Ademar Couto é headhunter — aquele que busca os melhores profissionais no mercado — e um dos maiores especialistas em carreiras do mundo. Também é CEO e sócio fundador da Odgers Berndtson Brasil. Fez mais de 200 pesquisas de nível sênior para grupos empresariais importantes, nos segmentos financeiro, esportivo, agrícola, varejo e industrial. Em entrevista para A Tribuna, Couto disse como o uso da Inteligência Artificial vem mudando o mercado de trabalho, do momento das contratações ao dia a dia dentro das empresas. Como funciona o trabalho de caçador de talentos? O mercado está superaquecido. O nosso negócio já existe há mais de 100 anos, e a nossa empresa é global e tem mais de 60 anos, está em 30 países, com mais de 350 sócios. Eu sou o CEO no Brasil, e nós estamos aqui há 22 anos. E como funciona o nosso negócio? A gente é contratado por uma empresa para buscar o executivo ideal para ela, que entenda a cultura dela e tenha capacidade técnica para poder atender às necessidades da empresa. Basicamente, esse é o nosso papel. Encontrar a pessoa certa para o lugar certo. Normalmente, não fazemos posições de volume, como contratar 20 pessoas para um banco, não é o nosso foco. Nós cuidamos mais da área de executivos. O que as empresas têm apreciado em um profissional atualmente? O que elas têm buscado? Eu acho que as empresas, hoje, mais do que a capacitação técnica, estão buscando a cultura que se assemelha com a cultura da empresa, ou seja, estão buscando pessoas que se identifiquem com os valores que a empresa tem. Isso é muito importante, porque a gente percebe que 70% das demissões são feitas por causa de falta de conhecimento da cultura da empresa. Isso não é uma capacidade técnica. Se você não sabe uma língua ou se você não sabe usar um software específico, simplesmente você vai fazer um curso e consegue se aprimorar. Já o que chamados de soft skills, que são valores, cultura e ética, isso não se aprende: ou você tem ou não tem. Então, acho que as empresas estão buscando pessoas que se assemelhem com as características da empresa. Esse tem sido o principal desafio na hora de achar um profissional. É a parte mais difícil, pois durante uma entrevista ela vai manter escondidas as não qualidades dela e vai mostrar só o que é bom. Hoje, a gente tem instrumentos para checar, como as redes sociais, por exemplo. Hoje, de que precisa uma pessoa que quer construir uma carreira sólida no mercado de trabalho? Primeiro, se capacitar tecnicamente, estudar bastante, se aprofundar, escolher qual setor ela quer e focar realmente em aprender tudo que ela puder. Depois, ela deveria se aproximar das pessoas certas, estar nos lugares certos, frequentar um ambiente que ela quer atingir. Se ela quer, por exemplo, ser uma pessoa de tecnologia, então ela tem que frequentar os fóruns de tecnologia, os eventos. Se quer ser na área financeira, ela tem que estar próxima do mercado financeiro, tem que frequentar os eventos. Ou seja, é frequentar um ambiente e estar próximo das pessoas que fazem parte do ambiente de que ela quer fazer parte. Qual é o principal erro do profissional hoje em dia? Achar que um bom salário vai ser suficiente para mantê-lo no cargo. Ele precisa entender que o que vai determinar isso e fazer que ele realmente progrida na carreira é ele estar alinhado com a empresa, gostar dos produtos que a empresa vende, realmente ter prazer em fazer o que faz. Ele, simplesmente, ir para uma posição porque ele está ganhando um pouquinho a mais ou muito a mais do que a outra não vai ser duradouro e consistente. Se ele não tiver tudo isso, ele vai ficar uns dois anos e vai ser mandado embora ou ele próprio vai querer sair. Então, é muito importante que ele tenha um foco no longo prazo, e não em curto prazo. A gente vê que, nos