(Alexsander Ferraz/AT) Preocupação com a segurança das vacinas, desinformação, crenças pessoais, desconfiança nas autoridades de saúde, ineficiência no período de abertura das salas de vacinação e influência de movimentos antivacina. São alguns dos principais fatores que afastam os pais de crianças pequenas do calendário de vacinação e podem explicar por que algumas patologias que já estavam erradicadas do País reaparecem. Essas conclusões fazem parte de estudo, conduzido pela professora universitária Dalva Mendes, na tese de doutorado em Saúde Coletiva que defendeu no programa de pós-graduação na Universidade Católica de Santos (UniSantos). Intitulado Hesitação Vacinal na Região Metropolitana da Baixada Santista e sua Influência na Vacinação de Crianças de até 2 Anos de Idade, desenvolvido em campo de novembro de 2020 a abril de 2022, ouviu 831 famílias com crianças nascidas a partir de 2018 nas nove cidades da região. A intenção era entender e medir o grau de hesitação que acompanha os pais mesmo quando levam filhos pequenos para tomar as vacinas disponíveis na rede pública. “Todos os ouvidos demonstraram dúvidas, desconfiança ou preocupação”, relata Dalva. “E, se essa situação existe, há um poder de influenciar outros pais, contribuindo para desestimular a vacinação de seus filhos.” Argumentos Dalva destacou os principais argumentos dos pais: 94% disseram se preocupar com efeitos colaterais das vacinas, e 32,3% alegaram que o filho não precisa de vacina para doenças que não são mais comuns. Algumas falas também chamaram a atenção da pesquisadora: “Se as vacinas fossem tão importantes, não seriam apenas aplicadas nos horários em que estou trabalhando” ou “pedi licença no trabalho para vacinar meu filho porque a avó que toma conta dele não pode ir, mas encontrei a sala fechada”, e “pedi informação para a enfermeira sobre a eficiência da vacina e ela foi mal-educada comigo, ou seja, não sabia era nada”. Entre os 831 pais ou responsáveis ouvidos, a vacinação das crianças tinha sido feita apesar da desconfiança e das dúvidas em relação à eficiência e à segurança, o que reforça o argumento da pesquisadora de que exigir o calendário em dia em creches e escolas deve continuar sendo a regra. Em outras palavras: mesmo em dúvida ou com desconfiança, os pais as acabam levando para não perder a vaga em creche. “O direito da criança deve ser maior que a opinião de pai e mãe”, diz. Soluções O estudo pode ser útil para apontar caminhos a serem adotados pelas autoridades para garantir um grau de imunização alto. Como exemplo, cita a BCG, que previne contra as formas graves da tuberculose (meníngea e miliar) e é aplicada, preferencialmente, em recém-nascidos. “Deveria sempre ser aplicada já na maternidade, porque, se manda para casa e pede para levar na UBS, já perde o controle”, diz. Dalva Mendes também aponta a necessidade de capacitar as equipes de saúde que atuam nas salas de vacinação: “Todos precisam ter informações completas sobre os benefícios das vacinas para passar aos pais que questionarem”. E mais: “Empregadores também precisam estar sensibilizados, liberar os pais para levar os filhos, sem restrição de horário”, explica, já que muitas famílias relataram a dificuldade em sair mais cedo para levar a criança ao posto. “A vacinação é um compromisso de toda a sociedade. Não podemos arriscar ou fazer roleta-russa com doenças que já estavam erradicadas, como a pólio”