[[legacy_image_356989]] Santos, domingo, 28 de maio de 1854. Um rapaz franzino caminhava descalço, quase na hora do almoço, todo fantasiado, pelas ruas de terra batida da velha vila santista. Envergando um surrado chapéu de palha grosseira quebrado na testa, lenço ao pescoço e faca de ponta num cinturão de couro, o garoto, de 14 anos, chegava enfim ao local pretendido, no Largo do Carmo, diante da antiga cadeia. Ali, sem que ninguém esperasse, passou a declamar doces rimas poéticas, ao sabor da inspiração. O inusitado fato, algum tempo depois, se tornou hábito para o jovem Joaquim e, ouvi-lo, tornou-se uma tradição ao povo local, em especial aos empregados das casas comerciais que se dispunham numa sequência pouco organizada ao longo das ruas Meridional e Setentrional, abrigo das primeiras vendas e mercados da cidade santense. O jovem poeta cresceu e acabaria se tornando um dos empregados daquelas casas de comércio, um caixeiro, como eram chamados os que labutavam nesta seara profissional tão sofrida e humilde. O garoto, de nome Joaquim Xavier da Silveira, destacava-se entre seus pares, não apenas pela forma como se dedicava ao labor diário no comércio, como também pela incrível capacidade de improvisar versos plangentes, apesar da tenra idade. O povo santista percebeu que, além de exímio poeta das ruas, o menino detinha o dom da oratória. Era, portanto, um desperdício que tamanha capacidade humana não pudesse lapidar-se em bancos acadêmicos. O impeditivo eram suas condições financeiras. E foi este o gatilho que despertou dentre seus colegas de trabalho a ideia de ajudar o moço a tornar-se um bacharel em leis. Assim, de casa em casa comercial, os caixeiros se cotizaram na tarefa de levantar fundos para matriculá-lo e garantir o pagamento de sua mensalidade e moradia na Capital, onde ingressaria na prestigiosa Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! E assim se deu. Joaquim Xavier da Silveira, emocionado diante do sincero gesto dos colegas, aceitou de bom grado a oferta. E entendeu que tal sacrifício fora determinante para que ele mesmo aceitasse o desígnio de seu destino. Tanto que, ao fim do terceiro mês de curso, a mesada começou a encurtar em razão das dificuldades encontradas por alguns prestamistas. O jovem poeta santista, compreendendo a situação, sempre grato pelo altruísmo dos amigos, dispensou delicadamente o generoso concurso pecuniário e, fora das horas de aulas, encarregou-se da escrita junto a algumas pequenas casas comerciais paulistanas. Mas os proventos que auferia a partir dali, entretanto, ainda lhe eram bastante exíguos. Então, mais tarde, com muito esforço, conquistou um emprego como auxiliar do escritório de advocacia de um velho causídico da Capital, conhecido como Doutor Falcão. E naquele escritório se manteve até o fim do curso acadêmico, em 1865, quando “nascia” o advogado Joaquim Xavier da Silveira, poeta e fogoso tribuno santista, a quem sua terra natal identificou-se por alguns anos. Silveira foi um advogado querido e um tribuno respeitadíssimo, orgulho da terra santense e de seus ex-companheiros da classe caixeiral. O poeta tornou-se também um aguerrido defensor da causa libertária, defendendo com afinco o fim da escravidão no Brasil, tanto quanto outros inúmeros concidadãos. Um dia, porém, ainda vivendo sob o aroma leve da flor da idade, aos 34 anos, Xavier da Silveira foi acometido pela temível varíola, doença cruel que dizimava a cidade santista na segunda metade do século 19, junto a tantas outras pestes epidêmicas. Lutou bravamente pela vida, mas acabou sobrepujado pela praga inclemente e veio a falecer no dia 3 de agosto de 1874. A notícia de seu desaparecimento provocou um choque na cidade, principalmente entre suas dezenas de amigos. Santos viveu um luto que há muito não se via. Um clube em homenagem a XavierCinco anos depois, no mês de março de 1879, alguns jovens santistas uniram-se para a criação de um clube literário, em deferência a Xavier da Silveira. Tal associação passou a promover palestras literárias e solenidades memorativas pela cidade. Em uma das festas realizadas, por exemplo, no Teatro Rink (que ficava na atual Avenida São Francisco, em terreno hoje ocupado pela Sabesp), no dia 2 de setembro daquele ano, aniversário da Lei do Ventre Livre, o grêmio promoveu a entrega de nove cartas de alforria (liberdade), assinalando a mais perfeita confraternidade de ideias que ligava o clube de cultura à memória de Joaquim Xavier da Silveira. Humanitária e monumentoA figura de Xavier da Silveira continuou inspirando outros jovens santistas a construir caminhos de solidariedade, altruísmo e cultura. Do grêmio literário surgiu a ideia de criar uma Sociedade Humanitária para abrigar os anseios e necessidades da classe caixeiral (os empregados no comércio de Santos). Esta sociedade que se tornaria a primeira do Brasil de colaboração mútua. O ideário de Silveira estava mais vivo do que nunca. A Humanitária se colocaria como um modelo exemplar de difusão de cultura e educação, além de ser um porto seguro em termos de saúde e assistência social. E foi assim por décadas. A figura de Xavier da Silveira transcedeu o tempo e já no século 20 se manteve presente de tal forma que o segundo monumento da história santista foi erguido sob sua memória, esculpido pelo mesmo artista que inaugurara a estátua de Braz Cubas, o italiano Lorenzo Massa. A herma, que hoje está na Praça Nenê Ferreira Martins, no Gonzaga, foi inaugurada em janeiro de 1914, no centro da Praça Ruy Barbosa. Em 1921, foi transferida para a Praça Mauá; em 1927 para a Praça Fernandes Pacheco e na década de 1960 mudou-se para o ponto atual. A imagem e os ideais de Xavier da Silveira, em 2024, foram a linha inicial do livro A História da Sociedade Humanitária dos Empregados no Comércio de Santos, que será lançado no próximo dia 28, em referência ao rapaz franzino que, em 1854, fez história na cidade santista.