[[legacy_image_324807]] Pare tudo o que está fazendo. Se estiver no banco da praça lendo o jornal, aproveite e olhe ao redor, sinta o frescor da natureza e o ouça o canto dos pássaros. Se estiver em casa, lendo enquanto toma um café, vá até a janela, aprecie a vista, olhe para o céu e reflita. Esses são passos singelos, mas se feitos pelo menos uma vez ao dia, em meio ao caos da rotina, podem surtir um efeito grandioso no cuidado com a mente e o psicológico. Janeiro, mês que é sinônimo de início de novos ciclos, também é marcado pela cor branca, se referindo à conscientização sobre a necessidade da atenção à saúde mental. Conforme o Instituto Janeiro Branco, a cor foi escolhida simbolicamente, por representar folhas ou telas em branco, sobre as quais se pode projetar, escrever ou desenhar expectativas, desejos, histórias e mudanças. A psicóloga Valéria Christina Souza Santos afirma que ainda não existem instrumentos específicos que atuem na prevenção de doenças relacionadas ao mental, mas medidas e campanhas de conscientização como esta podem gerar uma psicoeducação, diminuindo estigmas acerca do tema e incentivando cuidados e prevenção. Leticia Presas Rodrigues, que também é psicóloga, fala que ainda existem preconceitos com relação aos transtornos psiquiátricos, mas admite que políticas públicas e uma boa curadoria de informações podem promover a educação das pessoas sobre a saúde mental. “Ainda ouço frases como “isso é frescura”, “ontem eu vi a pessoa na avenida e parecia normal”, “esse problema é falta de Deus”, entre outros, e acredito que isso só prejudica ainda mais quem está passando por uma situação assim”, comenta. AutocuidadoCorreria do dia a dia, trabalho, contas a pagar, estudos. Afinal, como cuidar da mente em meio a tudo isso? Para Letícia, essa é uma pergunta de ouro. Ela diz que os cuidados com a saúde mental precisam ter frequência e consistência, ou seja, serem cuidados no decorrer do ano inteiro em todas as fases da vida. “Atitudes que promovem saúde mental estão ligadas a um estilo de vida saudável e equilibrado. Na prática, incorporar na rotina alguma atividade física possível, alimentação saudável, cultivar e manter relacionamentos positivos, tratar a si mesmo com cuidado e gentileza, reservar tempo para atividades de relaxamento e lazer que podem ser livros, músicas, artesanatos. Muitos estudos também têm evidenciado os benefícios da meditação, contemplação da natureza e o cultivo de momentos em silêncio como manejo para aquietar a mente”. Para Valéria, pequenos passos também podem ser cruciais para o autocuidado, principalmente diante da rotina turbulenta vivida atualmente. “Atividades gratificantes, convivência social e prática de atividades são coisas simples e essenciais. Uma boa noite de sono também é muito importante, pois dormir bem e saúde mental são fatores interligados”. No entanto, a psicóloga alerta sobre as cobranças que podem vir a existir. Valéria afirma que somos seres únicos e a busca por atividades, hobbies e relaxamento deve ser de acordo o repertório pessoal de cada um. “Toda uma cobrança social que acaba vindo nessa busca pela felicidade, mas devemos diminuir isso. Por exemplo, acham que se está sol, todo mundo tem que ir para a praia, mas às vezes você não está com vontade de ir e só quer descansar, então essa não vai ser a sua forma de ser feliz naquele momento”, afirma. O que você faz por você mesmo?A assistente administrativo Celidelma Barros da Silva, de 47 anos, conta que cuida da mente ao lidar com suas plantas. “Na minha mesa de trabalho, eu tenho três . Cada uma tem um significado de equilíbrio, proteção e ajudam no alívio do estresse”. A técnica de correios Elisangela da Rocha Cardoso, de 42 anos, revela que tenta driblar a ansiedade ouvindo músicas. “Eu tomo medicação controlada e hoje em dia é muito difícil a gente ter um tempo para se cuidar, mas dentro do ônibus para o trabalho, eu sempre tento escutar algo para distrair. Também envolvido com a música, o office boy Vynícius Aguiar de Sousa Oliveira, de 23 anos, conta que costuma a dançar para aliviar o estresse do dia a dia. “Eu coloco meu fone de ouvido Bluetooth e fico dançando em frente ao espelho. Eu acabo relaxando e até me divertindo”. Já o estagiário Jean de Oliveira Guimarães, de 17 anos, diz que costuma ver vídeos no YouTube em seus momentos de lazer, além de passear na praia. “Quando faço isso, saio do foco do problema, do trabalho”. Fique atento aos sinaisA psicóloga Valéria Christina Souza Santos orienta que os primeiros sinais que alertam que a saúde mental não vai bem são as alterações de humor, transtornos de ansiedade, dependências químicas e estresse. “A gente tem que ficar atento aos sinais precoces, pois uma simples dificuldade em executar atividades diárias já pode ser o momento de buscar ajuda”. As principais doenças psicológicas causadas pela falta de autocuidado e a falta de desaceleração de rotinas turbulentas podem ser a depressão e a ansiedade. A psicóloga explica que, no primeiro caso, os sintomas podem ser apatia, pensamentos lentos, depreciação, isolamento, alterações de sono e alimentação. Já no caso da ansiedade, os sinais são palpitação, irritabilidade, falta de ar, sudorese, mãos frias, boca seca, náusea e diarreia. Neste caso, em momento mais grave, podem acontecer crises, que tendem causar sensação de medo intenso e asfixia. Atenção deve existir em todas as fases da vidaEspecialistas também apontam que o cuidado com a saúde mental deve ser levado em consideração em todas as fases da vida. Na infância e adolescência, a psicóloga Letícia Rodrigues afirma que algumas atitudes devem ser tomadas no seio familiar e ambiente escolar, como a promoção de espaços seguros e acolhedores para que possam expressar seus sentimentos; atividades que estimulem a criatividade e ajuda no desenvolvimento de habilidades para lidar com desafios e situações estressantes. Outra medida destacada pela psicóloga é a promoção de rotinas saudáveis de sono, boa alimentação, estabelecimento de limites para as telas, além da atenção a qualquer alteração comportamental ou de humor que possam ser sinais de alguma dificuldade e buscar ajuda profissional quando necessário. Com relação aos idosos, Letícia afirma que nesta fase ocorre um decréscimo natural no ritmo de algumas atividades, e por isso a saúde física pode demandar maiores cuidados e o círculo afetivo pode diminuir. “Isso tudo pode afetar a percepção de bem-estar e controle sobre si. Na prática, promover atividades que possibilitem ao idoso se sentir ativo na comunidade, realizar atividades intelectualmente estimulantes, criativas e com engajamento social, são promotoras de saúde mental e bem-estar”, comenta.