[[legacy_image_208178]] Dos oceanos vêm os peixes, os frutos do mar, as atividades portuárias, o turismo náutico e o lazer. Vêm o mergulho esportivo e a exploração do pré-sal. Mas a Ciência vem dizendo mais sobre os oceanos, suas riquezas e potencial econômico. Esse leque de novas oportunidades tem nome: bioeconomia azul, um campo ainda pouco conhecido e explorado economicamente, mas que já desperta a atenção de empresas de porte interessadas nas descobertas científicas que possam criar produtos a partir de processos mais limpos, seguros e rentáveis. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Um exemplo desse potencial vem do Rio Grande do Sul. “Era apenas uma pesquisa para a minha conclusão de curso, mas depois descobri que se tratava de uma inovação tecnológica inédita no Brasil”, diz o biólogo Mario Frota Jr, pesquisador da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que em 2011 transformou suas descobertas com esponjas marinhas na Regenera Moléculas do Mar, uma empresa de base tecnológica que disponibiliza a biodiversidade de origem marinha em inovação para a indústria. Indústria variadaAinda na vida acadêmica, Mario pesquisava o potencial dos microorganismos marinhos para sintetizar moléculas que pudessem compor novos medicamentos, por exemplo, ou aprimorar a eficiência dos que já estão no mercado. Foi assim que descobriu a utilização de algumas moléculas para melhorar o tratamento quimioterápico. Mario percebeu que estava diante de um potencial da natureza ainda não explorado e que outras descobertas poderiam vir desse universo marinho. Da graduação seguiram-se o mestrado, o doutorado e o pós-doutorado. Montada a empresa e de posse das autorizações ambientais para extrair uma porção de esponjas marinhas com finalidade científica e econômica, a Regenera montou um banco de bactérias e fungos que ficam disponíveis para pesquisa conforme a demanda do setor. Entre os clientes da empresa, está uma concessionária de rodovias, que encomendou à equipe de pesquisadores uma molécula com bioluminescência capaz de iluminar a estrada. Hoje, estão na carteira de clientes da Regenera empresas como Natura, Ambev, Basf e a farmacêutica Eurofarma. Com essa, em especial, as pesquisas podem revolucionar a indústria de antibióticos. “Estamos em busca de uma molécula que possa ser usada em antibióticos contra as superbactérias”, diz Mario. As moléculas identificadas pela equipe do biólogo são inéditas e vão sendo descobertas a partir das pesquisas encomendadas pelos clientes. Na equipe, estão pesquisadores das áreas de engenharia química, biologia marinha, farmácia, biomedicina e biotecnologia. Amazônia azulÀ extensão de oceano que margeia o Brasil dá-se o nome de Amazônia Azul, um contraponto à Amazônia Verde, composta pelas florestas e que também é usada pela Ciência para descobrir novos componentes da indústria. “Só que o potencial da biodiversidade da Amazônia Azul ainda é pouco conhecido. Temos já indícios suficientes para mostrar que há uma riqueza e um potencial muito grande ali”, diz Mario. “Se a vida vem do mar, as soluções também podem vir do mar”. Desafio de aprender Há potencial empreendedor na economia azul, mas é preciso conectar quem pesquisa e quem tem recursos para investir. Esse é um dos principais desafios para que o potencial da cadeia de negócios da sustentabilidade possa ser percebida pela sociedade e dê retorno econômico aos empreendedores, diz Angélica Rotondaro, sócia-fundadora da Climate-Smart Institute, uma entidade criada para identificar potenciais empreendedores e aproximá-los de investidores que apostem nessas iniciativas. Angélica foi uma das participantes da 4ª edição da Feira Conexão pelo Clima, organizada pelo O Mundo Que Queremos e pelo CDP Latin America, em São Paulo. O evento teve como foco debater os desafios e avanços da preservação e conservação dos biomas e as implicações da bioeconomia para um projeto de país economicamente sustentável. “Criamos o Climate-Smart para alavancar o espírito empreendedor de negócios pró-clima baseados na economia azul”, define Angélica, que mora em Guarujá, mas conecta esses empreendedores com fundos de impacto e investidores-anjo existentes em todos os países. Estágios diferentesNo portfólio do Climate-Smart Institute há projetos em diferentes estágios de maturidade. Para as fases iniciais, o trabalho do instituto é buscar investidores-anjo, que apostam na ideia do pesquisador mesmo sem que tenha ainda um negócio amadurecido. Nessa fase está, por exemplo, o pesquisador Felipe Cohen, da UrbanSea - Cultivo sustentável de macroalgas extraídas do oceano. A intenção do negócio, explica Felipe, é utilizar as macroalgas em alimentos funcionais, fármacos e cosméticos. “No Brasil há mais de 600 espécies de algas, mas muitas ainda pouco conhecidas ou utilizadas. O Brasil continua importando mais de 90% da Ásia para a alimentação”. Fundos de impactoNas fases mais avançadas das pesquisas, a busca é por investimento de impacto. Nessa fase, diz Angélica Rotondaro, 30% dos projetos são de bioeconomia. Angélica acredita no potencial da bioeconomia azul e vê com otimismo a cadeia de negócios que pode se formar a partir dessas iniciativas. “Já se está falando mais sobre isso. Há muitas questões ainda a serem equacionadas, mas o potencial existe”.