(Benny Coquito/Divulgação) A causa que abraçou desde muito jovem e a intensidade que deposita nessa causa tanto nas pesquisas sociais como na atividade profissional fazem com que a conversa com Julianna Laffront pareça mais densa do que o comum a uma pessoa de 32 anos. Assistente social, mestre em Serviço Social e Políticas Sociais pela Unifesp e agora autora de livro, Julianna é presença constante nas redes sociais falando sobre população em situação de vulnerabilidade social e moradores em situação de rua. Há duas semanas, lançou o livro “Vida nas Ruas, perspectivas do debate político no poder legislativo municipal de Santos”, em que relata como a sociedade enxerga as pessoas que vivem nas ruas a partir dos requerimentos encaminhados à Câmara de Santos. Na conversa a seguir, Julianna fala sobre a necessidade de entender que as soluções não “são mágicas, mas decorrentes de um processo em que todos são responsáveis”. O livro ‘Vida nas ruas’ parte da análise de requerimentos e demandas encaminhadas à Prefeitura de Santos pela Câmara Municipal e pela Ouvidoria Pública em relação aos moradores em situação de rua. Por que escrever um livro sobre essa temática? Comecei como servidora concursada da Prefeitura aos 20 anos, quando já cursava Serviço Social na Unifesp. Comecei justamente nessa área, de abordagem social, e ser colocada nessa realidade aos 20 anos tão dura foi muito desafiador, porque é uma equipe que vai às ruas e encontra muitas vezes pessoas que se recusam a acessar os serviços. São os que estão com mais desesperança, menos motivação, são casos crônicos de rua. A gente se coloca no desafio de construir vínculos e alternativas junto com essas pessoas. Por estar na faculdade e vivenciando tudo isso nas ruas, fui buscar dentro da universidade as respostas para as minhas angústias profissionais. Foi um privilégio que agarrei com toda força, tive professores fantásticos. Foi uma troca muito boa, porque a academia só faz sentido com a realidade concreta. E em uma universidade pública, a gente precisa ter esse processo de extensão da comunidade para se retroalimentar. O livro cita demandas que vêm do Legislativo e da Ouvidoria Pública sobre a população em situação de rua. Como você conseguiu reunir esse material? Na época do mestrado, eu já estava trabalhando na Secretaria de Desenvolvimento Social e fazia parte das minhas atribuições receber os requerimentos, projetos de lei e as indicações dos vereadores. Quando essas demandas envolviam respostas das equipes de rua, que foi o local onde eu trabalhei primeiro, eu enviava a solicitação e aguardava o retorno para dar uma resposta mais completa ao vereador. Ali eu passei a entender o processo completo. E tinha muita demanda nesse sentido por parte dos vereadores? Muita, muita mesmo. Se a gente juntasse as solicitações dos vereadores com as da Ouvidoria, dava umas duas respostas por dia. Eu acessei o concurso público muito jovem e ter essa atribuição de lidar com pessoas em vulnerabilidade, com pessoas que têm os direitos violados, é um respeito quase religioso fazer, de fato, o seu melhor. E mesmo estando nessa função de responder os requerimentos não era diferente. Nesse trabalho de receber e responder os questionamentos sobre essa população, o que te chamava atenção? Muitas das demandas que a gente recebia acabavam perpassadas por moralismo, interpretações que se distanciavam da legislação e se aproximavam de um pessoalismo. Quando a gente fala de legisladores da Câmara, eu considero que são guardiões da Constituição e das políticas públicas. Então, eu recebia as demandas e me angustiava com algumas. O motivador daquela questão não era algo que se resolveria na assistência, não se esgotaria nas nossas ações. É algo muito maior, que envolve outras políticas públicas e a própria sociedade. Então, fui buscar as respostas na academia, e foi então que surgiu a ideia de pesquisar mais sobre isso. Há algum traço em comum nesses requerimentos? A gente usou uma metodologia que se chama análise de conteúdo, então, estruturamos todo esse material em perspectivas específicas. No livro, eu faço um contraponto com os textos medievais do século 13 ao 17. Fomos construindo o que chamamos de alegorias, que são formas de explicar. Temos, por exemplo, a alegoria do forasteiro, uma concepção de que se a pessoa está ali na rua, ela necessariamente não é daqui, é de fora. Isso leva a questões, por exemplo, de recâmbio, retorno para a cidade de origem. Isso não responde à totalidade da questão. Então, em comum, eu diria que são requerimentos com quatro categorias de alegorias que perduram desde o período medieval. No imaginário coletivo social, a gente vê que pouco se avançou nesse sentido. E uma outra questão: a assistência social continua sendo enxergada como tudo aquilo que remete à pobreza, é uma herança histórica que temos </CW>no Brasil. Na verdade, quando olhamos para pessoas que estão nas ruas, talvez o primeiro movimento fosse pensar em moradia, não em um acolhimento institucional. A problemática é muito maior, inerente à sociedade desigual em que vivemos. Enquanto houver desigualdade social sendo produzida, haverá pessoas vivendo nessa condição. O trabalho é inter-setorial. Ao longo dos anos, uma série de políticas públicas, organismos e movimentos foram criados para olhar diferente para essa população. Isso ajudou de alguma forma ou caminhamos ainda muito pouco enquanto sociedade? A Constituição, por si só, deveria valer, mas como existe uma distância muito grande entre o concreto e o Direito de papel, a saída foi criar políticas e movimentos específicos para tensionar essas relações de proteção social do estado e da sociedade civil. Tudo