[[legacy_image_273568]] Paulistano de nascimento e agora santista por força de título entregue pela Câmara no último dia 29, Eduardo Sanovicz deixou a presidência da instituição que criou e comandou por 11 anos, a Abear, que reúne as principais companhias aéreas do Brasil. Aos 63 anos, tem ligação antiga com a Cidade, onde o pai, o arquiteto Abrahão Sanovicz (1933-1999), responde por obras de relevo, como o Centro Cultural e Teatro Municipal de Santos. Eduardo ganhou projeção nacional no Turismo: diretor de Turismo da Prefeitura no governo de David Capistrano, depois presidente do São Paulo Convention e Visitors Bureau, do Anhembi, da Embratur, breve passagem pela Reed Ehibitions e, por fim, a Abear. Nesta entrevista, ele fala sobre o potencial turístico da Baixada Santista, os requisitos para que o setor seja forte o ano inteiro, entre outros assuntos. O setor aéreo e toda a cadeia de turismo viveram uma de suas piores crises com a pandemia de covid-19, com redução significativa dos voos domésticos e internacionais, e impactos fortes nos demais segmentos. A crise já passou?Dependendo de qual segmento do turismo a gente avalia, o cenário é desigual: a hotelaria se recupera de uma forma, o agenciamento de viagens de outra, assim como eventos e aviação. No que diz respeito a turismo doméstico, eu diria que sim, se recuperou quase plenamente. Com o turismo internacional, não. Por exemplo, as aéreas, onde a recuperação está em 65% do tráfego. Há um dado importante: mais de 60 companhias aéreas de todo o mundo quebraram, e não vão voltar passada a pandemia. No âmbito doméstico, voltou ao mesmo patamar de antes da pandemia?O volume de consumidores que volta a comprar viagens é menor do que aquele que existia até 2016, porque a partir de 2017, mesmo antes da pandemia, com a disparada dos preços do querosene de aviação, há uma subida do tíquete médio e uma diminuição do número de consumidores. Isso piorou na pandemia e, agora, essa retomada está se dando com custos e preços de pacotes de hotelaria, restaurante e bilhetes aéreos mais elevados que antes da pandemia. Esse é um cenário que não deve mudar muito nos próximos meses. A velocidade de recuperação do turismo no Brasil é igual ao resto do mundo?Não. No Brasil, a gente sente os impactos da falta de continuidade, nos últimos seis ou sete anos, de algumas políticas voltadas à promoção turística doméstica e internacional. Em outros países, não houve esse processo de descontinuidade. Na Europa e Ásia, por exemplo, há uma recuperação mais uniforme. Aqui, a recuperação se dá melhor nos destinos consagrados (São Paulo, Rio, Nordeste, Lençóis Maranhenses, por exemplo), e pior nas regiões que vinham ascendendo, mas precisavam de um volume maior de investimento em promoção e marketing e se ressentem essa interrupção. Em São Paulo, houve um programa forte do Governo Estadual de promoção turística em parceria com a Abear. O acordo previa a redução do ICMS sobre o querosene de aviação em troca de compromissos das aéreas. Funcionou?Sim, e é importante dizer que São Paulo tinha o ICMS sobre o querosene de aviação mais caro do mundo: 25%. É o ICMS que faz com que passagens para fora do Brasil sejam mais baratas que as domésticas, já que voos internacionais não têm incidência desse imposto. Com a redução em São Paulo de 25% para 12%, assumimos o compromisso de adicionar 490 novos voos por semana à malha viária do Estado. A resposta do público foi tão positiva que adicionamos 704 novos voos por semana. Tivemos mais turistas visitando o Estado, com impacto em toda rede turística. Esse incremento se deu de forma igual em todas as regiões do Estado?Não. A infraestrutura turística não é estadual nem pública. Há um conceito equivocado de querer pendurar toda responsabilidade nas costas do poder público. O poder público não é dono de hotel, restaurante ou loja. Então, há regiões do Estado em que, embora a oferta tenha sido colocada, o receptivo local não se ajustou a essa ampliação de demanda. Qual a consequência disso? As pessoas vão uma vez. Se não tiverem suas expectativas atendidas, não voltam mais. O maior promotor de um destino é aquele que o visita. Portanto, o desenvolvimento entre as regiões não se deu de forma igualitária porque algumas, por meio de seu setor privado, se prepararam melhor do que outras. Desse plano de expansão de voos regionais no Estado, Guarujá estava incluída, certo?Entre os vários compromissos que assumimos com o Governo do Estado, um deles era conectar seis cidades que não eram atendidas por voos: Araraquara, Barretos, Franca, São Carlos, Guarujá e Votuporanga. Nosso compromisso era: assim que o aeroporto estiver operacional, colocamos voo em 90 dias. Os outros cinco, do Interior, estão começando a entregar e alguns já estão operando. Então, o compromisso com Guarujá está mantido?Certamente. E