Flávio: “Não tenho medo das emoções. Mas as tenho evitado, por causa do meu cinismo, no sentido grego. Há um termo que tem me ajudado: memento mori (lembre-se de que é mortal)” (Matheus Tagé/AT/Arquivo) Certa vez, perguntaram a Pablo Picasso quanto tempo ele havia levado para pintar Guernica. “Essa tela me custou 60 anos” – a idade do pintor então. Se a obra cobra a vida de seu autor, então Flávio Viegas Amoreira, também 60 anos (completados em fevereiro), tem na poesia o seu Guernica. “Me considero aquilo que os alemães chamam de dichter: o poeta que integra o dramaturgo, o escritor, o memorialista (...) Penso como quem escreve e eu escrevo como quem já tinha pensado sobre escrever. Em mim, o poeta é ab ovo (desde o princípio)”. O princípio é a leitura, presente na família de imigrantes portugueses dele e nas famílias com as quais conviveu. “Eu me lembro do Flávio pré-alfabetizado invejando quem lia, quem era alfabetizado”, recorda. Nesse rol, havia os vizinhos da casa na Rua Bolívar, 111, no Boqueirão – onde moravam Flávio, os pais e seus três irmãos. Via os vizinhos em suas salas com livros nas mãos; ou os anônimos que pegavam o bonde e folheavam o jornal, sentados ou não à janelinha, como se dizia então. Assim que começou a decifrar as letras, na biblioteca do Colégio Canadá, que parecia um salão, virou refúgio. Lá, Monteiro Lobato já lhe fazia companhia: dele conheceu a versão para crianças de Dom Quixote. Observando o gosto do filho pela leitura, a família lhe comprou enciclopédias. Fosse Tesouros da Juventude, Conhecer ou Universo, o menino era fascinado pelos verbetes. “Fui um leitor menino da minha internet”. Sim, as enciclopédias eram o Google de então. Tudo conspirava: os vizinhos também eram a cronista de A Tribuna, Lydia Federeci, a quem já admirava. “Aquela senhora que era lida nas ruas, no bonde, nos escritórios, cumprimentava meus pais e tinha uma breve conversa comigo”. Outro vizinho era Augusto, um dos 16 filhos do poeta Vicente Augusto de Carvalho, então já um senhor com seus 80 anos. Entre os 10 e os 15 anos, o adolescente Flávio chegava do Colégio Canadá para ter longas prosas com esse senhor distinto. “Com ele aprendi o valor da poesia e a jogar xadrez”. Foi então que, aos 10 anos, lhe caiu nas mãos, sem que soubesse como, A Metamorfose, de Kafka, em uma edição barata – sem trocadilhos – vendida em banca de jornal. “A figura do inseto morando antropomorficamente num quarto me assustou e me fez escritor”. Cidade contra cidade No fim dos anos 70, Flávio foi indicado para participar do quadro Cidade contra Cidade, do programa Silvio Santos, em que um representante de cada cidade respondia a questões de geografia, cinema, história, literatura. Era Santos contra Maringá. Flávio ficou na reserva. Santos perdeu. Flávio ganhou: aproximou-se da Rádio Clube, que organizara a participação no programa, e começou a colaborar na rádio com a escritora, poetisa, jornalista e radialista Rosinha Mastrângelo – que hoje dá nome ao teatro de arena no Centro de Cultura Patrícia Galvão, em Santos. “Eu observava o modus operandi dela, que já era uma lenda paulista”, recorda. “Uma notícia policial, um caso no bairro, tudo virava crônica. Ela mesma datilografava, catando milho, as histórias”. Flávio crescia e o encanto pela escrita também. Esse caminho era até bem-vindo para a família madeirense “de quatro costados”: o avô materno era comerciante, mas apaixonado por Fred Astaire e pelo cinema; o pai, bancário, depois revisor de jornal, com gosto por Silvio Caldas e Francisco Alves. Sendo ambos leitores, esperavam que o jovem com pendor às letras por elas pavimentasse o caminho para algo, digamos, mais concreto: o Direito, por exemplo. “Um mal que não era deles, mas de uma sociedade feita para ganhar dinheiro, para o comércio, para as coisas chamadas úteis”. O que o libertou do transe e deu força para se desvencilhar desse utilitarismo foi a leitura, mais uma vez. E uma bem específica: o Nietzsche de Assim Falou Zaratustra. “Amo aquele que vive para conhecer! Amo aquele cuja alma se esbanja e não quer poupar-se!”