[[legacy_image_215017]] Santos, domingo, 15 de maio de 1921. Agnello se sentia como uma audaciosa gaivota, de asas abertas sobre um mundo desconhecido e aberto à frente. Vez em quando, ele fechava os olhos só para sentir o vento bater-lhe o rosto, enquanto ouvia o ronco produzido pelo motor do pequeno hidroavião modelo Macchi 9, que o conduzia a uma aventura inusitada pelos céus da Ilha de São Vicente. Mas fora com os olhos bem abertos que o jovem fotógrafo da revista santista Flamma pôde, de fato, se deslumbrar diante da paisagem improvável da região. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Dessa forma, Agnello realizava, enfim, o sonho de poder registrar pelas lentes de sua câmera as linhas geográficas, e perfeitamente geométricas, da terra de Braz Cubas, dos Gusmões e dos Andradas, de um ângulo até então inédito na história santista. Enfim, ali, pelas suas mãos e pelas asas daquele bravo hidroavião, nasciam as primeiras fotografias aéreas de Santos. Origens O primeiro registro aerofotográfico da história humana ocorreu em 1858, fruto da engenhosidade e arrojo do retratista francês Félix Nadar. Sobrevoando os céus de Paris, na França, em um balão de ar quente, Nadar produzira com sucesso uma imagem fotográfica e panorâmica da região sul da cidade, utilizando uma câmera escura apontada para o chão, gerando um negativo de 8x8 cm. Dois anos depois, James Black e Samuel King, empregando igualmente um balão de ar quente, obtiveram, após várias tentativas frustradas, o registro de uma bela imagem panorâmica da cidade de Boston, nos EUA, tornando-a, assim, a primeira aerofotografia feita nas Américas. A partir daí, outras experiências em termos de fotografias daquele novo e inusitado ângulo foram desenvolvidas, mas sempre a partir de voos em balões. Somente em 1908 é que o avião entrou no jogo, passando a ser utilizado neste tipo de atividade. O norte-americano Wilbur Wright (um dos famosos irmãos Wright) foi o pioneiro neste caso, registrando uma sequência fotográfica de Camp D’Auvours, um campo militar localizado nas proximidades de Le Mans, na França. As imagens de Wright foram utilizadas na produção de uma cena animada (filme) que, infelizmente, acabou se perdendo. No Brasil Em 1916, o repórter Jorge Kfuri, do jornal carioca A Noite, se tornou o primeiro a produzir uma fotografia aérea no Brasil, sobrevoando o Rio de Janeiro como passageiro de um hidroavião conduzido pelo aviador capitão-tenente Virgilius de Lamare. A partir desta experiência, o país iniciou uma ampla campanha e uma série de procedimentos visando implementar a prática de levantamento fotográficos com vistas à elaboração de cartas geográficas detalhadas. [[legacy_image_215018]] Base aeronaval de SantosNeste final da década de 1910, a cidade portuária de Santos já era reconhecida como um importante e potencial centro da aviação nacional, por conta das condições favoráveis que oferecia a pousos de hidroaviões e até mesmo aeronaves terrestres (elas pousavam na faixa de areia da orla entre o José Menino e o Gonzaga). No início dos anos 1920, os santistas iniciaram a construção de uma base aeronaval, incentivada justamente por Virgilius de Lamare (esta base seria inaugurada em outubro de 1922 no Sítio da Conceiçãozinha, na Ilha de Santo Amaro, contando com a presença do então presidente do Brasil, Epitácio Pessoa). Numa das suas vindas à cidade, em 1921, de Lamare resolveu fazer um convite à imprensa, desejando repetir o que fizera no Rio de Janeiro alguns anos antes, quando sobrevoou a capital brasileira junto com o fotógrafo do jornal A Noite, e com outros profissionais de comunicação em diversos voos ao longo dos anos seguintes. Foi então que a recém-criada revista Flamma, ciente da proposta do capitão-tenente, enviou um jovem fotógrafo do seu time, Agnello Santos, para aquela missão pioneira, cujo objetivo era produzir as primeiras imagens aéreas da região. E lá foi o Agnello, com sua folding camera (câmeras dobráveis - que geravam negativos de 4 a 5 centímetros, ideais para a confecção de cartões postais) assumir um lugar no cockpit da aeronave. Primeiras visões aéreasNaquela manhã de domingo, 15 de maio, o tempo estava relativamente bom para voar e de Lamare partiu do lagamar da Alfândega, de onde ganhou altura rumando na direção de Cubatão. De lá, fez meia volta e apontou para os lados dos morros da cidade de Santos. Agnello levara consigo dez filmes para tirar. Era imprescindível não tremer e, ainda mais, apertar o botão no tempo certo. O fotógrafo da Flamma respirou fundo e mirou primeiro para a paisagem do Porto de Santos, a uma altitude de mais de 1.000 metros, de onde era possível ver toda a cidade. O Monte Serrat havia ficado pequeno aos olhos dos viajantes aéreos. O mais impressionante da vista eram os cursos dos rios que cortavam a Ilha Barnabé e parte da Santos continental. Dava pra ver com clareza os rios Diana e Jurubatuba. De Lamare, depois de dar algumas voltas naquele ponto, embicou seu hidroavião na direção da Barra. Ao passar pela linha da orla praiana, Agnello clicou o ponto em duas faces. A primeira para os lados do Itararé, sobrevoando nas proximidades da Ilha Urubuqueçaba. Dali era possível enxergar até a linha superior da Serra do Mar. Depois, voltou sua câmera para o lado oposto, na direção do José Menino e Gonzaga, tomando uma imagem impressionante da cidade. O jovem fotógrafo ainda teve tempo para tirar outras fotografias, mas só três acabariam publicadas na edição de junho da Flamma, causando um verdadeiro reboliço entre os santistas, que puderam ver, pela primeira vez em suas vidas, a terra natal do mesmo ângulo das gaivotas. Sergio Willians é jornalista e pesquisador da história de Santos. Conheça seu trabalho no site [[legacy_image_215019]]