acredito que esse caminho adotado agora pela Prefeitura, de chamar a Infraero para assumir a gestão do projeto, está correto, e temos a informação de que a expectativa é de entregar o aeroporto antes do final deste ano. Estamos prontos para pousar em Guarujá assim que tiver aeroporto funcionando. A primeira rodada será com aviões tipo Caravan, com 9 lugares, provavelmente da Azul Linhas Aéreas. Em seis meses a um ano, devemos ter aviões ATR, com 42 ou 72 lugares. Em um terceiro momento, se houver demanda, em três ou quatro anos, podemos ter aviões da Embraer, Airbus e Boeing. Você acha que a Baixada Santista está preparada para atender bem essa demanda maior que poderá vir com o novo aeroporto?Plenamente. Nos primeiros seis a 12 meses, 100% preparada, porque estamos falando de aviões menores. A região está bem preparada, em especial Santos e Guarujá. Hoje, há hotéis próprios da região com muita qualidade, e marcas e franquias de fora também. A gastronomia é de imensa qualidade, assim como oferta comercial e de visitação. Você diria que a característica turística da região é de temporada de verão mesmo ou é possível explorar outras vertentes o ano inteiro?O grande promotor turístico da Baixada é o sol. No verão, não há o que melhorar, bastando organizar a informação sobre a oferta que está colocada. E há muita coisa bacana acontecendo nas cidades, basta que elas sejam bem divulgadas. De abril a junho, e depois de agosto a novembro, é preciso criar condições para que essa oferta turística seja rentabilizada, e é aí que entram as ações: de um lado, de promoção e marketing de destino, em geral capitaneadas pelo poder público; de outro, de captação de eventos, função principal e prioritária de um convention bureau. Por fim, precisa ter interlocução dos agentes privados com os fornecedores e provedores: articular-se com as operadoras de receptivo em São Paulo, com os grandes sistemas de reserva hoteleira. Esses três componentes viabilizam o turismo o ano inteiro. E novamente destaco o papel dos convention bureau nesse fluxo. Quando eles não funcionam direito, essa cadeia se quebra. Você, que agora também mora parte da semana em Santos, acredita que a falta de uma terceira ligação entre a Baixada e o Planalto pode ser um impeditivo para que o turismo cresça em médio e longo prazos?Eu diria que sim. Não creio que isso já seja uma crise, mas é preciso planejar, sim. E eu, particularmente, ficaria muito feliz se também fosse considerada uma ligação por ferrovia. Hoje, a questão da sustentabilidade está posta, é importante. Já estamos sacando sem fundo contra o cofre, que é a natureza, rasgar a Mata Atlântica com uma terceira via precisa ser bem pensado. Eu preferiria investir em ligação ferroviária, com pessoas chegando à região de trem, sem carro. Santos está nesse esforço de recuperar seu Centro Histórico até como atração turística, a exemplo de outras cidades antigas. Projetos como o Parque Valongo, por meio da iniciativa privada, podem ser a saída viável?Sim, sou absolutamente entusiasta da ideia de resgatar o centro histórico. Está nas páginas de A Tribuna, início dos anos 1990, quando se falou sobre isso pela primeira vez. Eu ainda nem era diretor de Turismo da Prefeitura. Telma (de Souza) era prefeita e Cláudio Abdalla, o secretário de Obras. Ainda não aconteceu, mas sou otimista e entusiasta, sim. O Valongo é uma nova fachada marítima da Cidade. Resgatar esse trecho é mudar radicalmente a história de Santos, é um indutor fantástico para recuperar aquelas casas lindíssimas que hoje estão abandonadas. Um detalhe importante é pensar e planejar quais atividades haverá ali, e que sejam concedidas à iniciativa privada e oferecidas a semana toda. Barcelona é bom exemplo de projeto de resgate e reocupação que deu certo, e vejo muitas semelhanças com o que pode ser a cidade de Santos. Depois de três décadas lidando com o Turismo e conhecendo diversos países, você escolhe Santos para morar parte de sua semana. Por quê?Porque aqui me sinto em casa, me sinto acolhido. Praticamente todas as pessoas que têm significado na minha vida estão aqui. Chegar em Santos, sair à rua, caminhar e encontrar um conhecido... Isso é Santos. Aqui é a minha história, a história da minha família, dos meus avós, dos meus pais... Pretendo ter dois planos de atuação. Como presidente do conselho da Abear, as atividades serão menos intensas, então, pretendo usar parte do meu tempo com Educação, formação de pessoas, muito ligado à minha área de formação, que é História, onde me formei. Segundo, algo bem relevante: garantir que a história caminhe pelo rumo adequado, ajudando a construir uma frente democrática para evitar que o vento gelado do fascismo se instale na nossa cidade. Que a cidade siga na democracia, com respeito à diversidade, acolhimento, igualdade e solidariedade.