(Adobe Stock) Adotar no dia a dia as práticas embutidas no conceito ESG — em português, ambiental, social e governança — é fundamental para reduzir os impactos das mudanças climáticas em médio e longo prazos. Também ajuda a ampliar a consciência quanto a esses temas, lembra o professor e consultor em ESG Gustavo Loiola. “Isso se traduz em práticas mais sustentáveis, como redução de emissão de gases de efeito estufa, incentivo à transição energética, melhor uso de recursos (água e energia), consumo consciente e também engajamento social. Essa combinação colabora para o desenvolvimento sustentável e a nos tornar mais preparados para enfrentar os desafios”, define. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! No aspecto ambiental, o foco no uso de energias renováveis e na economia circular permite que as empresas reduzam sua pegada de carbono, contribuindo para o cumprimento das metas globais de redução de gases de efeito estufa, como as estabelecidas no Acordo de Paris. A Organização das Nações Unidas (ONU) destaca a necessidade de uma queda de 45% até 2030 para limitar o aquecimento a 1,5 grau. No Brasil, as emissões aumentaram 9,5% em 2020, impulsionadas pelo desmatamento da Amazônia, que representou 44% do total. No mundo, 12 milhões de hectares de florestas são perdidos por ano. “A médio prazo, práticas ESG podem levar à maior inovação em tecnologia limpa e à transição energética, diminuindo a dependência de combustíveis fósseis”, ressalta a professora da Fundação Getulio Vargas (FGV), Marcela Argollo. Cerca de 80% da energia global ainda vem de combustíveis fósseis, como petróleo, gás natural e carvão, responsáveis por cerca de 75% das emissões globais de gases de efeito estufa. “Investimentos anuais em energia limpa precisam triplicar até 2030, chegando a cerca de US\$ 4 trilhões (R\$ 22,084 tri), para que a transição seja viável. Além disso, o setor de energia renovável precisa crescer 5% ao ano até 2030 para acompanhar a demanda e compensar a diminuição do uso de combustíveis fósseis”, projeta Marcela. Créditos e natureza O mercado de créditos de carbono no Brasil tem crescido de forma expressiva nos últimos anos, refletindo a maior conscientização da importância da sustentabilidade e da descarbonização nas operações empresariais. Dados da Environmental Defense Fund (EDF) indicam que o mercado voluntário de carbono no Brasil movimentou cerca de R\$ 200 milhões em 2021. Em 2022, o número de empresas brasileiras interessadas em comprar ou vender créditos de carbono aumentou 47%, em comparação ao ano anterior, segundo o Instituto BVRio. O Brasil tem mais de 150 milhões de hectares de florestas sob risco de desmatamento, representando grande potencial para o aumento de projetos de geração de créditos de carbono mediante a preservação. O Governo Federal tem discutido a criação de um mercado regulado de carbono, o que poderia impulsionar o setor, com mais transparência e segurança jurídica. “Portanto, é vital adotar compromissos mais ambiciosos de redução de emissões, proteção dos biomas, como a Amazônia, e promover inovações tecno-lógicas e energias renováveis, garantindo que a transição verde reduza desigualdades e promova a regeneração da natureza”, alerta Marcela. Atitudes em destaque A mudança de mentalidade dos líderes empresariais e governamentais é crucial para impulsionar a ação climática. Líderes com visão voltada para a sustentabilidade podem promover decisões estratégicas que priorizem o ESG. Isso alinha as empresas e organizações às demandas globais por práticas sustentáveis e cria oportunidades de inovação, redução de custos e adaptação a novas regulamentações. Comprometer-se com a transição para uma economia de baixo carbono torna as mudanças necessárias para enfrentar a crise climática mais viáveis e impactantes. Substituir combustíveis fósseis por fontes renováveis (solar, eólica, hidrelétrica) reduz drasticamente as emissões de gases de efeito estufa, amenizando o aquecimento global. A economia circular reduz o consumo de matérias-primas e a geração de resíduos, diminuindo emissões de