[[legacy_image_144853]] A pandemia está no seu terço final, mas os desafios até o término chegar demandarão muito esforço. É o que pensa o vice-presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), o médico Alexandre Naime Barbosa. No cargo desde o início de janeiro, o infectologista ainda é professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e acredita que a maior lição ensinada pela covid-19 é a importância da educação para combater não só futuras doenças, mas também as fake news. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Qual tem sido a importância das vacinas contra a covid-19?O Brasil, depois de uma demora, depois de um atraso imperdoável, principalmente a partir de abril e maio de 2021, entrou num ritmo de vacinação adequado. Com dias em que nós tivemos mais de um milhão de doses aplicadas, hoje uma parcela bastante significativa da população adulta brasileira, entre 70 e 80%, já tem as duas doses. Isso é bastante heterogêneo: há diferentes situações pelo Brasil, devido a questões, principalmente, de gestão política. Por exemplo, na cidade onde eu estou (Botucatu, no Interior Paulista), 70% da população adulta já tem a dose de reforço, o que obviamente faz com que nós tenhamos um cenário muito favorável do ponto de vista de impacto em saúde pública. Há mais de dois meses que nós não registramos óbitos e o número de pacientes internados também é muito pequeno, apesar da onda de casos novos por conta da variante Ômicron, que é mais transmissível. O País estaria numa situação muito pior caso as vacinas não tivessem sido desenvolvidas?A vacina vem no sentido justamente de atenuar, de deixar a covid mais branda e impedir internações e óbitos. Ou seja, se nós tivéssemos utilizado as ferramentas de aquisição e de distribuição das vacinas logo nos primeiros meses de 2021, em torno de 200 a 300 mil vidas teriam sido salvas. Sem a vacinação, num cenário em que ela não tivesse avançado, nós teríamos ultrapassado a marca de 1 milhão de óbitos facilmente no Brasil. Onde o senhor acha que o Brasil acertou e onde errou no combate à pandemia?Em relação especificamente à vacinação, o maior erro foi ter começado muito tarde. Era pra ter iniciado logo nos primeiros dias do ano, e numa velocidade muito mais rápida do que foi. Ela começou em janeiro do ano passado, mas de forma tímida e graças a uma iniciativa do Governo de São Paulo. Na verdade, deveria ter ocorrido um esforço para que isso fosse muito mais rápido. E isso, infelizmente, ocorreu no pior momento possível. Onde acertou? No fato de, depois de muito tempo e de muita pressão da mídia e do público, a vacinação passar a alcançar muita gente, por conta da capacidade do SUS. Conseguimos vacinar mais de um milhão de pessoas por dia. Isso diminuiu absurdamente as taxas de internação e de óbitos. Se você comparar o mês de dezembro de 2021 com o pico da pandemia, em maio ou junho do mesmo ano, há uma redução de 90%. É possível falar em fim ou controle da pandemia?É completamente utópico e irreal, é um exercício de futurologia tentar dizer quando vai ser o fim da pandemia. Nós temos muitas coisas que podem influir positivamente ou negativamente. Negativamente, você pode ter o surgimento de novas variantes, você pode continuar com esse comportamento da população excessivamente despreocupada em relação a medidas de prevenção, a baixa taxa de vacinação em alguns em alguns locais. Isso favorece a continuação do vírus. Ainda vamos ter pico de casos, e, daqui umas duas ou três semanas, vai cair. Mas isso é uma previsão a curto ou médio prazo. A longo prazo é impossível dizer. Sobre o surgimento de novas variantes, há uma possibilidade muito concreta de isso acontecer?O comportamento da população favorece cada vez mais. Não tenho dúvida. Existe alguma maneira de saber até quando teremos de ser vacinados contra a covid ou isso é uma dúvida ainda maior do que o fim da pandemia?Eu posso te dizer que nós estamos no terço final da pandemia. Nós já passamos pelo pior e agora, cada vez mais, a gente vai conseguir coabitar com o vírus da covid. Ele vai ficar circulando. A gente já teve um impacto maior dele, com mais óbitos. E é provável que até o final do ano isso vá decaindo ainda mais e a gente aprenda a conviver melhor com ele. Não necessariamente ele vai precisar ser extinto, mas terá menor impacto. Agora, em relação à vacinação, isso é completamente desconhecido. Depende das respostas imunológicas de cada indivíduo, depende da circulação de variantes que podem ou não influenciar na vacinação. Então, essa é uma pergunta completamente em aberto. Qual a grande lição que a Ciência tirará da pandemia?A maior lição que fica dessa pandemia é que nós devemos educar a população em relação aos preceitos científicos. A maior parte dos problemas que nós tivemos não foi causada pelo vírus, mas sim pelo desconhecimento básico da população. Devemos trabalhar para que as crianças, desde cedo, já tenham noções primordiais de como funcionam os métodos científicos, para não acreditarem nas fake news. Informações verídicas não prejudicarão mais o combate a doenças no futuro.