[[legacy_image_350056]] Dois em cada três vereadores da Baixada Santista trocaram de sigla durante a janela partidária, período de 30 dias — e que se encerra seis meses antes do primeiro turno das eleições — para que mudassem de legenda sem correr risco de perder o mandato por infidelidade à legenda pela qual foram eleitos (veja tabela mais abaixo). Levantamento de A Tribuna mostra que, dos 136 vereadores das nove cidades locais, 90 (66,2%) estão em agremiações diferentes daquelas pela quais disputaram as eleições de 2020. A Câmara de Itanhaém teve 90% de alterações, o maior índice regional. Dos dez vereadores, apenas um ficou no partido de origem. Praia Grande está a seguir, com 85,7% de transferências, o equivalente a 18 dos 21 legisladores. Santos teve o menor percentual, com um terço de trocas, ou sete dos 21 vereadores. O vaivém partidário também mudou a relação de forças nas câmaras. A maior redução de quadros foi no PSDB, que perdeu 87,5% dos vereadores na região. Das 32 vagas que obteve na eleição passada — 25,4% do total geral —, acabou com quatro. O encolhimento tucano também se deu no Executivo. Se, em 2020, o PSDB fez sete dos nove prefeitos, mudanças gradativas que refletem os cenários políticos nacional e estadual fazem com que esteja, agora, com apenas dois, os de Cubatão e Guarujá. Também não há mais predomínio tão largo de um partido sobre os demais na Baixada. Em 2020, empatavam na segunda posição PSB, PSD e Republicanos, com 11 vereadores cada. O União Brasil tinha 12, mas surgiu em 2021, da fusão de DEM e PSL. Agora, na região, a sigla com mais legisladores é o PSD, com 21. Depois, vem o MDB, com 17, impulsionado por uma intensa transferência de vereadores em Praia Grande, sobretudo do PSDB (veja quadros). Outra comparação: em 2020, os 136 vereadores eleitos se distribuíam em 19 partidos. Agora, 135 eleitos estão espalhados por 20 legendas — um deles não conseguiu novo partido para disputar o pleito deste ano. [[legacy_image_350057]] ReorganizaçãoEsta é a terceira vez desde o início da vigência das alterações promovidas pela Lei Federal 13.165, de 2015, em que se abriu janela partidária antes de eleições municipais. As anteriores ocorreram em 2016 e 2020. “Talvez a gente esteja vivendo em 2024 um momento de reorganização partidária, com o crescimento de algumas legendas, como é o caso do PSD, que herdou muitos políticos, prefeitos, vereadores do PSDB”, avalia o cientista político Alcindo Gonçalves, responsável pela metodologia e RI do Instituto de Pesquisas A Tribuna (IPAT). Gonçalves salienta que, geralmente, trocas de legenda não se dão por divergências de vereadores com o programa político da legenda anterior ou proximidade com o ideário da agremiação na qual se ingressou. “Não existem partidos que representem ideologias. A eleição de vereador tem uma característica de salve-se quem puder. É o interesse pessoal, individual, que conta”, pondera. “E, aí, aparecem essas aberrações, de mudanças para partidos que são diametralmente opostos.” Em razão disso, afirma, o dinheiro para o custeio de campanhas por partidos e “esquemas políticos ligados a prefeitos” ou pré-candidatos ao Executivo são decisivos para filiações. “O problema é uma desqualificação ideológica dos partidos políticos, da vida política de uma maneira geral. (...) Isso é lamentável, na minha opinião. A democracia precisa de clareza ideológica, programática”, entende. Efeito diluídoA polarização ideológica nacional, na qual o eleitorado se divide entre partidários do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), tem reflexos em escolhas partidárias. Eles, porém, estão diluídos e vão além desses dois partidos. “O bolsonarismo não tem partido, está presente em vários. O lulismo é maior que o PT”, julga o cientista político Alcindo Gonçalves. O analista acredita que contornos ideológicos poderão ficar mais claros à medida que se tornar mais rígida a cláusula de barreira. Esse instrumento regula o acesso ao fundo partidário e à propaganda eleitoral e rádio e televisão ao número de deputados federais de uma sigla ou federação. Na prática, diminuem os partidos com verba disponível para financiar a própria manutenção e campanhas políticas competitivas. Há, porém, outro fenômeno, mais antigo e que consiste no fato de o voto para vereador ser “paroquial”. “O eleitor também se acomoda nessa situação. (...) É um voto do amigo, do cara que pode trazer favor. Então, isso é um círculo vicioso que se retroalimenta”, considera.