isso foi e continua sendo fundamental, porque é uma forma de dar um grito de existência, de dizer que está ali e pleitear que seja garantido o que já está previsto. Então, esses espaços que garantem que eles, que vivem essa situação, tenham direito de falar são extremamente importantes. Como essa é uma questão regional, não seria necessário que o tema fosse debatido de forma metropolitana? Existe um fórum de população em situação de rua que, com muita luta, tenta fazer esse movimento de junção, mas os municípios ainda olham de forma muito individualizada. Julliana, sabemos que cada caso é um caso e não há solução rápida ou homogênea, mas como fazer com que esse não seja o problema em que transformou nas cidades? O primeiro parâmetro é o fortalecimento das políticas, e que os servidores estejam qualificados, sendo cuidados, em quantidade adequada e que essa seja uma questão para além da assistência social. Eu não estou depondo contra a assistência, até porque sou servidora pública nessa área há 12 anos e ela é fundamental, mas é apenas uma das peças. Tem que ter habitação, saúde, cultura, educação, o esporte, enfim, os direitos do cidadão, de fato. E o diálogo precisa ser regional, porque isso faz toda a diferença. Mas enquanto isso... A expectativa do Legislativo é de uma resposta pronta. Da sociedade, é também ter essa situação resolvida e eu não jogo essa responsabilidade para o cidadão, apesar de que somos todos nós responsáveis pela sociedade que a gente constrói. Há o direito de votar, mas é preciso acompanhar os conselhos municipais, as audiências públicas....não é só de quatro em quatro anos. Não podemos nos preocupar apenas com os resultados, mas com o processo, o que é preciso fazer para alcançar esse resultado. É um baita desafio, não é simples de se fazer. Agora com o papel de servidora pública de Santos, você diria que essas políticas estão caminhando? A gente está caminhando e agora estamos em um momento determinante. Precisamos entender assim: aquela meta que foi colocada no plano de governo terá qual traçado para ser alcançada? Acredito que o prefeito esteja empenhado nisso, sim. O que vem dando resultado positivo dentro de toda essa estratégia de que não é só a assistência social que vai resolver? Na área em que eu atuo hoje, por exemplo, trabalhamos na integração ao mundo do trabalho para a pessoa em vulnerabilidade, não só morador de rua, mas também ele. Temos um leque de ofertas de cursos e atividades que visam garantir diferentes propostas para englobar esses diferentes perfis e momentos de vida. Quando a pessoa chega na rua, que é a situação mais extrema de vulnerabilidade social, é porque houve falhas de proteção social durante o percurso. E quanto mais crônica a situação está, mais difícil o aceite por parte da pessoa, mais investimento precisará ser feito. Algo que funciona muito, e que precisamos continuar investindo de fato, é a questão do mundo do trabalho. Também podemos fortalecer essa interlocução e chamamento ao setor empresarial da Cidade, os que geram empregos e vagas. Eles podem ser partícipes da solução. Temos aqui em Santos vários exemplos bacanas, como o Netão, do Bom Bife, que abre vagas em suas lojas de seis em seis meses. Ao final, ou ele absorve essa mão de obra ou entrega ao jovem uma carta de recomendação. Nossas equipes acompanham tudo isso e dão todo o suporte. Ou seja, há caminhos possíveis, mas é preciso investir tempo e acompanhar cada caso. Sim, é possível, mas não é simples assim: o curso e a vaga de imediato. Não é uma coisa fria, é todo um processo que envolve muitas coisas, as parcerias...Estamos imersos em um universo de avanços tecnológicos, de burnout, de vários fatores de adoecimento. Falando de um público que, no geral, tem vínculos familiares fragilizados, sem rede de apoio, com histórico de várias violações.....não é nada fácil. Nesse trabalho de abordagem nas ruas, alguma história que te marcou? Na primeira semana de trabalho, eu fui fazer uma abordagem na Praça José Bonifácio, e depois trabalhei com esse grupo por três anos. Na segunda vez que voltei a esse grupo eu os chamei pelo nome, e um dos homens começou a chorar. Achei que tinha feito algo de errado, então sentei ao lado dele para entender. Ele me disse que não lembrava qual tinha sido a última vez em que o chamaram pelo nome, e não pelo apelido. A primeira vez na vida que entrei em uma UTI foi para visitar alguém que atendia. A primeira vez que fui a um velório foi para uma pessoa que eu atendia. Então, é muito mais do que essa equação. Estamos falando de processos de desumanização muito fortes. Poderia ser qualquer um de nós. Quando a gente exercita essa empatia, se coloca no lugar do outro, a coisa muda de figura. Todos têm direito a moradia digna, saúde, educação. Isso deveria bastar, mas nessa sociedade em disputa em que estamos, em que a desumanização e o individualismo têm prevalecido, esse grito da humanidade precisa soar mais forte. Vamos fazer um exercício bem hipotético aqui: imaginar que você pudesse colocar em uma mesma sala todos os cidadãos que procuram a Ouvidoria para registrar uma queixa sobre morador em situação de rua, e todos os que procuram os vereadores também, o que diria a eles? O ideal seria aproveitar essa oportunidade para levar algumas pessoas que passaram por essa situação para que contassem suas histórias, poderem partilhar o que as levou a essa situação de rua, e o que de fato aconteceu para que saíssem desse cenário. Assim, poderíamos transmitir a mensagem do processo. Isso seria o ideal. Assim como o Executivo e o Legislativo, somos todos co-responsáveis pelo resultado e pelas questões que existem nessa sociedade em que vivemos.