[[legacy_image_265086]] Se ainda existem dúvidas se as mudanças do clima já afetam a vida das cidades, a Ciência tem provado que sim. Seus efeitos já estão presentes, não só com chuvas e temperaturas mais intensas, mas também no comportamento dos animais. Um dos mais recentes estudos foi feito pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) – Campus São Vicente, utilizando como campo de pesquisa o manguezal existente no Portinho, em Praia Grande. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! O trabalho, que também reuniu pesquisadores de Hong Kong (China) e de Florença (Itália), analisou a resposta do caranguejo chama-maré a temperaturas extremas e concluiu que as espécies que habitam os manguezais brasileiros possuem menor resiliência a essas alterações. Os caranguejos chama-maré estão muito presentes nos manguezais da Baixada Santista. Têm como característica uma das pinças muito maior do que a outra. Existem mais de cem espécies desse crustáceo habitando ecossistemas costeiros nas regiões tropicais e subtropicais do planeta. Tânia Marcia Costa, bióloga marinha e pesquisadora do Instituto de Biociências da Unesp-SV, conduziu os estudos no Portinho com uma equipe de alunos da graduação e pós-graduação a partir de 2015. Ela explica que a vasta distribuição geográfica desse caranguejo pelo planeta permitiu que o estudo avaliasse a resposta de seis espécies das costas brasileira e chinesa a temperaturas extremas. Uma das principais conclusões do trabalho é que os chama-maré que vivem em regiões tropicais são mais suscetíveis a temperaturas extremas do que seus equivalentes da costa chinesa. O artigo foi publicado na revista Frontiers in Marine Science. RiscosConforme o trabalho, por serem as mais sensíveis termicamente, as fêmeas devem ser as primeiras a sucumbir às mudanças na temperatura, pondo em risco a reprodução da espécie. A maior temperatura impulsiona o metabolismo dos caranguejos, o que os obriga a sair das tocas para buscar alimentos e aumenta sua exposição a predadores. Tânia explica que, embora o estudo e as conclusões se relacionem a uma espécie de caranguejo, toda a cadeia que a envolve fica afetada. “Essa espécie se relaciona com outras na cadeia alimentar. Se uma é afetada, todo o sistema também pode ser, até chegar a espécies de peixes da indústria pesqueira”, diz. Além disso, explica, as mudanças do clima provavelmente estão afetando outras espécies também. Oceano mais quenteAlém de propor um novo entendimento sobre a performance metabólica desse tipo de caranguejo, os resultados do trabalho despertam a atenção quando analisados sob o cenário de contínuo aumento nas emissões de gases causadores do efeito estufa. A presença desses gases faz o calor resultante da radiação solar ficar retido na atmosfera. Como consequência, aquece também os oceanos. No início do ano passado, um conjunto de pesquisadores de instituições da China e dos Estados Unidos publicou um artigo na revista Advances in Atmospheric Sciences alertando que o ano de 2021 registrou o sexto aumento seguido na temperatura dos oceanos. Cenário assustadorPara Tânia Marcia Costa, a observação de que os caranguejos chama-maré brasileiros têm uma temperatura letal menor do que os chineses também desperta outras conclusões. “Se as espécies que vivem no Brasil possuem uma sensibilidade maior, então qualquer alteração na temperatura pode ter efeito muito mais drástico para elas”, diz a bióloga, especialista no comportamento de animais aquáticos por efeitos de mudanças climáticas. “Isso pode ser assustador se observarmos as projeções do clima para o futuro”. O limite térmico ao qual a pesquisadora se refere diz respeito ao ambiente que esses caranguejos habitam: o entremarés, uma faixa da região costeira restrita ao movimento de baixa e alta da maré. Nessa área, lidam com o ciclo das águas do mar e ficam ora expostos, ora submersos. Também são submetidos a intensa variação da temperatura. “No caso de um costão rochoso, por exemplo, quando a maré abaixa, surgem poças que podem chegar a 42 graus de temperatura e uma alta salinidade decorrente da evaporação da água. E, mesmo nessas condições, encontramos ali peixes e caranguejos”, diz. “As primeiras espécies afetadas pela mudança do clima são essas que habitam o entremarés”. O chama-maré Os caranguejos chama-maré são um bom modelo para pesquisa e fáceis de se trabalhar em laboratório, pois não se estressam com facilidade e seu alimento é encontrado facilmente no sedimento presente no manguezal, diz a pesquisadora. O longo período de estudos permitiu que a professora da Unesp encontrasse, anos atrás, uma pequena população de uma espécie de chama-maré que não habitava aquela área. O aumento de 0,9 grau no Litoral da Baixada Santista permitiu a expansão da espécie até o manguezal do Portinho. “A chegada de uma nova espécie não é necessariamente uma coisa boa. (...) Até o momento, a densidade da nova população não está afetando outras populações. (...) Mas é um indicativo de que as coisas estão mudando”.