Para Ariel, desafio é o reconhecimento como especialista em educação; Luiz diz poder ajudar alunos a fazer próprio caminho (Alexsander Ferraz/AT) A alegria de ver uma criança ler a primeira palavra, a confiança de um estudante que encontra na escola um lugar seguro e a emoção de adultos que voltam a estudar depois de uma vida inteira sem essa oportunidade. No Dia do Professor, nesta quinta-feira (15), histórias de educadores mostram como o trabalho em sala de aula também é feito de escuta, afeto e pequenas ações capazes de marcar vidas. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Professora da rede municipal de São Vicente há 22 anos, Thais Maciel de Souza Padella, de 48, trabalha há 16 na Escola Municipal Raul Rocha do Amaral, no Jardim Irmã Dolores. Uma história que marcou sua carreira foi a de uma aluna que chegava à escola aos gritos e resistia a ficar. Ela conta que, ao conversar com a menina, descobriu que tinha problemas familiares e assumia responsabilidades que não correspondiam à sua idade. Com o apoio da equipe escolar, a professora tranquilizou a criança. A segurança de saber que não estaria sozinha fez a menina mudar de comportamento, participar das atividades e avançar na aprendizagem. Thais relata que a rotina faz com que ela pense nos estudantes mesmo no descanso. Quando assiste a um filme, logo imagina qual deles poderia se interessar pela história. “O trabalho do professor é 24 horas”, brinca. Acompanhar o desenvolvimento de cada criança motiva a professora. “A alegria de ver uma criança lendo a primeira palavra é uma coisa que, se eu pudesse, fotografaria.” Evolução de crianças alegra Thais (Arquivo Pessoal) Esperança A professora Ariel Nascimento Santos, de 32 anos, filha de educadora, começou a dar aulas na adolescência e coordena o Ensino Médio da escola Maple Bear, em Santos. Neste ano, ela acompanha a formação da primeira turma de Ensino Médio da escola desde sua chegada à instituição, há 13 anos. Na época, ela tinha 18, a idade que os alunos têm agora, ao concluir essa etapa. Para a professora, um dos principais desafios da profissão é fazer com que se reconheçam os professores como especialistas em educação, e não apenas como figuras de afeto. “A sociedade ainda nos vê como tias, e não como profissionais. (...) Ninguém entra na educação por dinheiro ou por fama, é porque a gente acredita e ama a humanidade”, afirma. Professor de História, Luiz Torres de Souza, de 37 anos, está há quatro na Maple Bear e encontrou na sala de aula a oportunidade de acompanhar de perto o amadurecimento dos estudantes, após trabalhar por anos como educador em museus e centros culturais. Ele ressalta que o trabalho envolve ajudar os alunos a superar dificuldades, expressar ideias e construir próprios caminhos. Acredita que o professor precisa compreender as particularidades de cada turma e adaptar a forma de ensinar. Souza avalia, porém, que esse acompanhamento individualizado esbarra na rotina de trabalho dos professores. Para ele, uma gestão saudável do tempo e boas condições de trabalho são fundamentais para a educação cumprir seu papel social. Simone leciona para jovens e adultos e se emociona com avanços (Felipe França/Prefeitura de Praia Grande/Divulgação) Alfabetizar é concretizar sonhos Aos 56 anos, Simone Mota Pera, professora da Escola Municipal Carlos Roberto Dias, no Boqueirão, em Praia Grande, encontrou na Educação de Jovens e Adultos (EJA) um presente para encerrar a carreira. Após passar por 15 escolas e trabalhar com turmas da Educação Infantil ao quinto ano, retornou à sala de aula neste ano, após 12 anos dedicados à pedagogia comunitária. Na turma de séries iniciais da EJA, convive com estudantes que não puderam estudar quando crianças. Alguns precisaram trabalhar cedo, outros foram impedidos pela família ou se casaram jovens. Agora, buscam se alfabetizar e realizar tarefas cotidianas com autonomia, como usar um caixa eletrônico ou fazer transferências por Pix. “Eles são cidadãos, votam, utilizam o comércio local, levam os filhos para a escola, criaram suas famílias. Só que não lhes foi dado o direito ao estudo”, afirma a educadora, que diz se emocionar ao acompanhar cada avanço. Uma de suas alunas, de 76 anos, chegou à escola sem conhecer as letras nem conseguir escrever o próprio nome, um sonho antigo. A experiência reforça uma convicção dela: todos podem aprender e evoluir. Para ela, ensinar exige disposição para ouvir e reconhecer o que cada pessoa traz. “Você tem que se doar o tempo inteiro, estar ali o tempo todo, com o coração junto”, resume. Na sala de aula, essa entrega se transforma em oportunidade para quem, por muito tempo, acreditou que era tarde demais.