[[legacy_image_284085]] Em abril de 2010, o operador de ponte aposentado Joarez Feitoza dos Santos, de 69 anos, contratou a advogada Mirian Paulet, de Santos, para representá-lo em uma ação trabalhista. Ele ingressou contra a empresa que trabalhava para receber adicional de periculosidade. Nessa época, Joarez nem imaginava a dor de cabeça que uma simples demanda trabalhista pudesse causar. Ele afirma que durante anos procurou a advogada para saber como estava o processo, mas nunca tinha uma resposta concreta. Até que, no final de 2022, descobriu que a ação já tinha sido finalizada de forma favorável ao pedido dele, conta. Porém, diz Joarez, a advogada tinha ficado com seu dinheiro. [[legacy_image_284086]] “Fui até lá (escritório) para mais uma vez saber como estava. Uma advogada que trabalha para ela estranhou e disse ‘o senhor não recebeu ainda?’. Ela me disse para voltar depois de uns dias, para falar com ela (Mirian), mas desde então não consegui mais contato. Ela nunca está lá”, conta. Joarez explica que após fazer uma consulta do processo descobriu que o montante de R\$ 27 mil que ele deveria receber foi pago por etapas entre janeiro de 2020 a maio de 2021. Sendo o maior pagamento, no valor de R\$ 21 mil, pago em 29 de julho de 2020. “Não vi nem a cor do dinheiro”, desabafa. Diversos processosO aposentado resolveu entrar com uma ação contra a advogada pedindo o valor que teria a receber, com juros e correção monetária, além de danos morais. De acordo com as duas novas advogadas contratadas por Joarez, Andressa Fraga e Dilene de Jesus Miranda, o caso dele não é o primeiro que está em andamento. “Não é um caso isolado, não foi uma falha que ela acabou recebendo e esqueceu de repassar, que passou despercebido. Se isso acontecesse com nosso escritório, por exemplo, eu seria a primeira a procurar o cliente para tentar reparar os danos. Mas o que vemos são vários processos” aponta Andressa Fraga. Em uma busca rápida pelo site do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJ-SP) a Reportagem constatou cerca de 20 processos, em varas cíveis e criminais, abertos contra a Mirian em cidades da Baixada Santista. A maioria em Santos. Não foi possível estimar o valor total que a advogada deve aos clientes, mas é possível que a cifra passe de R\$ 2 milhões. No caso de Joarez, Dilene Miranda explica que a Mirian já apresentou a defesa. “Ela admite que ficou com o dinheiro, mas não justifica o porquê. Ela alega que o valor que ela tem que devolver é menor, porque teve despesas. Até apresentou alguns recibos, mas sem comprovante de pagamentos e cobrando serviços com valores exorbitantes, que não são aplicados no mercado”, frisa Dilene. Com os juros e a correção monetária, o valor que o aposentado tem direito de receber hoje é de R\$ 31 mil. Dinheiro que será usado no sustento da casa. “Vou simplesmente encher a geladeira. Mesmo com a aposentadoria, continuo trabalhando, pois em casa somos em sete e todos dependem de mim”, conta. InvestigaçãoEm nota, a Secretaria Estadual da Segurança Pública (SSP) informou que o caso é investigado como apropriação indébita pelo 4º Distrito Policial de Santos. A autoridade policial informou que já ouviu as vítimas e aguarda a suspeita para realizar sua oitiva. Diligências prosseguem para apurar e esclarecer os fatos. A Reportagem entrou em contato com o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) em Santos, Raphael Meirelles, que informou que o órgão tem conhecimento dos casos e que todos estão sendo apurados pelo Tribunal de Ética e Disciplina OAB e que já existe um pedido de suspensão preventivo da carteira da OAB da advogada investigada. “A OAB declara que todos os procedimentos são apurados com toda a justiça possível, ouvindo todas as partes e luta sempre para ter em seu quadro pessoas íntegras e honestas. E, dependendo da gravidade, ela pode perder a OAB”, afirma. A Reportagem entrou em contato com o Tribunal de Ética da OAB, mas até o fechamento, não teve retorno sobre o caso. Conforme consulta pública realizada nesta terça-feira (25) no Cadastro Nacional dos Advogados, Mirian continua com o registro ativo (veja imagem abaixo). [[legacy_image_284087]] DefesaA Tribuna entrou em contato com Mirian Paulet que, por meio de dois advogados, nega as acusações. Eles explicam que o que aconteceu foi um desacordo comercial, ou seja, os clientes não estavam de acordo com os honorários e valores de serviços cobrados pelo escritório e por isso não houve pagamento, mas que em nenhum momento ela teria usado o dinheiro dos clientes. Quando ao caso do Joarez, a defesa afirma que foi feito um acordo e parte dos valores acordados já foi pago nesta quarta-feira (26). A defesa disse ainda que ela tem sofrido com problemas psicológicos desde que o fato se tornou público e que está à disposição de todos os clientesedajustiça.