[[legacy_image_344139]] Nunca o jornalismo profissional foi tão necessário contra a desinformação, e veículos de comunicação confiáveis ganham importância nessa tarefa. É o caso de A Tribuna, que chega aos 130 anos “com muito esforço, principalmente, trabalhando junto da comunidade”. São considerações do presidente-executivo da Associação Nacional de Jornais (ANJ), Marcelo Rech, que esteve nesta quinta-feira (21), no Grupo Tribuna, para a reunião ordinária da ANJ. A seguir, trechos da entrevista. O que significa A Tribuna atingir 130 anos? Primeiro, é uma honra muito grande estar neste momento histórico, não só para Santos, não só para a Baixada, não só para São Paulo, mas para o Brasil. Eu diria, mais que isso, para o jornalismo mundial. Qualquer empresa que chega a 130 anos não chega por acaso. Chega com muito esforço, principalmente, trabalhando junto da comunidade para conquistar o que eu chamo de um grande atributo, que é a confiança. Como o sr. entende o compromisso do jornalismo profissional contra a disseminação de falsas notícias?Nunca (como agora) foi tão importante ter jornalismo profissional, ter informação de qualidade, informação precisa. Eu costumo dizer que o jornalismo não está no ramo do erro. Não é que nós acertemos sempre. Infelizmente, acontecem erros de informação que são corrigidos. Nós buscamos a precisão e o acerto e fazemos disso a nossa atividade. E, cada vez mais o mundo, a humanidade precisa do acerto, precisa de um consenso sobre os fatos. A pluralidade de ideias é extremamente positiva e saudável, mas os fatos, pelo menos os fatos objetivos, eles têm que ter um consenso, eles aconteceram; um acidente aconteceu. Pode, até, se divergir sobre as causas daquele acidente, mas o acidente, a tragédia ocorreu. E o jornalismo faz esse papel: ele retrata a realidade de uma maneira objetiva, de uma maneira técnica, com princípios, com valores éticos. E é isso que a humanidade, que o mundo precisa cada vez mais. A gente tem o mundo digital e as notícias falsas circulando ou as pessoas fazendo papel de repórter. Hoje, por exemplo, a gente pesquisa em jornais para saber o que aconteceu e servir como referência. No futuro, como isso também acontecerá, diante de tantos meios que facilitam a publicação de informações verdadeiras ou não? De fato, nós vivemos uma hiperoferta de conteúdos informativos ou até mesmo desinformativos, e de serviços relacionados à própria informação. Então, para se distinguir, você precisa ter isso que A Tribuna tem, por exemplo: 130 anos de história. Tem que ter credibilidade, confiança, respeito conquistado ao longo de gerações. Isso não acontece da noite para o dia. São um pouco parecidas a atividade de comunicação e a medicina. Hoje, qualquer pessoa vai na frente do computador, no celular, acessa e, se pesquisar bem, pode até tentar fazer um diagnóstico, só que não é recomendável. Tem que procurar um médico, um especialista e, até, um centro médico, se for o caso. É a mesma coisa com a informação. A pessoa pode até produzir conteúdos, botar uma foto na rede social etc., mas isso não é jornalismo. Para ter informação correta, abalizada, equilibrada, pesquisada, apurada, verificada, checada, é preciso recorrer aos especialistas: são os veículos de comunicação, os jornalistas profissionais, que podem dar uma informação correta, independente e que não vai produzir dano para a sociedade ou a pessoa. Como o sr. enxerga o jornalismo em relação à inteligência artificial e às novas ferramentas que estão surgindo? A inteligência artificial tem duas grandes vertentes. De um lado, ela é uma grande oportunidade, do ponto de vista de aprimorar, qualificar a busca de informação e a difusão de informação. Em contrapartida, o que nós estamos vendo hoje nos deixa muito preocupados em relação aos chamados direitos de autor e, sobretudo, à precisão das informações. Quando a gente faz uma pergunta a um modelo de inteligência artificial, com frequência, vem uma informação absolutamente estapafúrdia, completamente equivocada, errada. Então, é um perigo muito grande confiar, hoje, na resposta da