[[legacy_image_199764]] Representantes da classe política, entidades da sociedade civil e setor produtivo da Baixada Santista precisam retomar, de forma efetiva e imediata, as discussões sobre a construção de uma nova ligação viária entre o Planalto e a região. Assim dizem especialistas e integrantes de instituições ligadas ao setor portuário consultados por A Tribuna. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! As projeções de alta no movimento de cargas no maior complexo portuário da América Latina, a retomada do crescimento econômico do País e a necessidade de dividir melhor o tráfego entre veículos de passeio e comerciais (ônibus e caminhões) no Sistema Anchieta-Imigrantes (SAI) são alguns dos argumentos para justificar a urgência de se intensificar esse debate. Apesar de o Porto de Santos ter respondido, em 2020, por 27% de tudo o que o País exportou, há somente uma opção viária para o transporte de cargas até os terminais: a Via Anchieta, concebida e construída há mais de 70 anos — a Pista Norte entrou em operação em 1947, e a Sul, em 1953. A prefeita de Praia Grande e presidente do Conselho de Desenvolvimento da Baixada Santista (Condesb), Raquel Chini (PSDB), afirma que a criação dessa ligação é uma das preocupações do colegiado, formado pelos nove prefeitos locais e representantes do Governo do Estado. Segundo ela, trata-se de uma ação necessária para aumentar o fluxo de mercadorias ao Porto. “Estudos apontam que o SAI não comportaria, a médio prazo, o grande aumento de demanda para o local”, ressaltou. A chefe do Executivo aponta, ainda, que essa obra favorecerá o turismo, uma das principais matrizes econômicas das cidades litorâneas. “Entre a elaboração do projeto, a licença ambiental e a construção, já estamos atrasados com isso, uma vez que na Anchieta, atualmente, os caminhões praticamente trafegam em duas faixas, sobrando (outras) somente para veículos mais leves”, justificou. No limitePara o diretor-executivo do Sindicato dos Operadores Portuários do Estado de São Paulo (Sopesp), Ricardo Molitzas, é preciso iniciar “imediatamente” a discussão efetiva dessa obra. Afinal, diz, não seria concretizada em menos de cinco anos. “Talvez possamos ter problemas em um prazo não tão longo quanto imaginamos. Qualquer acidente na Serra ou qualquer problema em uma das vias da Anchieta provoca enormes congestionamentos. Isso indica que o sistema está muito próximo do limite”, frisou. Para justificar esse temor, o representante da instituição relembrou que, em 2002, ano da inauguração da segunda pista de descida da Imigrantes — onde o tráfego de caminhões é proibido —, o Porto de Santos movimentou cerca de 60 milhões de toneladas. No ano passado, o número saltou para 147 milhões de toneladas. “Essa variação ocorreu sem que houvesse qualquer discussão a respeito de uma nova via rodoviária. Continuamos apenas com a Via Anchieta. Além da questão das cargas, essa obra também é importante para garantir a mobilidade da sociedade, principalmente aos finais de semana”, destacou. SobrecargaNa avaliação do presidente do Sindicato das Empresas de Transporte Comercial de Carga do Litoral Paulista (Sindisan), André Luís Neiva, a necessidade de outra ligação viária entre o Planalto e a Baixada Santista para caminhões já é mais do que comprovada. “São cerca de 10 mil veículos comerciais (ônibus e caminhões) que descem diariamente à região em uma estrada construída na década de 1940, acanhada e sem capacidade para absorver a demanda, que vem aumentando a cada ano”, disse. Ele também criticou o alto valor do pedágio cobrado pela Ecovias, concessionária do SAI, e da contrapartida oferecida aos caminhoneiros. Em sua visão, a tarifa é como a de um hotel cinco estrelas, mas o serviço é de um estabelecimento de três estrelas. “Temos caminhões carregados descendo, mas outros, vazios, que são obrigados a andar a 20 quilômetros por hora por causa das poucas áreas de ultrapassagem. Isso sobrecarrega o freio do veículo de forma desnecessária, o que pode provocar incêndios por causa do superaquecimento”, justificou Neiva. Soluções até 2040O tráfego de caminhões entre o Planalto e as cidades da região é um dos pontos