[[legacy_image_332798]] O câncer foi envolto, por muito tempo, numa aura de “assunto-tabu”. Nem mesmo a palavra era mencionada, trocada pela expressão “aquela doença”. Pois o tempo passou e, com o avanço das pesquisas e tratamentos, a espécie de “sentença de morte” ficou para trás. No Dia Mundial de Combate ao Câncer, celebrado neste domingo (4), a perspectiva de cura cresceu na mesma proporção que a necessária crença em dias melhores. Segundo dados do Instituto Nacional de Combate ao Câncer (Inca), a estimativa é que, para o triênio 2023-2025, ocorram 704 mil casos novos de câncer anualmente. Desses, apenas os casos de câncer de pele não melanoma somam 220 mil (31,3%). Na sequência, vêm os casos de câncer de mama, com 74 mil (10,5%); próstata, com 72 mil (10,2%); cólon e reto, com 46 mil (6,5%); pulmão, com 32 mil (4,6%); e estômago, com 21 mil (3,1%) casos novos. Mas quem atua diretamente junto aos pacientes vê uma perspectiva positiva, sobretudo, para quem descobre o tumor de forma precoce. “Diante de um paciente com câncer, devemos adotar estratégias para manter a continuidade do cuidado, incluindo nutrir esperança e confiança no tratamento. Houve avanços significativos no tratamento e diagnóstico do câncer, permitindo a identificação das causas e implementação de medidas preventivas, como a abordagem ao tabagismo e à obesidade”, atesta o coordenador de assistência do Inca, Gélcio Mendes. A visão é compartilhada pelo médico oncologista Franklein Vieira Maia. “O panorama atual do diagnóstico e tratamento do câncer é extremamente favorável, as pesquisas são promissoras, o que proporciona maior conhecimento na prevenção, detecção e tratamentos modernos e individualizados. Vivemos a revolução da ciência em oncologia, reduzindo o estigma negativo que a doença possui”, aponta. Revoluçãoara Maia, no quesito tratamento, o panorama permite testemunhar o que chama de “revolução”, com o advento da imunoterapia e a terapia-alvo molecular. “Com esses tratamentos, podemos individualizar os cuidados, levando eficácia e mais segurança”. A mudança é vista no cenário sombrio de diversos tipos de câncer que, no passado, eram muito temidos. Um exemplo clássico foi o tratamento do melanoma maligno metastático, um tipo agressivo de câncer de pele que é tratado com imunoterapia com resultados bastante animadores. “O câncer de mama também se beneficia de imunoterapia e terapia alvo com comprimidos. Assim, conseguimos quase que triplicar o tempo de resposta”, afirma o oncologista. Para ele, a terapia chamada Cart-Cell que já é realizada fora do País, vem entrando no Brasil já e se modernizando. “Com isso, se consolida um gama de tratamentos que há 20 anos nunca imaginávamos que teríamos”, finaliza. Definitivamente, a tal “sentença de morte”, mudou para um futuro promissor. Instituto virou referênciaSe a ciência anda fazendo sua parte na busca pelas melhores soluções para o câncer, nunca precisamos tanto uns dos outros para encarar tempos aparentemente nebulosos, mas que oferecem possibilidade de serem trocados por dias menos tortuosos. Um exemplo de trabalho onde essa interação entre quem já venceu a doença e está em meio ao desafio do tratamento é o Instituto Neo Mama. Fundado por Gilze Francisco, falecida em 2021, a instituição é reconhecida pelo trabalho de excelência ao acolher pacientes com câncer. “A gente absorve os pacientes, advindos de todos os outros cânceres, não só de cabeça e pescoço, não só de mama, contribuindo aí para essa melhora global”, afirma a vice-presidente voluntária do Neo Mama, Liciane Tolledo Bello. Segundo ela, o câncer já é visto como uma doença crônica. “Temos muitos pacientes com metástase, inclusive, que podem ser acompanhados por um tempo longo e mantêm o seu tratamento, permitindo uma relativa qualidade de vida, quando assessorado por uma equipe multidisciplinar. Então acredito