[[legacy_image_304426]] Colecionador de prêmios como o Jabuti, autor de mais de 100 obras, entre poemas, contos e narrativas e um dos mais conhecidos escritores da literatura infanto-juvenil do país. A conversa de hoje foi com Pedro Bandeira, que é um santista que já vendeu mais de 30 milhões de livros. Pedro, você já era muito conhecido porque você foi apresentador de TV, gravou dezenas de comerciais e também interpretou vários papéis no teatro. Aliás, foi lá onde tudo começou?Realmente. Fui incentivado pela Patrícia Galvão e do meu amigo do Plínio Marcos. Fiz as peças dele aqui em Santos, e depois ambos fomos para São Paulo e começamos a fazer teatro. Ele continuou. Eu não dava, pois o teatro é uma coisa que você está empregado hoje, mas acaba a peça e você fica desempregado e eu precisava de dinheiro para pagar uma pensão para morar. Então, eu entrei em jornalismo e eu trabalhei na Última Hora. O salário não era enorme, mas saía no fim do mês e estava bom, era um salário garantido. Depois eu fui para São Paulo e aí o jornalismo foi ganhando, porque eu escrevia bem, sei lá, punha as vírgulas no lugar certo, aí o texto venceu o teatro. Eu acho que eu sou melhor de texto que de teatro. Por isso que na década de 70 você começou a escrever muito e as suas histórias foram parar nas bancas. Como é que foi esse começo?Pois é, eu fui trabalhando em editora Abril, trabalhei em revista infantil, nos fascículos que tinham na época, e acabei nas infantis. Como eu cumpria prazo e eu acho que qualidade mais ou menos, começaram a me dar muitas historinhas para fazer, em freelancer inclusive, para melhorar o salário, e aos domingos eu ficava na máquina de escrever. Chegou uma hora que eu tinha dezenas de historinhas publicadas em banca. A Marisa Lajolo, também, santista e grande teórica de literatura, minha amiga e comadre, ela falou: Pedro, você escreveu tanta historinha, por que não faz um livro? E eu pensei: livro? Como assim? Um livro? E ela me disse: assim que você escreve o que você quer, não que os outros mandam. Aí eu fiz o “O Dinossauro que Fazia Au-Au". Eu achava que ia viver como freelancer de texto, seja para publicidade, para revista, para jornal, discurso de político, o que quisesse eu ia fazer. Mas, aí meus livros fizeram sucesso e eu fiquei só com a literatura e fui estudar mais profundamente a psicologia do desenvolvimento, para entender as diferenças do ser humano desde que nasce até o fim da adolescência. As crianças são muito diferentes. Você precisa saber o que é uma de 8, o que é que você pode escrever pra ela, e o que é uma de 12 ou 13. É muito fascinante o ser humano. Então eu escrevo pra todas as idades. Como é que é escrever pra criança? Isso também tem um pouquinho da sua infância, você gostava muito de ler, por exemplo?Eu sempre gostei de ler, porque eu era sozinho. Tinha dois irmãos muito mais velhos e morava na Conselheiro Nebias, numa casa enorme, com a família inteira. Todos os casais moravam lá e dividiam o aluguel. E eu ficava sozinho, chegava da escola, não tinha nada a fazer. Jogava botão sozinho, sempre ganhava de mim mesmo. Imaginava sozinho. A minha diversão era ler e eu lia muito gibi. Hoje a criançada não lê muito gibi, né? Tá fora de meio fora de moda. Então eu começava ler Monteiro Lobato, daí não tinha outros livros, e eu lia tradução de a Ilha do Tesouro, Mark Twain. A sua paixão é escrever para adolescentes. Como é que isso começou? Você deu aula também para o ensino médio, para cursinhos, para jovens, para adolescentes. Isso ajudou ou não?Eu acho que o artista tem que conhecer o ser humano e sentir o ser humano. Se não, todo psicólogo infantil seria escritor. É uma coisa de sentir, de, às vezes, ver um menino parado, assim, não brincando, todo mundo está brincando e ele está parado. Você para, e pensa: por que será? O que será que ele está pensando? E aí, de repente, flui uma ideia. O que aconteceu com ele? Ou ele é tímido. De repente, aquele ser humano quietinho pode te dar uma história, entendeu? Então, os alunos me inspiraram de certa forma. Sua obra que fez mais sucesso foi “A Droga da Obediência”. É uma série, são seis livros. Como é que surgiu essa inspiração?Essa ideia tem tudo a ver. O livro saiu em 1983 e eu, como no jornalismo, apanhei muito da censura do regime militar. Então o piso desse livro é a liberdade de expressão. Ninguém pode falar pra você: cala a boca! Você não entende nada, eu que tenho razão. Não, você tem o direito, ainda que seja jovem, de manifestar o que você pensa. Então é um livro sobre liberdade de palavra, liberdade de expressão e principalmente o quarto poder da república, que é o jornalismo. Se não fosse a imprensa livre, você não tinha nada. A imprensa que cutuca, que revela, então é um pouco esse reflexo. Você pega um jovem, forte, com aquele garrudo, e você dá pra ele uma droga, ele desinfla. É uma droga da obediência. O álcool é. um homem alcoolizado, o que é que ele é? Ele não é nada. As drogas sempre foram, desde o álcool, uma desgraça para o que é que é o ser humano livre, forte. Uma sociedade tem que ser livre a esse ponto. Então a gente tem que sempre lutar contra tudo aquilo que pode abafar a criatividade humana. A censura é uma, mas as drogas são outras. Na década de 80, você também estourou em sucesso com outra obra sua, que foi o Fantástico Mistério de Feiurinha. Aliás, essa obra você conquistou o Prêmio Jabuti. Você já imaginava que ia chegar tão longe, conquistar alguns prêmios assim e fazer sucesso com essas obras?Esse livro foi escrito com amor, porque meu pai morreu um pouco antes de eu nascer e eu só tive mãe na vida. Ela não era uma senhora culta, mas era uma senhora muito doce e no colo dela eu tremi com a bruxa da branca de neve, com o lobo da chapeuzinho vermelho e essas histórias de fada. Eu lembro o som da voz da minha mãe. Então eu escrevia esse livro com muito amor. Eu no colo dela ouvi todas essas histórias antigas e adormecia. Então, eu gosto muito das histórias até intelectualmente, não só emocionalmente, porque as histórias são tão antigas, e que se sobrevivem até hoje, elas trazem verdades humanas importantes. Quando eu fiz, as heroínas são as mulheres, porque quem inventou essas histórias eram mulheres. Você vê que a heroína de Conto de Fadas sempre é mulher. O homem só aparece no fim da história para dar um beijinho e casar. Elas se viram contra bruxas, dragões e tal, e o príncipe só aparece no final. Então, eu fiz questão de mostrar isso aí e foi muito gostoso fazer, pois essas histórias estão dentro de mim, com o amor da minha mãe. Você veio há poucos dias para Santos e lançou o seu mais novo livro infantil Tutti Frutti, Venha para a Festa da Alegria. Da onde vem essa inspiração? Você gosta de escrever para criança?A fase principal é da criança pequena, porque se as famílias se preocupassem em mostrar livrinho, mostrar figurinha, ler história para criança, desde o bebê, a criança teria uma ligação forte com o livro e ao entrar na escola, o livro não era uma coisa desconhecida. Mas, isso nem sempre acontece. Acontece que as pessoas acham que só devem prover os seus filhos e a escola que cuida a educação, mas não! A educação é um problema da família.