Eleitores com 16 e 17 anos, com mais de 70 anos ou analfabetos podem escolher se vão às urnas ou não (Alexsander Ferraz/Arquivo AT) Mais de 205 mil eleitores da Baixada Santista poderão decidir se querem ou não participar das eleições de outubro. Levantamento do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostra que a região reúne 205.462 pessoas com voto facultativo, grupo formado por jovens de 16 e 17 anos, idosos com mais de 70 anos e analfabetos. O número representa 14,7% dos 1.395.541 eleitores aptos nos nove municípios da região, percentual superior ao registrado no Estado de São Paulo (12,9%) e também acima da média nacional (14,1%). Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Para cientistas políticos ouvidos por A Tribuna, esse cenário torna o desafio das campanhas ainda maior. Além de convencer esse eleitor a escolher um candidato, será necessário persuadi-lo de que vale a pena sair de casa para votar. Em uma eleição que tende a ser disputada voto a voto, esse grupo pode exercer influência decisiva no resultado. Santos concentra o maior número absoluto de eleitores com voto facultativo na Baixada Santista. São 64.657 pessoas, o equivalente a 18,6% do eleitorado do município. Na sequência aparecem Praia Grande, com 39.864 eleitores (15,1%), São Vicente, com 35.138 (13,7%), Guarujá, com 30.846 (12,9%), Itanhaém, com 11.826 (13,9%), Peruíbe, com 8.648 (14,4%), Cubatão, com 8.638 (9,6%) e Bertioga, com 5.845 (11%). No Estado de São Paulo, 4.384.312 dos 34.105.333 eleitores aptos têm voto facultativo. Em todo o País, são 22.244.128 pessoas entre os 157.846.602 eleitores cadastrados. O cientista político Fernando Chagas acredita que o peso desse eleitorado será ainda maior por causa da expectativa de uma disputa acirrada para a Presidência da República. “Qualquer voto é importante. A tendência é de uma eleição decidida por uma diferença muito pequena entre o vencedor e o derrotado. Por isso, o voto facultativo passa a ter um papel fundamental”, afirma. Segundo ele, as campanhas precisarão construir estratégias diferentes para cada público. Entre os idosos, temas como saúde, segurança pública, mobilidade urbana, aposentadoria e combate aos golpes financeiros tendem a despertar maior interesse. Já entre os jovens, a comunicação deverá abordar educação, primeiro emprego, cursos profissionalizantes, cultura, esporte e lazer. “Os candidatos precisarão mostrar que a política pode melhorar a vida dessas pessoas. Será preciso convencer tanto o jovem quanto o idoso de que o voto continua sendo importante”, acrescenta. Desencanto com a política Para o pesquisador e doutorando em Estudos Contemporâneos pela Universidade de Coimbra, Alexandre Gossn, a dificuldade para mobilizar esse eleitorado não é uma característica exclusiva do Brasil. Segundo ele, diversos países vêm registrando queda na participação eleitoral em razão do desencanto com a política e com a democracia. “Muitas pessoas deixaram de acreditar que o voto seja capaz de produzir mudanças concretas nas políticas públicas. Esse é um fenômeno observado em vários países e que também aparece no Brasil”, afirma. Na avaliação do pesquisador, esse cenário faz com que as campanhas deixem de concentrar esforços apenas na apresentação de propostas e passem a investir cada vez mais na mobilização emocional do eleitor. “As campanhas buscam persuadir mais do que convencer”. Comunicação e IA: desafios para o pleito deste ano O cientista político Ronaldo Ferreira afirma que os candidatos precisarão compreender as características de cada faixa etária para conquistar esse eleitorado. Segundo ele, os adolescentes de 16 e 17 anos responderam positivamente à campanha nacional de incentivo ao alistamento eleitoral realizada em 2022, quando milhões de jovens tiraram o título de eleitor. “O jovem de hoje é um nativo digital. A comunicação precisa acontecer onde ele está, principalmente no TikTok e no Instagram, abordando temas como mercado de trabalho, acesso à universidade, sustentabilidade e empreendedorismo”, diz. Já em relação aos idosos, Ferreira observa que o envelhecimento da população brasileira amplia o peso desse eleitorado. “O Brasil envelheceu e a Baixada Santista acompanha esse movimento, especialmente Santos. As campanhas precisarão apresentar propostas voltadas à saúde, assistência, mobilidade e qualidade de vida, além de facilitar o acesso desse eleitor às urnas”, afirma. Ele também destaca que muitos idosos enfrentam dificuldades com as novas tecnologias e que esse aspecto precisa ser considerado pelas campanhas. Inteligência Artificial Se nas eleições de 2018 o WhatsApp ganhou protagonismo e, em 2022, outras plataformas passaram a dividir espaço na disputa eleitoral, a expectativa dos especialistas é que a inteligência artificial seja um dos principais elementos da campanha deste ano. O cientista político Fernando Chagas acredita que os jovens continuarão sendo alcançados principalmente por vídeos curtos publicados no TikTok, Instagram e YouTube, enquanto o WhatsApp seguirá como principal ferramenta de comunicação com os idosos, especialmente por meio de mensagens de áudio. Para o pesquisador Alexandre Gossn, a inteligência artificial deverá ampliar o desafio do combate à desinformação. “A tecnologia poderá ser utilizada tanto para fortalecer quanto para desgastar a imagem de candidatos. O problema é que a velocidade da inteligência artificial é muito maior do que a capacidade de resposta”, afirma. Ronaldo Ferreira concorda e ressalta que caberá ao Tribunal Superior Eleitoral fiscalizar o uso dessas ferramentas para evitar conteúdos manipulados que possam influenciar o eleitorado.