inteligência artificial. Talvez daqui a dez, 15 anos possa ser diferente. Mas é muito perigoso, porque pode ter uma informação completamente disparatada, que pode inclusive trazer um risco de dano pessoal, seja do ponto de vista de saúde, seja econômico, para uma pessoa, para uma organização. E de outro lado, a inteligência artificial está utilizando, em parte, conteúdos jornalísticos e não está havendo nenhuma compensação por uso de direito de autor, que tem autoria, obviamente, intelectual, tem trabalho, tem esforço, tem suor por trás desse trabalho. Então, esse é um aspecto que nos preocupa muito. Nos Estados Unidos, na Europa, essa questão está mais avançada, no sentido de fazer a valorização de quem produz informação profissional. Quanto à importância do jornalismo regional, como o sr. entende o papel do jornal impresso na difusão de notícias? O jornalismo regional, o jornalismo local e, até, o jornalismo da cidade, do bairro, são insubstituíveis. Hoje, você consegue, rápida e facilmente, obter informações em incontáveis fontes sobre a guerra no Oriente Médio ou na Ucrânia, ou uma decisão do Banco Central americano. Mas a cobertura da Baixada Santista, a cobertura de Santos, qualificada, aprofundada e especializada, você não encontra em qualquer lugar. Você tem que buscar uma fonte confiável, que tenha história, que tenha lastro, para tratar desse assunto. E que tenha, obviamente, um olhar que entenda quais são as necessidades desse público. O jornalismo regional é insubstituível. Não há nenhuma outra alternativa para isso. E a informação mais relevante nas nossas vidas é a informação local. É ela que muda, de fato, o nosso dia a dia. Claro que a informação internacional, a nacional e a estadual têm a sua relevância, mas o nosso dia a dia é construído nas cidades, é construído na nossa vizinhança, no nosso entorno. Portanto, eu acho que o futuro do jornalismo está cada vez mais numa especialização e, nesse sentido, o jornalismo regional e local é também uma especialização, portanto, com muito futuro. O jornal não está na atividade de imprimir jornais. O jornal está na atividade de produzir informações que interessem à comunidade da forma que for mais conveniente para a sociedade. Pode ser uma informação rápida na fila do elevador, no celular ou um caderno especial aprofundado em que ele (público) possa se deleitar, digamos, com uma leitura boa, profunda, durante a noite ou fim de semana. Então, esse é o nosso compromisso. O foco está no leitor, e a essência do jornalismo é essa. Sem dúvida. A mesma pessoa que, às vezes, leu uma reportagem de três, quatro páginas, duas horas depois, ela vai ler umas duas, três frases na fila do elevador. Porque a necessidade daquele momento de tédio, digamos, em que ela está à espera de alguma coisa, na fila de um banco, na fila do elevador, no aeroporto, ela vai ter uma leitura rápida. Às vezes, em alguns parágrafos, mas ela pode também, já sentado no avião, num ônibus, já ter uma leitura de várias e várias páginas em outro formato, seja ele impresso, seja ele digital. Então, entender essa necessidade de leitura, estarmos disponíveis da melhor forma possível na linguagem mais adequada, no momento mais adequado para os usuários, é uma das nossas responsabilidades. Na pandemia (de covid-19), as empresas de jornalismo profissional fizeram um trabalho que ajudou a não divulgar coisas ruins e estimular boas informações. Acha que isso também foi importante para a tomada de consciência do peso do jornalismo profissional? O projeto Comprova, que surgiu com uma aliança entre dezenas e dezenas de veículos concorrentes, ainda tem um impacto muito grande, porque também ocorreu nas eleições. A gente sabe que uma desinformação anda oito vezes mais rápido do que a correção daquela desinformação. Porque o ser humano, naturalmente, costuma compartilhar aquilo que lhe causa mais indignação, mais revolta. Então, é preciso corrigir com mais abrangência e mais velocidade uma informação que está circulando de forma completamente absurda, com enormes prejuízos em potencial para as pessoas e a sociedade.