[[legacy_image_260590]] Na semana em que um dos assuntos mais debatidos foi o embate entre Governo Federal e Twitter sobre a remoção de conteúdos considerados inadequados por incitarem a violência e o discurso de ódio, A Tribuna conversou com a presidente do Instituto Palavra Aberta, criado em 2010 e que tem como um dos pilares a expansão do conhecimento sobre como consumir informação, como diferenciar liberdade de expressão de apologia ao crime, como evitar a propagação de notícias falsas ou desvirtuadas, e o papel de cada um nesse processo. “Hoje, todas as nossas relações são mediadas por tela, por tecnologia. O acesso à informação precisa vir junto com a educação midiática, para que as crianças saibam identificar conteúdos, saber se colocar nesse mundo tão conectado”, diz Patrícia. No site do instituto (www.palavraaberta.org.br), há muito mais material sobre o tema, para todos os segmentos da sociedade. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Quais são as principais bandeiras do Instituto Palavra Aberta? O instituto nasceu em 2010 como uma organização para defesa da liberdade de expressão, do acesso à informação. Nos primeiros anos, me incomodava a falta de percepção da sociedade sobre a importância de estudarmos a liberdade de expressão pós-Constituição de 1988, pós-advento das tecnologias. Havia a necessidade de ensinarmos às novas gerações e toda a sociedade a utilizar melhor esse direito fundamental que é a liberdade de expressão. Temos visto crescerem as plataformas, as redes sociais e todo esse universo que faz com que tenhamos muitos avanços no acesso à informação, mas inúmeros desafios também. Liberdade de expressão não é escudo de proteção para a prática de discursos de ódio, intolerância. Nesse processo de busca por entender melhor esse universo, me deparei com a educação midiática, que tem discutido muito essas questões, incluindo a análise crítica da mídia e de que forma o cidadão, a partir do momento em que aprende a ler e dominar melhor as tecnologias, exerce plenamente seu direto à liberdade de expressão. O Palavra Aberta lançou o EducaMídia. Que ferramenta é essa? O primeiro grande objetivo do programa é disseminar o conceito de educação midiática e consolidar o termo. Naquele momento, tínhamos diversos termos: educomunicação, alfabetização midiática, letramento midiático. Cada grupo chamava de uma forma. Conversando com o Ministério da Educação e outros segmentos, entendemos que era hora de unificar tudo em um mesmo termo: educação midiática. Quando lançamos o EducaMídia já havia espaço dentro da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) para tratar desse tema. Mas precisava estender essa compreensão capacitando os professores, não? Exatamente, e esse passou a ser o segundo desafio. Formar professores para fazer com que o entendimento do termo educação midiática chegasse à escola por meio dos professores. Então, começamos a formação com um curso EaD que mostra onde é possível encaixar a educação midiática no currículo escolar. Já certificamos mais de 25 mil professores. Temos, hoje, multiplicadores formados no Brasil inteiro, e atualmente mais mil alunos sendo formados. É um curso bem completo, que oferece uma noção bem completa sobre a educação midiática. Trabalhamos, agora, para que o próprio MEC estabeleça uma política de formação a partir dessa nossa experiência. A Base Nacional Comum Curricular já prevê espaços para tratar do tema? Sim, já existe, o que falta é formar o professor para que saiba falar sobre isso com seus alunos. O Brasil tem uma posição privilegiada em relação a outros países, inclusive. Como assim? Nos Estados Unidos, por exemplo, não existe uma política nacional com espaço para esse debate. A BNCC tem espaço, como em Cultura Digital, que permite ao professor falar sobre cultura midiática. No Estado de São Paulo, tem a disciplina de Tecnologia e Inovação. O que falta é mesmo o professor estar capacitado para isso. Em função dos ataques em escolas, esta semana houve um embate entre Governo Federal e algumas plataformas, como Twitter, para remoção de conteúdos que fazem apologia ao ódio e aos crimes. Qual o limite entre conteúdo inapropriado e liberdade de expressão? Essa é a pergunta mais difícil de responder. O problema, de novo, é o baixo letramento informacional da população, mais a possibilidade de você expor suas opiniões. A liberdade de expressão