[[legacy_image_125587]] Com décadas em salas de aula, a professora Mary Francisca Careno se lembra da dificuldade que enfrentou para começar e, depois, concluir a graduação em Letras. Numa época em que não havia cotas nem bolsas de estudo, Mary não conseguiu pagar os primeiros dois meses de mensalidade. "Minha mãe era empregada doméstica e meu pai vendia amendoim nas ruas. Uma mulher negra entrar numa faculdade na década de 1960 era raro". Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Formada, Mary lecionou Língua Portuguesa na Universidade Estadual Paulista (Unesp) por 17 anos. Fez doutorado, pós-doutorado e cursos relacionados à cultura negra. Nascida em Lins, no noroeste do Estado, ela veio morar no Litoral para intenção de descansar. "Não consegui ficar longe da sala de aula e, mesmo aposentada, ainda trabalhei por 15 anos na Unaerp, em Guarujá". Mary avalia que casos como o dela, de pessoas com carreira consolidada e de referência na sua área de atuação, deveriam ser mais comuns entre a população preta e parda. Ela enxerga este 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, como um "convite à reflexão sobre a influência da cultura negra no Brasil". "Somos uma região racista, como todo o País é. Tenho a impressão de que não conseguimos conquistar alguns espaços. Quando nós, negros, entramos em uma loja, vemos a diferença de atendimento. As pessoas deveriam se perguntar e se incomodar quando elas olharem ao redor e não virem nenhuma família negra". Para amenizar o impacto do racismo, aposta em educação. "O negro é resistente desde o começo. E depois da escravidão também temos história". ObstáculosNeste ano, a professora passou por um episódio que considerou racista em um restaurante próximo ao edifício onde mora. Após chegar de viagem, resolveu ir almoçar no estabelecimento com o afilhado, também preto. "Um dos garçons nos disse para sentar numa mesa nos fundos. Fiz o pedido e percebi os olhares. A comida demorou muito. Quando os pratos chegaram, pedi um copo para o garçom, mas ele não trouxe e somente atendia os clientes do lado. Os únicos negros éramos nós", lembra. Aos 20 anos, o estudante Thiago Cassio Fuzatti dos Santos tenta entrar em um dos campos em que menos se veem negros. Aluno de um curso de Medicina, ele denunciou ter sido vítima de racismo em uma universidade de Cubatão. Ele voltava do intervalo quando foi impedido de entrar no elevador por um colega de classe, que, segundo a vítima, o chamou de "sujo". Nesta semana, Santos falou com alívio sobre o caso, pois o aluno que o ofendeu foi suspenso por 40 dias e não terá direito a recuperar as atividades realizadas durante esse período. "Denunciem. Não é fácil denunciar, mas é o melhor caminho. Pois muitas pessoas só irão aprender e entender quando sentirem que um processo é algo sério, que pesa", afirma. Presidente da Comissão de Direitos e Liberdade Religiosa da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de Santos e representante da ordem no Conselho Municipal da Comunidade Negra, o advogado Renato Santos de Azevedo incentiva atitudes como a do estudante, mas avalia que a Baixada Santista ainda não tem espaços suficientes "para receber denúncia, apuração, atenção, cuidado e encaminhamento institucionais especializadas para essas condutas criminais". Para ele, "a Consciência Negra representa, no Brasil, a resistência contra o racismo e a lembrança de que temos que evoluir para que a nossa sociedade tenha mais respeito. É hora de dar ouvidos a especialistas negros e negras que, nos últimos 20 anos, ascenderam e permaneceram na academia e a outros que fazem parte do Movimento Negro". [[legacy_image_125588]] Importância da educaçãoA professora Luciana Couto Rivera, de Santos, ajuda a combater o racismo, a discriminação e a baixa expectativa social com o projeto Luli – Nascidas para Brilhar, que reúne 30 meninas que passam a ter contato com a cultura afro, por meio de livros, oficinas, rodas de conversa e oficinas de turbante, bijuterias e bonecas representativos da cultura africana. Idealizadora do projeto, Luciana conta que o projeto nasceu porque "quando era criança, não tinha representatividade. Meu pai é preto, e minha mãe, branca. Por morar com a minha mãe, vivi toda a infância e a adolescência em uma sociedade branca. Eu não me encontrava, não me entendia".