. De Nietzsche retirou a força moral. Dos comércios da família, o sustento. O que importava? Ler e escrever, como ele mesmo diz, “compulsivamente”. Passou também a trabalhar na assessoria de campanhas políticas. Por afinidade, quase sempre para o PDT: Walter de Carvalho e Beto Mansur à Câmara santista, por exemplo. “Não o Beto malufista, de 1992”, faz questão de frisar. Ida e volta A bagagem é o que se leva sob a pele. Flávio estava pronto para viajar. Em 1995, mudou-se para São Paulo. O objetivo: viver a escrita, escrever a vida. Morou no lendário edifício Copan, ministrou oficinas literárias na Casa das Rosas, deu consultoria literária a grupos de teatro. Eram noites de literatura na Praça Roosevelt, lendo poemas com Plínio Marcos e Roberto Piva. Ou espreitando o cineasta Werner Herzog pelos corredores do Masp. Ou, ainda, esbarrando no ator Roger Moore, na missão de querer passar despercebido na feira de antiguidades da Benedicto Calixto. “Fui discreto, mas o abordei”. O ex-007 estava na Capital para gravar um comercial de carro. “Concordamos que São Paulo é a mais bela cidade feia do mundo”. Mas o mar chama: arde no peito. Após cinco anos, Flávio voltou para Santos. Teve o primeiro, de 17 livros, publicado: Maralto (Editora 7 Letras, 2002). Logo depois, teve o reconhecimento da obra na antologia Geração Zero Zero: Fricções em Rede, organizada pelo escritor Nelson de Oliveira, como um dos nomes de maior destaque dessa geração da literatura brasileira. Um pouco antes, engataria uma amizade assentada em uma “voracidade cultural obsessiva”: com o maestro Gilberto Mendes. Começou quando uma amiga em comum, Beatriz Arnaldo, a pneumologista de Mendes, que sofria de asma severa, deu ao paciente o livro de Flávio. “Ele foi um pai espiritual para mim”. Esse pai adaptou poemas de Flávio a sinfonias e cantos, em 15 anos de convivência diária. As portas vão se abrindo. Certo dia, na Vila Madalena, em São Paulo, Mendes apresentou Flávio a outra órbita artística: o ator Antônio Abujamra. “Foi amor à primeira vista entre loucos de arte”. Afetividade e estética Um esteta que se doa à beleza, assim se define Flávio. É também onde deposita a sua emoção. Lágrimas? “Sou de chorar pouco”. Apenas para Rachmaninoff (Sergei, compositor e maestro russo) ou Morte em Veneza, filme do italiano Luchino Visconti. Nem mesmo a casa da Rua Bolívar, onde morou por 50 anos, ao ser recentemente posta abaixo para virar um prédio, o faz chorar. “Não foi nada dramático, era até necessário pela verticalização”. Mesmo assim, nunca mais voltou à rua depois que a casa tombou. Não é contradição, mas ambiguidade. “Embora não seja emotivo, sou um ser de paixão”. No caso, não a paixão carnal, que afirma ter superado, mas a da criação, sua obsessão: tanta rima, uma ansiedade. “Sou um ansioso por natureza”, confessa. Toma remédios. Na palavra que projeta, Flávio é um caleidoscópio. Hoje, é o curador da Casa das Culturas de Santos, onde mantém suas oficinas literárias e cuida da programação. Seu desejo é que essa seja o piloto de uma “casa das culturas em cada bairro”. “A experiência humana é uma experiência artística. Eu faço da minha vida, ou tento fazer, uma obra de arte”.