A possibilidade de o fenômeno climático El Niño se transformar em um dos mais intensos já registrados provoca ações preventivas na Baixada Santista. Em Santos, a Defesa Civil decidiu antecipar em um mês o início do plano de contingência para o período de chuvas, diante da previsão de que temporais mais fortes poderão atingir a região já entre o fim de outubro e novembro. A principal preocupação são os morros. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! De forma inédita, o esquema especial, que normalmente começa em 1º de dezembro, vigorará de 1º de novembro a 30 de abril. O coordenador da Defesa Civil santista, Daniel Onias, afirma que a Cidade se prepara para tempestades, alagamentos, deslizamentos, vendavais e fenômenos oceânicos, como as ressacas, que estão mais frequentes. A preocupação não se restringe ao volume de chuva registrado em um único dia. Quando chove por dias consecutivos, o solo absorve água, perde estabilidade e pode deslizar mesmo após o temporal mais forte ter passado. "Como o escorregamento não é causado apenas pela chuva do momento, mas também pela chuva anterior, o solo vai se saturando. Calculamos que os problemas possam começar já em outubro e continuar durante o verão", afirma Onias. Equipes maiores A Defesa Civil de Santos tem cerca de 40 servidores. Durante a operação especial, poderá mobilizar mais de três vezes esse contingente, com funcionários de aproximadamente dez secretarias. Ficarão à disposição profissionais como engenheiros, assistentes sociais, fiscais, motoristas, operadores de máquinas e trabalhadores de serviços operacionais. Eles poderão atuar tanto em emergências quanto em ações preventivas, incluindo visitas a áreas de risco, orientação aos moradores, vistorias e limpeza de encostas e sistemas de drenagem. Morros monitorados Santos possui 17 morros na área insular e três na parte continental, onde existem 13.035 moradias em áreas que exigem algum grau de acompanhamento: 136 em risco muito alto; 4.676 em risco alto; 8.223 em setores de monitoramento. As áreas de risco ficam nos morros José Menino, Santa Terezinha, Marapé, Monte Serrat, Fontana, São Bento, Pacheco, Penha, Saboó, Jabaquara, Nova Cintra, Vila Progresso, Caneleira, Santa Maria, Ilhéu Alto, Cachoeira e em ocupações na Área Continental. O número de residências em risco muito alto diminuiu com remoções e obras de contenção, mas a Defesa Civil considera que muitas áreas ainda precisam ser monitoradas. Entre as medidas imediatas estão a retirada de resíduos das encostas, limpeza dos sistemas de drenagem e atualização dos mapas de risco para reduzir a possibilidade de escorregamentos. A Prefeitura também prepara locais para receber moradores caso sejam necessárias remoções temporárias, priorizando equipamentos públicos próximos às comunidades. Nas habitações mais vulneráveis, parte das famílias poderá ser retirada definitivamente antes do período mais crítico, caso os estudos indiquem perigo elevado. Nessas situações, a família recebe auxílio-aluguel, a construção é demolida ou descaracterizada para impedir nova ocupação e os moradores são incluídos nos programas habitacionais municipais. Nas demais áreas poderão ocorrer remoções preventivas temporárias quando houver grande volume acumulado de chuva e previsão de continuidade dos temporais. Segundo Daniel Onias, retirar uma família de casa é uma medida extrema, que rompe vínculos sociais e territoriais, devendo ocorrer apenas quando houver necessidade comprovada. Riscos devem persistir até o começo do ano que vem O El Niño é um fenômeno natural caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Essa alteração interfere na circulação dos ventos e modifica a distribuição das chuvas e das temperaturas em diversas regiões do planeta. O fenômeno foi confirmado em junho. O boletim mais recente elaborado por órgãos federais, como o Inpe e o Inmet, aponta probabilidade superior a 90% de que permaneça ativo pelo menos até o início de 2027. No Sudeste, seus efeitos são menos previsíveis do que no Sul. O cenário mais provável combina temperaturas elevadas, períodos