[[legacy_image_324485]] Imagine a seguinte cena: o barco pesqueiro sai para o alto-mar e fica de sol a sol, como são conhecidos os pescadores que permanecem um dia inteiro jogando rede para pegar camarão. Quando puxam a rede, em vez de camarão vêm latinhas de alumínio, garrafas, fraldas, isopor, pote de manteiga, canudinho, madeira e todo tipo de lixo que vai parar no fundo do oceano, de onde deveria vir o produto que sustenta centenas de famílias que vivem dessa atividade na região. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Identificar esse problema, entender que tamanho ele tem e como resolver ou reduzir os diversos impactos que ele provoca na cadeia produtiva dos pescadores de arrasto artesanal foram os principais objetivos do Projeto Nós da Ação, desenvolvido durante quase dois anos por pesquisadores do Instituto do Mar, ligado à Universidade Federal de São Paulo, campus Baixada Santista, em conjunto com duas comunidades de pesca de arrasto do camarão (Bertioga e Guarujá) e com os técnicos do Instituto Florestal que respondem pela APA do Litoral Centro. Os recursos vieram de edital da Fundação Boticário. De janeiro de 2022 a novembro de 2023, o saldo dessa pescaria surpreende: 3 toneladas de lixo ‘pescadas’ do fundo mar. O papel dos oceanosA presença de lixo no fundo do mar não é novidade e vem sendo um dos principais debates mundiais dentro da Década do Oceano, movimento criado pela ONU para jogar luz sobre a importância dos oceanos para o planeta. A década para esses debates começou em 2021 e segue até 2030. O lixo impacta os oceanos porque tira deles duas das principais funções naturais: a captura de até 25% do CO2 da atmosfera, o gás que compromete a camada de ozônio, e o consequente equilíbrio climático. A presença de lixo reduz essa capacidade porque sua decomposição altera o ecossistema e a vida marinhas. Pescadores de lixo“Os pescadores de camarão começaram a nos reportar o prejuízo que tinham no trabalho. Eles saem para pescar de sol a sol e trazem às vezes mais lixo na rede do que o próprio camarão. Acabam limpando o fundo do mar, mas ficam sem renda”, explica a gestora da APA Marinha do Litoral Centro, Maria de Carvalho Tereza Lanza. A reivindicação dos pescadores artesanais era de serem pagos pela retirada do lixo, já que acabam fazendo um serviço ambiental. Identificado o problema, o passo seguinte veio com a parceria da Unifesp-Baixada Santista, que transformou essa questão em um projeto acadêmico, com metodologia e engajamento das duas comunidades pesqueiras. “Era preciso saber que lixo era esse, de onde vem, quais os materiais e marcas mais presentes e se era possível reciclá-lo”, explica a bióloga Leandra Regina Gonçalves Torres, professora do Instituto do Mar. Em conjunto com a APA do Litoral Centro, dez comunidades de cada um dos núcleos envolvidos foram capacitadas em oficinas de engajamento e conscientização para que tivessem informação sobre as etapas do trabalho e o papel que desempenhariam a partir daquele momento. Pescadores, pesquisadores e técnicos mapearam todo o lixo, em um diagnóstico que incluiu peso, tipologia e até as marcas comerciais mais presentes. Ao final de quase dois anos de projeto, muitas conclusões: 70% do lixo é plástico, a maioria já não interessa à reciclagem porque está bastante decomposta e suja e há muitas marcas de produtos de fora do Brasil, vindas dos navios que chegam ao Porto de Santos. “A partir desse diagnóstico, já é possível apontar caminhos e responsabilidades, tanto do setor público, como das empresas privadas que respondem por esses produtos e deveriam estar mais engajadas na economia circular”, diz Leandra. Pesquisa e prática“Podemos pensar agora em como atribuir responsabilidade pelo lixo presente no fundo mar. Já sabemos como ele é, quais materiais predominam e até as marcas dos produtos. Muitos nem são do Brasil.”Leandra Gonçalves, professora do Instituto do Mar (Unifesp-Baixada) “A melhor política pública é a que a gente constrói de forma coletiva, e essa partiu do território, dos pescadores, que se sentiam prejudicados por estarem fazendo uma limpeza sem qualquer remuneração.”Maria de Carvalho Lanza, gestora da APA Litoral Centro Limpeza remunera pescadores artesanais no EstadoDesde o final do ano passado, os pescadores de camarão de Bertioga, Guarujá e também de São Sebastião foram incluídos em um programa criado pelo Governo do Estado para remunerar os camaroeiros que limpam o fundo do oceano como consequência de suas atividades diárias. O programa Mar sem Lixo foi criado pela Fundação Florestal mas, inicialmente, beneficiava apenas as comunidades pesqueiras de Itanhaém, Cananeia e Ubatuba. “A meta da fundação é atingir todas as unidades de conservação costeira”, diz Maria de Carvalho Tereza Lança, gestora da APA Marinha do Litoral Centro, uma das três unidades costeiras do Estado (há, também do Litoral Norte e do Litoral Sul). Maria explica que a parceria com a Unifesp ampliou o conhecimento que se tinha sobre o lixo do fundo do mar, sua origem, características e volume. “Havia uma lacuna de conhecimento”. O programa Mar sem Lixo “reconhece o papel do pescador nesse processo e poder remunerá-lo pelos serviços ambientais é uma conquista”. ReplicávelO programa criou uma metodologia para remunerar o camaroeiro, que inclui a pesagem do material, tipificação e limpeza. O pagamento é feito ao final do mês, com o crédito de até R\$ 600,00 por pescador, creditado no cartão-alimentação cadastrado. Maria de Carvalho comemora a ampliação do benefício aos pescadores desses três municípios e diz que o modelo criado para a remuneração vem atraindo a atenção de outros estados costeiros. “Há muitas comunidades pesqueiras que sofrem o mesmo impacto, com ganhos reduzidos em função do lixo do oceano”. Outro benefício do Mar sem Lixo foi ter criado uma política pública a partir da queixa da comunidade. “A chegada da universidade nesse projeto trouxe ainda mais conhecimento e metodologia. Agora, podemos dar outros passos porque temos muito mais informações”.