em Botânica e professor do curso de Sistemática da Unisanta, Paulo de Salles Penteado Sampaio, observa que as árvores filtram a poluição aérea. “Pesquisadores da Universidade de Lancaster, no Reino Unido foram a uma avenida muito movimentada, sem a presença de árvores e canteiros. Lá, mediram a quantidade de poluição, de material particulado presente no ar, que vem basicamente da queima de combustíveis dos veículos e do desgaste de freios. Depois, foram colocadas árvores e barreiras vegetais. Analisaram microscopicamente as folhas e comprovaram que a presença das árvores pode reter até 65% da poluição”, descreve. Os benefícios de uma cidade arborizada não param por aí. “Todos os vegetais retêm gás carbônico, mas as árvores, pelo seu corpo maior e pela quantidade de madeira, seguram mais o poluente”. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), as árvores ajudam a reduzir a temperatura nas cidades em até oito graus, com economia de energia em até 30% na utilização de ar-condicionado. Mas Sampaio pondera: “Não adianta sair plantando árvores. Tudo tem que seguir o Plano Diretor das cidades. Precisa ser algo planejado para não quebrar calçadas, atingir fios e o município gastar frequentemente com podas”. Substâncias 'viajantes' Fugir de uma cidade poluída para o Interior pode não ser a melhor escolha. Segundo Mariana Veras, não há barreira física para a poluição. O ar de cidades que emitem poluentes se desloca com essas substâncias para outros municípios. No ano passado, por exemplo, a fumaça de queimadas na Amazônia chegou à capital paulista. A especialista adverte que mesmo locais interioranos do Estado têm queimadas. “No Interior, é muito comum utilizar fogo para limpar os campos para plantação. Essa fumaça está relacionada à saúde humana”, salienta. Economia e saúdeA despeito de “diversos interesses econômicos envolvidos”, Mariana Veras analisa que o custo da mudança da matriz energética pode ser compensado por reflexos positivos à saúde. “Há uns anos, fizemos um estudo em seis capitais para um diesel mais limpo, com menor teor de enxofre. Num cenário de projeção até 2040, economizaríamos US\$ 11 bilhões (R\$ 53,9 bilhões) em saúde, levando-se em conta apenas internações hospitalares associadas a problemas respiratórios e cardiovasculares”, compara.