prolongados de calor e chuvas irregulares, com possibilidade de temporais concentrados em curto espaço de tempo. Maior preocupação Na Baixada Santista, a preocupação aumenta porque a região reúne fatores de vulnerabilidade, como áreas densamente ocupadas, encostas habitadas, locais sujeitos a alagamentos e extensa faixa costeira exposta às ressacas. Temporais de curta duração sobrecarregam o sistema de drenagem urbana, provocam alagamentos e aumentam o risco de deslizamentos, principalmente quando o solo já está encharcado. O El Niño também pode influenciar a posição e a frequência das frentes frias. Como consequência, podem ocorrer sucessões de dias muito quentes interrompidos por tempestades, rajadas de vento e quedas bruscas de temperatura. A intensidade e a localização de cada evento somente podem ser determinadas por previsões meteorológicas de curto prazo. Alertas A Defesa Civil do Estado informou que mantém ações voltadas também para períodos de estiagem, quando aumenta o risco de incêndios em áreas de mata. Entre as iniciativas estão oficinas preparatórias, capacitações, envio de caminhões-pipa para municípios, investimento em novos radares meteorológicos e utilização de retardante químico no combate ao fogo. A população pode receber alertas meteorológicos cadastrando o CEP via SMS para o número 40199 ou por meio do sistema Cell Broadcast, que envia avisos automáticos em situações de risco, sem necessidade de cadastro. Outras cidades intensificam medidas preventivas Em Guarujá, plano municipal detalha áreas sujeitas a deslizamentos (Alexsander Ferraz / Arquivo AT) Os demais municípios da Baixada Santista também intensificam ações preventivas diante da possibilidade de um El Niño intenso. A Prefeitura de Praia Grande não respondeu aos questionamentos até o fechamento desta edição. Bertioga Não há áreas classificadas como de risco iminente para deslizamentos, mas a Defesa Civil monitora as condições meteorológicas e as áreas suscetíveis a alagamentos. O município mantém plano para chuvas intensas, acolhimento de famílias em escolas e serviços contínuos de limpeza de galerias e canais de drenagem. Cubatão A Prefeitura criou uma comissão permanente com secretarias e o Conselho de Meio Ambiente para definir ações de enfrentamento ao El Niño. Pretende adotar protocolos do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, ampliar a conscientização da população e reforçar a preparação da Defesa Civil. Guarujá O município fortalece o monitoramento e a participação comunitária. Os planos de Contingência e Preventivo de Defesa Civil foram atualizados, e o Plano Municipal de Redução de Risco detalha melhor as áreas sujeitas a deslizamentos. Há pluviômetros, alarme remoto em áreas de risco e envio de alertas por SMS. Itanhaém Está em execução o Programa Rios Vivos, em parceria com o Governo do Estado, para o desassoreamento do Rio Campininha. Também estão em elaboração o Plano Municipal de Adaptação às Mudanças Climáticas e a participação no Plano Regional de Adaptação e Resiliência Climática da Baixada Santista. Mongaguá A cidade monitora as condições meteorológicas e mantém planos específicos para o período chuvoso, estiagem e baixas temperaturas, além de integrar a Operação SP Sem Fogo. Entre as ações permanentes estão limpeza de galerias, rios e córregos, manutenção da drenagem urbana e monitoramento de áreas sujeitas a alagamentos. Peruíbe Possui plano de contingência para enchentes, abertura de abrigos e equipes treinadas para emergências. Como novidade, implantou sensores para monitorar o nível do Rio Preto, criou um grupo permanente de secretarias municipais e cadastrou voluntários para apoio em situações críticas. São Vicente Executa obras estruturais para reduzir os impactos das chuvas intensas, entre elas o revestimento do canal da Avenida Eduardo Souto, beneficiando bairros como Cidade Náutica, Pompeba e Tancredo Neves. O município também desenvolve um plano de macro e microdrenagem, com investimento estimado em R\$ 800 milhões, enquanto a Defesa Civil mantém treinamento constante das equipes.