carbono e preservando os recursos naturais e ecossistemas. Florestas absorvem grandes quantidades de gás carbônico, ajudando a estabilizar o clima. Reduzir emissões no setor agropecuário por meio práticas agrícolas regenerativas e dietas mais sustentáveis ajuda a combater as emissões de metano e CO² Coordenação global e políticas públicas eficazes são fundamentais para incentivar a transição para uma economia de baixo carbono e cumprir as metas climáticas globais. Exemplo: simuladores menores e limpos Responsável por qualificar trabalhadores portuários, o Instituto de Capaci-tação Técnica e Profissional (Incatep), em Santos, usa simuladores que diminuíram de tamanho com o tempo e atendem as práticas ESG. São compostos, basicamente, por óculos de realidade virtual, com programas desenvolvidos por uma equipe do instituto, dois controles e um notebook, mais fáceis de transportar. A maioria, porém, ainda usa equipamentos mais pesados e menos funcionais, como dois televisores, quatro computadores e uma cadeira de 150 quilos, mas estão sendo trocados. “Hoje, a gente tem 40 (simuladores) funcionando aqui. Tem de empilhadeira, de guindaste, de empilhadeira de grande porte, de trator e assim por diante”, afirma o diretor operacional do Incatep, João Gilberto Campos. “Cada litro de diesel deixa 2.58 quilos de dióxido de carbono (CO<MD->2<MD>) no ar. Cada hora de simulador economiza, em média, 50 litros de diesel. A cada 12 horas de utilização de equipamento, evita-se uma tonelada de CO<MD->2<MD>. É nosso processo de descarbo-nização”, conta. O processo de criação dos primeiros simuladores começou em 2005. O motivo era a indisponibilidade dos equipamentos reais. “O Porto não é como a indústria, que pode parar a produção em um período. Como eu vou ligar para um armador e falar assim: ‘Olha, eu vou pegar 10 contêineres seus para colocar alguém para treinar’?. Ninguém vai deixar”, argumenta. Há economia de diesel e energia elétrica — esta é limpa. “Socialmente falando, tem também o aspecto de segurança. Até porque o cara que vai aprender dentro de um simulador o risco dele ocasionar um acidente é muito menor. E tem também a questão da governança, pois você tem condições de entregar uma pessoa mais bem formada e, automaticamente, faz com que a empresa tenha mais sustentabilidade”, define. Campos foi além na vantagem do simulador. “Já tivemos casos de alunos nossos que terminaram o curso no simulador e vão trabalhar, naturalmente, no equipamento real oferecido pelo terminal. O rapaz foi e produziu mais do que o cara que já trabalhava lá. Prova da eficiência do simulador”. (TS) Equipamentos do Incatep diminuem de tamanho e poluem menos (Divulgação) Novas práticas são legado para o clima Outra prática é necessária: convencer as antigas gerações — em especial os nascidos entre 1945 e 1964, os chamados baby boomers (da explosão de bebês, em português, nos países ocidentais) — sobre a importância das práticas ESG contra os efeitos das mudanças climáticas. “Práticas ESG visam a assegurar um legado positivo, garantindo de maneira sábia que filhos e netos tenham acesso a um planeta saudável, economias estáveis e sociedades justas”, afirma a professora da FGV, Marcela Argollo. Mostrar que a sustentabilidade é uma necessidade para a sobrevivência das futuras gerações faz essa mudança de mentalidade mais assertiva, diz Marcela. “É uma forma de garantir que as empresas e sociedades estejam adaptadas para o futuro. Assim como tecnologias e práticas que as gerações mais velhas introduziram foram essenciais para o progresso, o ESG representa a inovação necessária para garantir a prosperidade das próximas gerações”, define. Professor e consultor em ESG, Gustavo Loiola cita “o conceito do desenvolvimento sustentável, cunhado no Relatório Brundtland (publicado em outubro de 1987 e coordenado pela então primeira-ministra da Noruega, Gro Harlem Brundtland): o jeito que vivemos hoje, não pode comprometer a capacidade do planeta em atender às necessidades das futuras gerações. Ou seja, o nosso desenvolvimento não deve esgotar os recursos para o futuro”.