Capa do livro à esquerda e à direita o Gabinete de Leitura, local do lançamento e onde Calixto deu aulas (Reprodução e J.Barnes/Divulgação) A memória sempre há de encontrar caminhos para não se apagar. Em 1895, o livro A Vila de Itanhaém, de Benedicto Calixto, cumpria o papel de resgatar o passado, até então, de sua cidade natal. Cento e trinta anos da primeira, e única edição, o livro volta a ganhar vida – e preservar a memória, não só da Cidade, mas de um dos artistas-chave para a História da Baixada Santista. Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! Em edição revisada e ampliada, A Vila de Itanhaém sai pela Noz Editoria, com lançamento sábado, no Gabinete de Leitura Itanhaense José Rosendo – local histórico que tem entre seus fundadores, em 1888, o próprio Calixto. “Ele dava aulas à população, até de astronomia, no Gabinete de Leitura”, diz Gustavo Caperutto da Mota, responsável pela nova edição. Mas a primeira edição, a original, só existiu porque Calixto visitou Paris. Mas o que teria a ver a capital francesa com Itanhaém? “Ele visitou museus, andou, e voltou apaixonado pela pesquisa histórica”, conta Gustavo. De volta ao berço, começou a se embrenhar em arquivos e registros da Cidade. “Calixto encontrou muita coisa jogada às traças”, diz Gustavo, enfatizando que, no Brasil, o descaso com a História é... histórico. O Convento de Nossa Senhora da Conceição é um marco histórico não só de Itanhaém, mas do Brasil (Walter Mello/ AT/ Arquivo) Atestado e incorreção A partir daí, Calixto começa a resgatar e compilar todos os documentos a que tem acesso. “Se não fosse por ele, muita coisa teria se perdido”, afirma Gustavo. Há, por exemplo, uma sessão inteira dedicada às atas das sessões da Câmara Municipal, de 1830 até àquela data. “Tem alguns registros engraçados”, conta Gustavo. É o caso do vereador que justificou a falta à sessão por problemas no pé. Porém, mais adiante, em outra entrada da ata, é registrado que alguém viu aquele vereador zanzando no Centro da Cidade, com o pé bem ligeiro. “Desde aquela época já existia o atestado”, sorri Gustavo. À época, sete anos depois da Lei Áurea, um documento resgatado, em especial, provocou a manifestação de Calixto: a lista dos escravizados do antigo Convento de Nossa Senhora da Conceição. “Sou católico fervoroso, mas não se pode fechar os olhos ao que não está correto”, escreveu. A partir de suas pesquisas, Calixto defende, no livro, que a data de fundação da Cidade deveria ser 8 de dezembro, data de instalação do Convento de Nossa Senhora – e não a de 22 de abril de 1532, quando da mera passagem de Martim Afonso de Souza pela área onde viria a ser Itanhaém. “Ele mostra isso e critica outros historiadores que tinham por hábito dizer que Itanhaém era largada, lugar de ‘pobres coitados’”. Roberta e Gustavo, os responsáveis pela nova edição do livro (Arquivo Pessoal) Pecado Até 2014, Gustavo Caperutto e sua mulher Roberta de Souza Caperutto eram apenas turistas em Itanhaém, que chamavam de “charmosa”. A pandemia mudou tudo. “Somos editores, fazemos revisão, minha esposa é ilustradora, eu também dou aulas de inglês, não precisávamos morar em São Paulo. Em 2022, decidimos mudar de vez”. O encontro com a obra de Calixto deu-se na Biblioteca Digital da Universidade de São Paulo (USP), que tem arquivado o livro de maneira virtual. “Achei um pecado a figura dele não ser reconhecida por mais gente no Brasil”, diz Gustavo. A nova edição física foi trabalhada preservando o texto original, mas sem descuidar da clareza: há 150 notas de rodapé, especialmente de palavras que caíram em desuso, como alfarrábio (livro antigo). E também de outros livros e documentos do Convento, cuja transcrição foi iniciada por Calixto, mas não concluída. Essas obras foram catalogadas agora, no próprio livro, e podem ser acessadas virtualmente. Mas o trabalho não para por aqui. Aliás, segue a todo vapor. “Já iniciei a reedição de mais duas obras de Calixto, Capitanias Paulistas e Memória Histórica sobre a Igreja e o Convento da Imaculada Conceição de Itanhaém”. Para adquirir o livro, ao preço de R\$ 50,00, acessar aqui. Para mais informações: (11) 99975-2633.