Carolina Ramos, 102 anos (Alexsander Ferraz/AT) Juntas, elas somam mais de 400 anos de vida e amor. Pela família, por suas atividades, pela rotina singela. Quatro mães, com idade superior a 100 anos, têm suas histórias contadas - ou, ao menos, uma parte delas, neste Dia das Mães. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! De Santos a Itanhaém, os destinos delas talvez nunca tenham se cruzado. Mas se encontram no zelo pela família e no respeito de quem ama e admira suas trajetórias. Abaixo, cada uma delas é retratada de forma carinhosa - como elas são. Boa leitura. A doçura de Aline Silva Nascimento está tanto na voz como nas páginas de um livro de poesias de sua autoria. Ela, que tem 104 anos, celebra cada dia como o centro das atenções da família, formada por 4 filhos, sendo 2 já falecidos, 7 netos, 14 bisnetos e 2 tataranetos. Na pandemia, por exemplo, muitos familiares foram morar com ela, que teve covid-19 de forma branda. Em torno da mesa, em um café da tarde acolhedor, reúne a todos com extrema simpatia. “Eu me conformei com o que me apareceu, o que a vida veio trazendo. Sempre tive uma boa voz. Fui sempre caprichosa”, narra. Sua escola pôde fazer um programa de rádio, e a pequena Aline se destacou. “A que soubesse cantar, cantava. Quem soubesse teatro, faria. Eu sempre fui saliente. Me convidaram para cantar, e eu fui”. Dona Aline fez da voz um diferencial. Tanto que gravou dois CDs com canções românticas. Quando era bem menina, cantava na igreja e foi descoberta por uma rádio de Santos, que a convidou para cantar. Como era menor de idade, o pai a levava e ficava esperando. Chegou a sair numa capa de revista, e tinha uma voz tão linda e doce que lhe rendeu o apelido de Canarinho de Ouro. “Tenho filhos ótimos, que não me deram trabalho para criar. Vieram os netos com a mesma educação, porque não saíram nunca de perto de mim. E isso foi passando de geração para geração”, descreve Aline. Ela garante que nunca foi preconceituosa e viu as mudanças na sociedade ao longo de décadas com respeito. “Eu me aproveitei de muita coisa boa no mundo. Então, não tenho o direito de ter preconceito. Eu acho que é um atraso”, ensina. Medo de tecnologia? Nenhum. Celular e tablet não são mistérios para ela, que ainda curte uma boa novela. “Tenho saudade da juventude, era muito brincalhona. Tive muita sorte, com pais maravilhosos”, complementa. A baiana Edna Chaves Gonçalves, de 101 anos, vive num mundo próprio, mas totalmente conectado com a família por conta do amor - e de seu jeito espirituoso. Ela, que nasceu em 16 de outubro de 1924, não desperdiça chances de interagir em qualquer assunto que achar necessário, sempre com precisão. Edna Chaves Gonçalves, 101 anos (Alexsander Ferraz/AT) O corpo franzino não esconde a força de quem criou 8 filhos e que se formou enfermeira, mas que na maior parte do tempo se dedicou à família. “Ela é uma pessoa muito perspicaz. Tudo que a gente fala, ela acompanha. Tem dias que interage mais. Mas ainda procuramos exercitar um pouco a cabeça dela”, diz a filha, a depiladora Hagar Fernandes, de 71 anos. Há espaço para a vaidade na vida de dona Edna. Colares elegantes e unhas perfeitas acompanham o gosto pela música, seja o baião de outros bailes, seja a canção latina Quizás, do compositor cubano Osvaldo Farrés. Ou ainda hinos de fé, entoados a cada culto que assiste. “Ela tem uma saúde exemplar, nenhum tipo de doença”, surpreende-se a filha. A brejeirice também convive com algumas estripulias. Por isso, exige cuidados extras, como nada de chaves nas portas. Tamanha responsabilidade é parte de um compromisso firmado com o cuidado da mãe. “Dá trabalho, sim: banho, trocar de roupa, comida, mais ou menos comida. Eu monitoro ela, Mas, no geral, ela é de boa. Tem gente que fala ‘arruma uma cuidadora’, Mas aí vou ter que cuidar da cuidadora e dela”, explica Hagar. Os encontros de família, quando ocorrem, são ocasiões especiais. Mas Edna só pôde ter os filhos juntos, depois de adultos, numa única ocasião: no dia da eleição para governador - 15 de