[[legacy_image_265043]] Presidente da Associação Cultural dos Afrodescendentes da Baixada Santista (Afrosan), José Ricardo dos Santos comenta a importância de levar a educação aos mais carentes. A entidade, que tem um curso pré-vestibular há 20 anos, ressalta a importância transformadora do ensino. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Como surgiu a Afrosan? Ela surgiu da iniciativa de um grupo de amigos, todos ativistas do movimento negro. Quando voltei da conferência da ONU na África do Sul — eu era presidente da Comissão Municipal da Comunidade Negra de Santos, cargo que ocupei por dez anos —, nos juntamos. Porque foi por meio dessa conferência que o Brasil se tornou signatário de um documento e passou a implementar políticas públicas de inserção da população negra nas várias esferas da sociedade. A nossa invisibilidade e a pouca participação do negro em várias esferas da sociedade brasileira, seja nas universidades ou no mercado de trabalho, fez com que nos juntássemos. Tivemos a ideia de criar um projeto com foco na educação. Foi essa a forma encontrada de a gente poder ajudar quem não tinha, e muitos não têm até hoje, condições de pagar um cursinho particular, porque sabemos que é muito caro. Esse cursinho pré-vestibular, direcionado aos jovens afrodescendentes ou carentes, foi uma grande mudança para ajudá-los a estar na universidade. Nos anos da Afrosan, passaram pelo nosso curso mais de 6 mil alunos. O interessante é que são alunos de toda a Região Metropolitana da Baixada Santista. Tivemos alunos que vinham de Itanhaém, Peruíbe, Bertioga... Foi um projeto que veio ao encontro daquilo que a sociedade precisava. Porque, quando a gente fala de educação, infelizmente, as escolas públicas são de uma qualidade duvidosa. Não quero dizer péssima, porque seria radicalizar muito. Então, os jovens que nos procuram, muitos deles não têm aulas de várias matérias. Quando chegam lá, tomam um susto, É bem verdade que é um Intensivão, porque é somente aos sábados. E o que a gente propõe? Dar uma estrutura melhor, maior, para que esse jovem consiga ter êxito no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) ou num vestibular. E ele sonha com a universidade pública. Se voltarmos 20 anos no tempo, a concorrência era muito desigual. Até hoje, se a gente fizer uma pesquisa, quem são os estudantes da USP (Universidade de São Paulo)? Não são os alunos de escolas públicas: a grande maioria é de escolas privadas. Quando a gente fala de uma ação dessas, de um cursinho pré-vestibular, essa semente se espalhou. Somos um país com escravidão nas origens. No Brasil, foram quase quatro séculos. Quando foi assinada a 'farsa' da Lei Áurea, não se inseriu esse ex-escravo, seja nas escolas, seja no mercado de trabalho. Há uma dívida histórica do Brasil com a população preta que não foi paga. E por que surgiram esses cursinhos alternativos? Como forma de suprir essa carência pela ausência de políticas públicas, para que esses ex-escravos pudessem ter oportunidades iguais. Muitos professores também já foram alunos? Temos casos de professores que foram alunos nossos, que hoje nos ajudam nesse trabalho. Me sinto extremamente feliz. Fazendo isso há mais de 20 anos, já tive momentos de querer desistir. Me sinto um privilegiado, com tantos amigos, por ter pessoas que me ajudam. Tenho consciência de que ninguém faz nada sozinho. Como você enxerga, hoje, esse acesso à educação dessa população mais carente, mais vulnerável? Ainda falta muito. O Brasil tem uma carência muio grande de políticas públicas. Aqui na Baixada, temos faculdades, universidades, muitas, privadas. Mas deveria ter um olhar para uma inclusão maior. Hoje, as políticas afirmativas têm ajudado muito o aluno sem condições, de baixa renda. Mas tenho o entendimento, também, de que os empresários da educação poderiam dar um acesso maior. Esquecem que a educação é o pilar de uma pessoa.