que estão sendo abordados no Plano Regional de Mobilidade Sustentável da Baixada Santista (PRMSL-BS), que será concluído e entregue às prefeituras em dezembro próximo. Segundo o diretor-executivo da Agência Metropolitana da Baixada Santista (Agem), Milton Gonçalves da Luz, esse estudo apresentará diretrizes gerais e propostas de soluções integradas para os municípios locais até 2040. “Foi feita uma pesquisa de campo sobre o fluxo de caminhões e outros veículos pesados, como ônibus, na Anchieta, na Imigrantes e na Cônego Domênico Rangoni, em agosto do ano passado. Os municípios mais impactados com esse tráfego, como Cubatão, Guarujá e Santos, também foram ouvidos pela Câmara Temática de Mobilidade e Logística”, explicou. Luz citou que os técnicos da Setec Hidrobrasileira, empresa contratada para a elaboração do PRMSL-BS, também estão fazendo uma modelagem com base no cruzamento de dados de outras fontes, como os enviados pela Agência de Transporte do Estado (Artesp) e pela Ecovias. O diretor-executivo da Agem declarou que essa iniciativa já está repercutindo em outros estados. Nesta semana, ele participará da reunião do Fórum Nacional de Entidades Metropolitanas, em Vitória (ES), onde fará uma apresentação sobre as atividades desenvolvidas para a construção do PRMSL-BS. Esse plano de mobilidade está sendo realizado com recursos do Programa Euroclima+, que financia ações de mitigação e adaptações aos efeitos das mudanças climáticas, em parceria com a Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD). O estudo recebeu o apoio financeiro de € 500 mil (euros, em torno de R\$ 3 milhões). LicitaçãoO secretário de Estado de Logística e Transportes, João Octaviano Machado Neto, projeta que a licitação para se construir e conceder uma nova ligação viária entre o Planalto e a Baixada Santista seja lançada entre julho e dezembro de 2023. Trata-se da Linha Verde, um novo corredor multimodal formado por uma estrada com cerca de 40 quilômetros e duas linhas de ferrovia, que ligará o trecho leste do Rodoanel Mario Covas Junior à Rodovia Cônego Domênico Rangoni, na altura do pedágio, em Guarujá. Ainda não há uma estimativa de investimentos nem o traçado dessas ligações. O consórcio Benvenuto Modera Logit foi escolhido no chamamento público feito pela pasta para apresentar os estudos de viabilidade técnica, jurídica e econômico-financeira do empreendimento. “Estamos trabalhando na modelagem econômica, técnica e financeira desse projeto para lançarmos o edital dessa concessão, que precisa ser atrativo para a iniciativa privada”, afirmou. O grupo ou empresa vencedor da concorrência deverá explorar o novo acesso, por, no mínimo, 30 anos, mas a definição depende da análise em andamento. Segundo Machado, a rodovia segregaria o tráfego de cargas do de carros de passeio que hoje vêm pelo Sistema Anchieta-Imigrantes (SAI). Além disso, permitiria o acesso mais rápido de caminhões aos terminais portuários em Guarujá e na Área Continental de Santos. “Hoje, um dos nossos grandes problemas é a capacidade de levar contêineres até o Porto de Santos. Mais de 90% deles chegam por uma única pista da Anchieta. Existe a necessidade de se ter uma rodovia moderna, inteligente e sustentável. A ferrovia também seria utilizada para essa finalidade.” Melhorias pontuaisO secretário afirmou que o fluxo de caminhões e de outros veículos no SAI é acompanhado permanentemente pela secretaria, pela Artesp e pela e Ecovias. “No momento, não há nenhum risco de estrangulamento ou saturação do sistema a ponto de ele colapsar. Mas é claro que, se nada for feito, daqui a dez anos poderemos ter uma situação muito crítica nessa operação.” Enquanto a Linha Verde não sai do papel, Machado explicou que que haverá melhorias na Pista Norte da Via Anchieta (adequações nas áreas de frenagem e de descanso) para possibilitar a reversão dela em algumas noites e madrugadas durante a semana. “Essa medida busca aumentar a capacidade de descida de carga noturna para o Porto de Santos. Esse projeto já está bem avançado junto à Ecovias e à Artesp, que está analisando esse projeto. Acredito que essas obras sejam iniciadas no final deste ano ou no começo de 2023”, previu.