novembro de 1982. A data repousa na memória da matriarca. “Foi a última vez que nós estávamos juntos. Lembro que estava com meu pai, quando ela falou: ‘Que bom ver meus oito filhos aqui’”, conta Hagar. O amor se fez, e se faz presente, mesmo em meio ao silêncio. A vista da praia é imagem frequente no cotidiano de Carolina Ramos, de 102 anos, recém-completados em 19 de março. A partir da janela de seu apartamento no Embaré, contempla a cidade que é “toda sua”. Pois da janela da alma nasceu uma poetisa com 23 livros publicados - cada um como um filho, tão acarinhados como os outros 3 “de fato”, com 4 netos e 5 bisnetos. Aline Silva Nascimento, 104 anos (Alexsander Ferraz/AT) “Sempre fui muito tímida. Filha única, não tinha muita liberdade, tive uma infância solitária, com meus livros e pensamentos. Mas isso me deu a facilidade de chegar a receber o título de escritora, que para mim me enche de carinho”, conta. No convívio com a prole, exercitou a função mãe com carinho, transmitindo valores importantes, como relata um dos filhos, a bióloga Márcia Ramos de Oliveira, de 68 anos. “Ela foi uma mãe que por vezes dava bronca, aquilo que a gente chamava até de ‘chinelo voador’. A gente brigava, mas ela não queria saber quem era culpado - eram todos”, exemplifica. “Mas ela passou valores, como o amor pelos animais, além de humanidade e caridade e o gosto pela música. Saboreamos a arte por conta dela”. Carolina Ramos lançou o livro mais recente, Colheita, a peça mais nova de uma construção que começou tímida, mas segue amparada no carinho da família e de quem admira sua obra. “A palavra é um elemento fundamental na minha vida. Não posso pensar de outra forma. São meus fãs que adoram tudo que eu faço. E eu acredito que eu faça tudo de bom”. E olha que a enfermeira, que sonhou cursar Medicina, por pouco não esteve com o Exército brasileiro na Segunda Guerra Mundial, na Itália. A idade (não tinha 18 anos completos) a impediu. Os lapsos de memória, segundo ela, são motivo de susto. Mas não a ponto de mudar o destino que a vida lhe deu. “Se Deus me desse mais um século de vida, faria a mesma coisa. Acho que Deus já me deu demais. Tenho uma família que me honro de ser amada. O que mais posso pedir?” Em um sítio no bairro Jardim São Fernando, em Itanhaém, reside a felicidade de uma vencedora. De quem deu a volta em uma vida dura e que chega a incríveis 110 anos (fará 111 no próximo mês) ainda sendo o centro da família. Isídia Maria da Silva é exemplo para quem a rodeia. Isídia Maria da Silva, 110 anos (Sílvio Luiz/AT) Seja sentada na cadeira de balanço, ou caminhando pelo terreno, ela mostra vitalidade, apesar dos movimentos dificultados. Não abre mão de fazer seu feijão (com pé de boi) e arroz nem de um bom perfume, tampouco de torcer pelo seu Flamengo. Basta citar o clube carioca e ela cantarola os versos de Samba Rubro-Negro, imortalizado pelo sambista João Nogueira. A xícara de café na varanda e a vontade de conversar compõem o ambiente ideal. “Eu gosto muito do meu Pernambuco. Mas fiquei sem o maridão, aí o meus filhos estavam aqui em São Paulo. Eu mexi com muita coisa na vida. Graças a Deus, sou acreditada, não gosto da mentira”, resume ela. “Meus filhos todos sabem assinar o nome, mas eu não sei assinar o meu. Aos 7 anos, meu pai me dava uma enxadinha e falava ‘vamos para o roçado’. Minha escola foi o cabo da enxada”. Foram 21 filhos, sendo que só 10 vingaram - destes 4 já morreram, restando outros 6: Edilene, Edenize, Edneuza Isaac, Paulo e Ivanize. Todos criados com dificuldade. “Eu sou mãe quatro vezes: dos meus filhos, netos, bisnetos e tataranetos. Não dou mau conselho, nem ensino caminho ruim. Sou muito feliz”, resume. Após morar por anos em Praia Grande – onde criou admiração pelo prefeito Alberto Mourão (MDB), de quem tem um quadro na parede da sala –, vive na calmaria de Itanhaém, rodeada por animais. A fé, essa nunca faltou. “Se tem uma coisa que não quero deixar jamais, é o amor de Deus”, ensina. “Estou perto de ir embora para morar com Ele e meus filhos que se foram”.