[[legacy_image_43686]] As marcas no rosto são do cansaço de quem ainda vive o medo, busca forças para encarar a morte de dezenas no mesmo dia e se despede da família para cuidar do amor de alguém. Por trás de máscaras que machucam a face e tampam o sorriso acolhedor, milhares de profissionais recebem hoje os aplausos no Dia Mundial da Enfermagem - só na região, há mais de 26 mil enfermeiros e outras centenas de técnicos e auxiliares. Clique e Assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe acesso completo ao Portal e dezenas de descontos em lojas, restaurantes e serviços! Atuando de maneira heroica e silenciosa em hospitais e unidades de saúde todos os dias, eles que cuidam de pacientes isolados da família e com pouca esperança em tempos de pandemia de covid-19. “A área de Enfermagem é a linha de frente. Nenhum robô substituiu a gente, que dá o banho no paciente, aspira e segura a mão dele. Trabalhar em cima desses pacientes totalmente dependentes deu o senso de respeito e da importância dessa profissão. São 24h dando assistência”, diz a professora de Enfermagem da Universidade Católica de Santos (UniSantos) Joice Maria Fernandes. A função, para ela, vai além de ter atenção em sinais e sintomas. “É ler as entrelinhas. Um simples falar no celular é muito complexo. Vemos hoje a morte solitária, apesar de fazer e continuar fazendo. Eles sequer conseguem se despedir de seus familiares”. Em seus 32 anos de formada, é a primeira vez que se depara com uma situação dessa gravidade. “Peguei o início do HIV, a H1N1, mas nada que fizesse o mundo parar”. A coordenadora de Enfermagem da Universidade Metropolitana de Santos (Unimes), Elaine Cristina dos Santos Giovanini, diz que vocação, dedicação e profissionalismo são requisitos dos bons profissionais, mas a profissão pede ainda carinho e empatia. “É um desafio proporcionar o cuidado de qualidade, planejado e humanizado”. Ela acredita que os que atuaram e vivenciaram essa pandemia sairão mais fortes e experientes. “A pandemia nos trouxe a reflexão da importância do conhecimento, mas também da empatia”. O presidente do Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo (Coren-SP), James Francisco dos Santos, ressalta que é evidente, hoje, o protagonismo que essas equipes sempre tiveram. “São heróis, pois também perderam familiares e amigos e mantêm seu profissionalismo e sua dedicação”. [[legacy_image_43687]] Samandha Elide Gagliardi Iannuzzi: “Cuidamos do amor de alguém” É no olhar e no tato que a enfermeira Samandha Elide Gagliardi Iannuzzi, supervisora das UTIs e do Pronto Atendimento do Hospital de Cubatão, administrado pela Fundação São Francisco Xavier, se conecta com seus pacientes, apesar de estar toda paramentada. Com 43 anos de idade e 20 de profissão, a moradora do Marapé, em Santos, lembra de uma senhora que estava prestes a ser intubada. “Ela me olhou e pediu que eu segurasse a sua mão. Eu a acalmei e fiquei junto. No final, ela se curou e saiu de lá com vida. Todos os dias, nós cuidamos do amor de alguém e ter isso em mente é fundamental”. Em casa, para manter a saúde dos seus amores, ela tem um banheiro e uma máquina de lavar roupas separados. “É um passo de formiguinha dentro dos hospitais. Cada pequena melhora é comemorada. Os profissionais que vivem essa pandemia são outros, veem a Medicina e a forma de cuidar de outra maneira”. [[legacy_image_43688]] Celes Lene Lourenço de Andrade: “Prefiro lembrar dos finais felizes” Nos dias mais intensos, Celes Lene Lourenço de Andrade, de 41 anos e enfermeira há 12 anos, teve de sair para respirar, se equilibrar e voltar para continuar trabalhando na Unidade de Pronto Atendimento de Peruíbe, que recebe pacientes com covid-19. “Acredito que todos mudamos