que o cenário do câncer está muito mais ligado a essa unidade em relação aos profissionais, que podem melhorar a qualidade de vida no enfrentamento da patologia”, sinaliza. VitoriosoQuem venceu o câncer, ou tem algum familiar que “tocou o sino”, ato que marca o fim exitoso do tratamento, sabe que a caminhada é longa, difícil, mas que pode ser percorrida com sucesso. É o caso do advogado santista Écio Lescrek. Em 2017, depois de uma biópsia feita, fragmentos da próstata, foi constatada a presença de um anadocarcinoma, um tumor maligno. Depois, então, lhe foram sugeridas três possibilidades: hormônios para neutralizar o crescimento do tumor; radioterapia ou a prostatotomia radical, a extração da próstata - essa foi a opção feita. “O PSA (Antígeno Prostático Específico, proteína produzida pelas células epiteliais da próstata) normal de uma pessoa com 40, 50 anos, é menos do que 4. O meu estava com quase 10 antes da cirurgia. E, posteriormente, foi para zero. Depois, houve um movimento de subida e, no ano passado, ano retrasado, fui submetido a uma radioterapia. Depois, desapareceu completamente, o que significa dizer que estaria curado”, relata. “A partir dos 40, 50 anos, todo homem deve fazer exames, porque, se detectado ainda na sua fase inicial, tem quase que a totalidade da possibilidade de cura”, acrescenta. (AF) Artigo: “O AMOR CURA”, por Luciana Cruz, jornalista, 49 anos, curada de um câncer de mama “Era um dia comum, de rotina. Trabalho, casa, filhos e, ao final do dia, quando fui tomar um banho, ao usar o sabonete líquido, massageando meu seio direito, senti uma elevação retangular. Pensei: “Ufa, não éum nódulo” - afinal, não era um caroço, formato que sempre ouvi nos relatos de mulheres com câncer mama. Não imaginava o que estavs por vir. Como tenho problemas cardíacos, fui ao médico para pediros exames anuais. Foi quando mostrei à médica, que me pediu o ultrassom de mama e uma mamografia. Estava no meu quarto dia de férias, mais precisamente em 4 de agosto de 2022. Na clínica onde fiz o exame na mama, recebi a pior notícia: eu estava com câncer. Fiquei completamente atônita, e ao ver meu desespero, a médica me perguntou se eu tinha um mastologista. Disse que não e, na mesma hora, ela marcou uma consulta. Aí começou a batalha mais importante da minha existência: a luta para viver. Fiz a biópsia do tumor e todos os exames necessários para saber o tipo de câncer e qual o tratamento iria seguir. Em 23 de setembro, passei pela cirurgia, preservando a mama, tendo apenas parte retirada, fazendo o chamado quadrante. Caramba, estava curada! Sem o câncer vivendo em meu corpo. Um mês depois, estava iniciando um processo bem mais doloroso, a quimioterapia. No meu tratamento, foram prescritas 16 sessões de quimioterapia. Também nem imaginava como era. Mas, sentada em uma cadeira, recebia diversos medicamentos, incluindo as “gotinhas de amor” . Assim que passei pela primeira sessão, veio o meu maior pesadelo: ficar careca. Vaidosa, sofri demais. Perdi minha identidade feminina. Mas optando em assumir a “careca”, levei firme e forte o meu propósito de viver, com ou sem cabelo. Depois de três meses de quimioterapia, encerrei o ciclo, e segui para a radioterapia, com 15 sessões. Hoje sigo no tratamento, que tem duração de cinco anos, só que tomando o medicamento. Os meses vão passando e meus cabelos, cílios e sobrancelha estão crescendo lindamente e, aos poucos, vou me reconhecendo novamente no espelho. Quando soube o meu diagnóstico de câncer de mama, logo pensei: vou morrer sem ao menos completar 50 anos. Deixar meu marido e meus filhos. Mas esse pensamento teve vida curta. Hoje, agradeço todos os dias ao abrir os olhos e ter o prazer de acompanhar mais um amanhecer. Durante minha jornada, recebi todo o apoio e carinho da minha família e amigos. Posso dizer, com toda certeza, que o amor cura”.