[[legacy_image_208015]] Daqui a duas semanas, os cidadãos da Baixada Santista estarão indo às urnas para definir os rumos do Brasil e de São Paulo. Apesar da proximidade da data, mais da metade do eleitorado ainda não sabe em quem votar para deputado estadual e federal. Segundo levantamento feito neste mês pelo Instituto de Pesquisas A Tribuna (IPAT) nas cidades mais populosas da região (Cubatão, Guarujá, Praia Grande, Santos e São Vicente), 57,8% dos 1.195 entrevistados ainda não decidiram o candidato para a Assembleia Legislativa. Para a Câmara, esse índice é de 50,9%. Segundo cientistas políticos consultados pela Reportagem, esse fenômeno já ocorreu em pleitos anteriores em razão de uma parte da população desconhecer a importância do Parlamento e de valorizar o papel dos integrantes do Executivo (prefeito, governador e presidente). O coordenador do IPAT, Alcindo Gonçalves, afirmou que a escolha dos legisladores normalmente é deixada de lado, porque a política no País tem um caráter personalista muito forte, voltado aos chefes do Executivo. “Estamos falando de um fenômeno histórico. No nosso modelo presidencialista, os deputados federais têm um papel muito reduzido nas ações e na construção de políticas públicas. O mesmo ocorre entre os estaduais. Muitos tentam sobreviver politicamente às custas do clientelismo, ao obter emendas parlamentares para beneficiar a sua base eleitoral”. O cientista político e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Rodrigo Augusto Prando, tem uma visão semelhante à de Gonçalves. Na visão dele, esse grande número de indecisos pode estar relacionado ao fato de o brasileiro ser muito personalista. Por esse motivo, é comum as pessoas lembrarem mais dos nomes que atuaram como chefes do Executivo. “É muito fácil localizar naquele grande universo de concorrentes esses nomes ligados ao Executivo. A sociedade dá pouca atenção ao Legislativo. A nossa trajetória política acaba não sendo apenas personalista, mas mandonista, ou seja, aqueles que têm poder de mando possuem mais força”, reiterou. O docente também citou que esse desinteresse se deve ao grande desconhecimento das funções do Parlamento. Ele aponta, ainda, que os candidatos deveriam conhecer melhor as situações econômica, política e social do País e do Estado. Porém, a realidade é bem diferente. “O Legislativo é o representante direto do povo e é aquele poder que fará as leis. Infelizmente, a qualidade das nossas casas legislativas costuma ser baixa. Isso é resultado das escolhas da população. Todos são eleitos referendados pelo povo”. Desconhecimento De cada quatro entrevistados pelo IPAT, somente um admitiu se lembrar do nome do deputado estadual e federal que votou nas eleições de 2018. Para a Assembleia Legislativa, esse índice foi de 75,6%, enquanto para a Câmara, de 72,5%. Na avaliação da cientista política Clara Versiani dos Anjos, é muito comum que os brasileiros não tenham a lembrança dos candidatos que receberam os seus votos. “Em países onde há o chamado voto distrital, quando há uma proximidade maior dos concorrentes com a própria região, eu acho que esse fenômeno ocorra em uma frequência menor”, destacou ela, que é professora da Unisanta e Unimes. A docente apontou que o grande número de candidatos ao Parlamento também dificulta a escolha dos cidadãos. “Além do desinteresse pela política, temos de considerar o desprezo pelo Legislativo, que normalmente é mal avaliado em comparação a outras instituições, por conta do histórico de uma maior valorização do Executivo, que é considerado, por muitos, uma função mais importante”. O IPAT ouviu 1.195 pessoas nos dias 5, 6 e 8 deste mês. A margem de erro estatístico é de 2,5 pontos percentuais, para mais ou para menos, para os resultados totais. A pesquisa foi registrada na Justiça Eleitoral com os números BR-01023/2022 e SP-09552/2022. Aspecto cultural O especialista em Marketing Político e Eleitoral Fabiano Caldeira entende que o grande número de indecisos em relação ao voto para a Assembleia Legislativa e para a Câmara Federal é mais do que compreensível e natural, pois representa um aspecto da cultura nacional. “Se a gente recorrer à Antropologia e a Sociologia, será possível entender que o brasileiro tem uma postura passiva em relação à política e aos destinos da nação”, justificou. Na avaliação do especialista, essa situação e o descrédito com a política nacional ajudam a explicar a conjuntura atual, que não empolga a população. “A gente sabe que o voto é iminentemente emocional. As pessoas tendem a escolher um candidato por esse motivo. Esse voto tende a ser emocional, com base em valores e crenças que o cidadão tem”, explicou. Na avaliação dele, o último ingrediente deste caldeirão cultural é a baixa instrução da população brasileira, que não compreende o papel do Parlamento nos âmbitos municipal, estadual e federal. Nesta reta final de campanha, Caldeira explicou que o concorrente a cargo público somente consegue se conectar emocionalmente com o eleitor se houver verdade na proposta. “Não adianta dizer alguém se apresentar como um defensor dos animais, se a pessoa nunca teve um cachorro na vida, por exemplo. As propostas e as ideias precisam ser condizentes com a história do candidato”, frisou.