não pode ser usada para incentivo de crime, como escudo de proteção para discurso de ódio. A dificuldade que se tem hoje é saber o que é um discurso de ódio. Você dizer que gostaria de se filiar a este ou aquele partido, independentemente de qual seja, pode ser apenas a sua opinião. Você dizer que este ou aquele grupo tem que ser eliminado, isso é discurso de ódio. A dificuldade, hoje, é que está tudo junto e misturado em posts nas redes sociais, com nuances que, às vezes, não conseguimos separar. Neste momento de ânimos exaltados e sem essa consciência bem clara, a preocupação é criar espaços de censura, de proibição de determinadas falas. Você acha que esse debate está suficientemente maduro para que se estabeleçam regras de remoção de conteúdo? Para algumas questões, sim. Por exemplo, nesse caso da violência nas escolas, acho que chegamos em um nível de maturidade, sim, sobre o que é violência ou não. E no campo da política? Então, levar essa questão para o ângulo da polarização política, sobre o que é discurso democrático ou antidemocrático, incitação à violência, acho que não estamos maduros, não. Saímos de uma eleição muito polarizados. Ainda precisamos amadurecer para entender, por exemplo, se quando alguém fala que não gosta deste ou daquele presidente, não concorda com esta ou aquela decisão do STF, se isso é discurso antidemocrático ou só manifestação de opinião. É muito comum recebermos, em grupos de WhatsApp, links de notícias que são claramente fake news. E não foram enviadas por pessoas malformadas, pelo contrário. Não falta a essas pessoas educação midiática? Uma das questões que pretendo levar para o mestrado é: como combater a desinformação quando a verdade não importa? Esse é o caso, por isso falo do ambiente polarizado. A desinformação não é só o falso ou verdadeiro. Há nuances que são escamoteadas ou revestidas de opinião. O principal motivo é a tentativa de impor um ponto de vista, mesmo o interlocutor sabendo que não é verdadeiro. Se antes havia um terraplanista apenas, hoje há comunidades de terraplanistas, e você pode provar por A+B que a terra é redonda que ele vai continuar acreditando que é plana. Embora essas pessoas tenham formação, há um ponto, dentro da educação midiática, que é abordar o papel de cada um como produtor de conteúdo. O jornalismo sério tem a obrigação de dar ao seu público informações corretas e com todos os lados ouvidos, mas como saber se a escolha das pautas foi a melhor? A educação midiática também implica em se manter informado por várias fontes? Com certeza. Algumas fontes de informação, embora tenham matérias verdadeiras, são construídas a partir de uma visão enviesada. Um veículo de comunicação pode ter o seu viés de direita, de esquerda, de certo... Não tem problema nisso. Mas ele precisa ser transparente, deixar claro para seu público sua linha editorial. Esse é um ponto. O segundo ponto: para você formar a sua opinião, é preciso fazer uma leitura reflexiva sobre o que está lendo (propósito da informação, a quem interessa, quem foi ouvido etc.). Na medida em que você treina o olhar, isso passa a ser rápido e natural. Outra questão é a leitura lateral, você sair daquele veículo e olhar outros, com opiniões e fontes diversas. Na pluralidade de opiniões, você constrói a sua própria. Enquanto falamos sobre a necessidade de formar professores para a educação midiática, a inte-ligiência artificial corre para criar ferramentas como o ChatGPT. Isso é uma ameaça a todo esse processo, especialmente na educação de jovens? É uma ameaça se você receber esse conteúdo e não souber interpretar o que está ali, se não tiver repertório para isso. Tudo passa pelo desenvolvimento do pensamento crítico. Se já tínhamos um desafio que era educar as pessoas para o uso e a análise crítica das mídias, as ferramentas de inteligência artificial fazem com que isso se torne ainda mais necessário e urgente. Que recado você daria aos pais, que muitas vezes não sabem como lidar com essa oferta de conteúdos e veem seus filhos tanto tempo expostos a eles? A educação midiática é um tema que precisa nascer em casa. Os pais precisam olhar o que eles estão vendo no ambiente digital, quais os programas interessantes para oferecer aos filhos conforme a idade, olhar os termos de uso das plataformas digitais. Há uma série de atividades, mas, principalmente, também eles se formarem em educação midiática.