bastante, pois aprendemos com as derrotas e comemoramos todos os dias de luta. Prefiro lembrar dos finais felizes, de recuperação e de volta para casa, mas vivenciamos muitos dias de tristeza e bastante morte. Nossa missão é acolher não apenas os pacientes, mas suas famílias”, explica a moradora do Parque Daville, em Peruíbe. “Nosso olhar hoje, com aprendizado, ficou diferenciado. Sou casada e tenho um filho de 4 anos, e com a necessidade e dedicação no trabalho mudei a vida em casa. Fico menos tempo com eles e, no começo, tentava resistir aos pedidos de abraço do meu filho. A enfermagem é um grande exemplo de entrega, carinho e dedicação”. [[legacy_image_43689]] Juliana Bitencourt de Araujo: “É lindo ver quem consegue sobreviver” Ainda no escuro, sem saber o que esperar da covid-19, Juliana Bitencourt de Araujo, de 39 anos, se isolou em um quarto dentro de casa e falava com os filhos por vídeo. “A gente não sabia com o que iria lidar. De repente, precisávamos tampar o rosto e não teriam mais sorrisos”. No currículo, a moradora do Jardim Casqueiro, em Cubatão, tem um ano de UTI covid-19 na Beneficência Portuguesa, e pós-graduação em atendimentos em UTI e urgência e emergência. Na prática, uma profissional mais humana. “É lindo ver pessoas que conseguem sobreviver. Sempre gostei de cuidar do próximo, e se colocar no lugar daquele que está deitado no leito faz a diferença. Poderia ser alguém meu”. Moradora do Jardim Casqueiro, em Cubatão, Juliana tem fé e esperança que tudo isso passará. “No Dia das Mães, almocei com meus filhos on-line. A minha família precisa entender que eu tenho de salvar a vida de alguém. Cuidar da gente é muito mais difícil”. [[legacy_image_43690]] Eliane Cunha Nascimento: “Tememos contaminar as nossas famílias” O novo coronavírus chegou e, com ele, trouxe o medo dos profissionais de saúde de contaminarem suas famílias. “Colocamos a família um pouco de lado, porque mesmo em casa meu tempo é voltado ao hospital. Ainda peço para minhas filhas de 12 e 15 anos para que me ajudem, que entendam, para que eu possa ajudar outras pessoas. Em casa, ainda tem o cansaço”, conta a coordenadora das UTIs da Santa Casa de Santos, Eliane Cunha Nascimento, que tem 41 anos de idade e 16 de profissão. Os pacientes são mais solitários e o ambiente é triste, diz ela, que mora na Vila Áurea, em Guarujá. “Eles não têm direito à família, à visita. São muitos pedindo pelo amor de Deus para não serem intubados e famílias inteiras destruídas. Estão todos exaustos”. Profissionalmente, Eliane conta que aprendeu muito com a pandemia. “Quando isso passar, vou valorizar as mínimas coisas como o abraço, a reunião com a família e as coisas simples que não podemos fazer hoje”. [[legacy_image_43691]] Larissa de Carvalho Espinosa: “Nós vemos o paciente de um jeito diferente” No último ano da faculdade, Larissa de Carvalho Espinosa, de 23 anos, se habilitou para ajudar na linha de frente da covid-19 pela ação O Brasil Conta Comigo, do Governo Federal. O estágio foi no PS de Vicente de Carvalho, durante oito meses. “Havia profissionais afastados por serem do grupo de risco e outros doentes. No começo, tive medo e estava assustada, mas fui com a cara e a coragem. Tudo isso foi muito importante para a minha formação profissional e como ser humano. Vi pessoas morrerem e outras se curarem”. Ela mesma, que mora na Vila Alice, em Guarujá, teve covid-19. “Não adianta cuidar do ser humano sem amor. Os enfermeiros são importantes, pois estão com o paciente o tempo todo. Passam os outros profissionais para atendimento, mas quem fica é a enfermagem, então vemos o paciente de uma forma diferente. A gente conversa, tem o carinho e o cuidado, eles se abrem e vemos o que eles precisam além da medicação”.