Descida da Serra do Mar, em direção à Baixada Santista, tem uma das maiores reservas de Mata Atlântica do Litoral Brasileiro. Mata preservada ajuda a capturar carbono (Carlos Nogueira / Arquivo AT) Em setembro, o Estado de São Paulo literalmente ferveu: dados de monitoramento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) registraram um aumento de 729% no número de focos de incêndio na primeira quinzena do mês em relação ao mês anterior. Para piorar, os termômetros também não deixaram a desejar. A sétima onda de calor do ano fez as temperaturas passarem dos 30º C em pleno inverno e sufocaram muitos paulistas. Mas não aqueles que moram no litoral. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Não que os caiçaras saiam ilesos das consequências do aquecimento global, mas há alguns fatores que conseguem proteger a região das ondas de calor. Entre eles, a protagonista é a Serra do Mar, cujo parque estadual é o maior corredor biológico da Mata Atlântica no Brasil. Mas antes de entender como essa cadeia montanhosa protege o litoral, é preciso compreender: o que são ondas de calor? Ondas de calor: Segundo o Ministério da Saúde, ondas de calor são eventos climáticos caracterizados por temperaturas que superam os níveis esperados para uma determinada região e época do ano. O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) considera que um local está sob uma onda de calor quando as temperaturas permanecem 5ºC acima da média durante cinco dias consecutivos. Entre os fatores que podem provocar o fenômeno, estão massas de ar quente e seco, bloqueios atmosféricos, sistemas de alta pressão (que aprisionam o ar quente) e ausência de chuvas. As ondas de calor também trazem impactos para a saúde da população, em especial para os mais vulneráveis como idosos, crianças, pessoas com problemas renais, cardíacos, respiratórios ou de circulação, diabéticos, gestantes e população em situação de rua. As organizações dizem que o pleito do governo federal "pode causar danos irreversíveis para o bioma" (Marcos Piffer/Especial para A Tribuna) Oásis no litoral Por sua vez, o litoral de São Paulo é banhado pela corrente oceânica do Atlântico Sul, que tem águas mais frias: a temperatura das águas oceânicas ficam entre 10º C e 20º C. Além disso, a região também é atingida pelos ventos vindo do leste. E é justamente a Serra do Mar quem preserva esse frescor na faixa costeira: composta pela Floresta Atlântica, que tem uma vegetação densa, ela retém uma grande quantidade de água e contribui para a manutenção da umidade relativa do ar. É o que explica o biólogo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Sidney Fernandes, doutor em Biodiversidade Vegetal e Meio Ambiente. “A Serra do Mar funciona como uma barreira impedindo os ventos mais úmidos de se dissipar e chegar ao interior e na capital”, diz. Um dos exemplos mais próximos disso ocorre na interligação das rodovias Anchieta e Imigrantes. “Ali é o ponto mais alto das rodovias, e normalmente há uma mudança do clima. Por isso que nossos amigos paulistanos, quando vêm para a Baixada Santista, dizem que aqui ocorrem as quatro estações no mesmo dia”, explica. Isso também explica o porquê chove tanto. “As nuvens ficam presas na Serra do Mar, e é por essa razão que, às vezes, ficamos com 15 dias de chuvas intermitentes”, explica Sidney. Enquanto a Serra mantém os ventos úmidos no litoral, o mar ajuda a dissipar o ar quente que, é claro, também chega aqui em determinadas épocas. Se não fosse ele, viveríamos em uma espécie de panela de pressão, segundo o biólogo. De floresta a deserto Há seis anos, um time internacional de pesquisadores, que conta com a colaboração do Instituto de Física da USP e da Unifesp, concluiu que o desmatamento iria provocar um aquecimento global ainda pior do que o previsto. “As árvores são como reservatórios de água naturais. Se você tirar a cobertura vegetal, você fica sem esse reservatório e a tendência é que o ambiente fique mais seco”, explica Sidney. Hoje, enquanto vivemos o que a Organização das Nações Unidas definiu como ebulição global, pode-se dizer que não faltaram avisos da ciência. A tendência é que lugares desmatados virem desertos, e este processo já está acontecendo na Amazônia. “A tendência é a desertificação da região, porque o deserto do Kalahari e do Saara, na África, já foram florestas”, explica o biólogo. No entanto, recentemente, tem aparecido mais oásis e vegetação por lá. “Teve uma monta de ventos fortes e úmidos que levaram a chuva para a região lá do deserto. Vê o que a diferença climática faz: num deserto está chovendo, e na floresta está ficando seco”, lamenta Sidney. Quando a vegetação é retirada de um local, o Sol passa a incidir diretamente no solo, que assim como o ar vai ficando mais quente. Por isso, a evaporação de água passa a ser mais rápida, e isso inclui a água que pode estar armazenada no solo, que é poroso. Isso também é um dos fatores que contribui para as ilhas de calor formadas nas cidades: como a maioria não tem cobertura vegetal e acumulam estruturas de concreto, além do trânsito e das indústrias, há uma retenção de calor muito maior, que torna a situação térmica sufocante. Área de vegetação nativa remanescente em Cubatão incorporada ao Parque Estadual Serra do Mar (Reprodução/Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística) Preservação ambiental Enquanto o desmatamento e as ondas de calor se tornam mais frequentes, o litoral de São Paulo representa um exemplo positivo na preservação da Mata Atlântica. No início do mês, A Tribuna noticiou que o equivalente a dez campos de futebol passaram a fazer parte do Parque Estadual Serra do Mar (PESM) com a integração da área nativa remanescente do bairro Cota 200, em Cubatão. Essa vegetação, embora “pequena” quando comparada ao restante do Parque, tem um grande papel a cumprir, segundo a Fundação Florestal, órgão vinculado à Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil). “É uma vegetação importante para amortecer impactos no restante da vegetação que fica mais dentro da floresta”, disse o diretor técnico Diego Hernandes. Na época, ele reafirmou a importância da Serra do Mar na proteção do litoral de São Paulo contra as ondas de calor. “Certamente isso é um resultado do PESM e dos serviços ecossistêmicos que ele presta”, disse. “Toda árvore em pé é importante no momento que estamos vivendo”.