últimos anos, o mercado de trabalho mudou muito. Quais são as tendências hoje em dia? Acredito que seja a automação. São muitas novas tecnologias, até no meu próprio setor, o LinkedIn (plataforma de mídia social direcionada a negócios e empregos) veio, no início, falando que a gente ia simplesmente quebrar, pois ninguém mais precisava de headhunters, mas não é verdade. Por exemplo, uma empresa tinha 60 mil currículos encalhados. Por quê? Porque eles recebiam currículos e não tinha gente para ler tudo. Então, nós fomos contratados. A gente tem um mecanismo que consegue avaliar os currículos para a Inteligência Artificial, e fomos contratados para selecionar por competências. Seriam 100 melhores currículos daqueles 60 mil. Demoraria dois anos para a empresa fazer o que a gente fez em uma semana, ou seja, a tecnologia tem ajudado muito, inclusive em entrevistas que hoje eu faço por vídeo. Acredita que o avanço da tecnologia vai ‘tomar’ a vagas de alguns profissionais? O mercado está mudando muito. As tendências têm sido muito mais para esse lado da tecnologia. Então, a gente tem visto diversos grupos que estão utilizando tecnologia, e as pessoas se assustam, pensando que vão ser demitidas, mas, às vezes, não. Elas podem ser realocadas, provavelmente. Elas não vão conseguir fazer aquilo que estão fazendo, porque a tecnologia vai fazer e, aí, elas vão ter que encontrar um novo caminho, mas sempre vai ter espaço para o ser humano. Eu acredito que, mesmo com a IA, vai ter espaço para as pessoas bem qualificadas, que tenham uma formação ética, de valores. Essas pessoas sempre vão ter lugar no mercado de trabalho. Eu não acredito que a tecnologia vai tomar o lugar de pessoas competentes. Ela vai tomar lugar, provavelmente, de ocupações que fazem repetições, ou seja, ela vai servir como uma forma de acelerar o processo. Então, não acredito que as pessoas vão ser substituídas, mas elas precisam estar sempre se atualizando e olhando para onde o mercado está indo. Se você ficar acomodado e esperando, a onda vai te atropelar. Acredita que a Inteligência Artificial é o futuro do mercado de trabalho? Eu acho que é um caminho sem volta, é o futuro do mercado de trabalho, sim. Com a IA, você não vai demitir a pessoa, mas, provavelmente, você vai tirar 70% do que ela está trabalhando em tarefas repetitivas, e ela vai ter 30% só. Então, ela vai estar muito mais focada para gerar a receita, para focar em coisas para gerar novos negócios. Você vai abrir a capacidade da pessoa de ter mais tempo para fazer coisas úteis e não repetitivas. Então, você não precisa demitir a pessoa, mas você vai transformá-la em um potencial, pois ela vai poder pensar em novos projetos. A gente tem a Inteligência Artificial no escritório para fazer os relatórios, por exemplo. Antigamente, eu passava fazendo um relatório por três horas. Eu entrevistava uma pessoa, aí depois eu escrevia todas as notas, em seguida eu sentava no computador e reescrevia tudo, depois tinha que editar. Hoje eu gravo, depois pego esse arquivo, coloco no meu computador e a própria IA faz todo o relatório para mim em 30 minutos. Eu só tenho que olhar e corrigir os erros, mas isso facilita muito. A gente tem que aprender, esteja com a idade que for. Quando estávamos nos anos 2000, tinha gente que falava que a internet não vai vingar, que não ia usar porque não ia dar certo. Hoje, não pode falar isso, pois, se não quiser acompanhar, você está fadando a morrer, pois teu filho vai falar alguma coisa e você não vai entender, e você vai ficar isolado. Hoje em dia, por exemplo, saber usar o ChatGPT é uma obrigação. Se a pessoa não tiver conhecimento, não souber usar, ela está saindo do mundo e ficando fora do que vai acontecendo nos próximos dois anos e, aí, pode ser substituída.